Envelhecer não é um processo que começa aos 60 anos. Muito antes disso, o corpo já dá sinais das escolhas feitas ao longo da vida e também das condições que nem sempre dependem apenas de cada pessoa. No Brasil, essa conta parece chegar mais cedo. Um estudo publicado na revista PLOS One aponta que os brasileiros começam a apresentar perda de capacidade funcional cerca de dez anos antes dos europeus.

A pesquisa avaliou pessoas com 50 anos ou mais e analisou a capacidade de realizar atividades do cotidiano. Entraram na análise desde tarefas básicas, como tomar banho, se vestir e se alimentar, até ações que exigem mais autonomia, como fazer compras, utilizar transporte público e administrar as próprias finanças.

O resultado chama atenção, mas não significa que o brasileiro envelheça mais rápido biologicamente. A diferença está, principalmente, nas condições em que a população chega à velhice. Doenças acumuladas, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, desigualdade social e menor oportunidade de prevenção fazem com que muitos brasileiros apresentem limitações funcionais mais cedo.

Para a enfermeira, professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás (UFG) e vice-coordenadora do Núcleo Interdisciplinar em Envelhecimento da universidade, Valéria Pagotto, o estudo mostra que a idade, sozinha, não explica como uma pessoa envelhece. “Esse estudo mostrou, portanto, que os brasileiros apresentam um nível de desempenho funcional semelhante ao observado em europeus aproximadamente dez anos mais velhos, especialmente para as atividades instrumentais da vida diária”, afirma.

Na avaliação do geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) em Goiás, Rychard Arruda de Souza, a diferença entre duas pessoas da mesma idade pode ser grande. Uma pode manter autonomia e independência; outra pode já apresentar dificuldades para atividades simples. “O corpo chega ao seu ápice na fase adulta e, a partir daí, começa um declínio gradual. Dependendo de como são os hábitos de vida dessa pessoa, isso vai refletir na funcionalidade e na independência que ela vai ter quando idosa”, explica.

Esse processo, segundo os especialistas, começa muito antes da terceira idade.

Desigualdade aparece com o passar dos anos

A comparação entre Brasil e Europa também passa pelas diferenças sociais. Para Valéria Pagotto, pessoas que enfrentam mais dificuldades ao longo da vida tendem a chegar à velhice com mais problemas de saúde acumulados. “Pessoas expostas, ao longo de suas vidas, a fatores como menor escolaridade, baixa renda, piores condições de moradia e acesso limitado aos serviços de saúde tendem a acumular mais fatores de risco e doenças crônicas, resultando em perda funcional mais precoce”, detalha.

A pesquisadora explica que não é possível analisar o envelhecimento brasileiro sem considerar essas desigualdades. O acesso à prevenção, ao tratamento adequado e às condições básicas de vida interfere diretamente na forma como a população envelhece. “Esses fatores aceleram o início de doenças crônicas e a consequente perda funcional, exigindo estruturas de apoio formalizadas ou cuidados informais uma década antes do que o observado em países de alta renda”, afirma.

Atividade física entra como prevenção

Entre os fatores que ajudam a preservar a autonomia ao longo dos anos, a atividade física aparece como um dos principais. Mas, para o geriatra Rychard Arruda, esse cuidado não deve ser deixado apenas para a velhice.

Segundo ele, muitas limitações que aparecem na terceira idade começam a ser construídas ainda na vida adulta. Por isso, esperar o surgimento de dificuldades para mudar os hábitos pode tornar o processo mais difícil. “Qualquer idade em que a pessoa inicie a atividade física é primordial para mitigar a incapacidade, seja aos 70 ou aos 80 anos”, afirma.

O médico explica que começar uma rotina de exercícios mais tarde pode ser um desafio maior, principalmente quando já existem dores, perda de força muscular ou limitações de mobilidade. “Convencer um idoso a começar a se exercitar é muito mais difícil do que manter o hábito adquirido na juventude”, observa.

Para Rychard, o combate ao sedentarismo precisa fazer parte das políticas de saúde pública. Ele compara o impacto da falta de movimento ao de outros hábitos reconhecidamente prejudiciais. “O sedentarismo é o tabagismo do nosso século”, afirma.

À esquerda, o geriatra Rychard Arruda de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) em Goiás; à direita, a enfermeira Valéria Pagotto, professora da Faculdade de Enfermagem da UFG e vice-coordenadora do Núcleo Interdisciplinar em Envelhecimento da universidade | Foto: Montagem/Jornal Opção

O próprio estudo reforça essa relação ao apontar que indicadores como força muscular e velocidade da caminhada podem ajudar a identificar pessoas com maior risco de perda funcional.

Apesar da importância dos exercícios, o geriatra destaca que envelhecimento saudável não se resume à condição física. Manter vínculos sociais, cuidar da saúde mental e continuar participando da vida em comunidade também fazem parte desse processo. “O primeiro que a gente pensa sempre é o idoso fisicamente ativo. Então, a atividade física é fundamental. Mas o idoso também precisa envelhecer ativamente no âmbito social e familiar”, explica.

Para ele, questões como solidão, ansiedade, estresse e qualidade do sono também interferem diretamente na forma como uma pessoa envelhece. “Socialmente ativo, mentalmente ativo”, resume.

Goiás tem cenário mais positivo, mas ainda enfrenta desafios

Quando comparado a outras regiões do país, Goiás apresenta alguns avanços na conscientização sobre envelhecimento saudável, segundo Rychard Arruda. O médico avalia que a população tem demonstrado maior preocupação com alimentação, prática de exercícios e redução do estresse.

Ele cita como exemplo a presença cada vez mais frequente de idosos em parques e espaços públicos de Goiânia praticando atividades físicas. “Goiás hoje já figura entre os estados que têm, sim, uma melhor conscientização”, afirma.

Apesar dos avanços, o especialista ressalta que essa realidade não é igual em todos os municípios. Enquanto algumas cidades apresentam maior oferta de espaços e informações voltadas à promoção da saúde, outras ainda enfrentam dificuldades no acesso à prevenção e ao acompanhamento adequado.

Para Valéria Pagotto, o resultado da pesquisa deve servir como um alerta sobre a forma como os brasileiros estão envelhecendo. O desafio, segundo ela, não está apenas em viver mais anos, mas em garantir que esse tempo venha acompanhado de independência.

Aumentar a expectativa de vida sem ampliar a qualidade desses anos significa prolongar também períodos de dependência e limitações.

Na avaliação de Rychard, a mudança precisa acontecer antes que os problemas apareçam. O acompanhamento médico, segundo ele, não deve começar somente quando a pessoa chega à terceira idade, mas ainda durante a fase adulta. “Erroneamente, hoje só procura o geriatra o paciente que já é idoso. E a gente deveria acompanhar desde adultos jovens”, afirma.

Para pessoas com fatores de risco, como hipertensão, diabetes ou colesterol elevado, esse acompanhamento pode ajudar a evitar complicações no futuro. “Quanto antes começar esse acompanhamento, melhor”, resume.

O envelhecimento é inevitável, mas a perda precoce da autonomia não precisa ser. Para os especialistas, investir em prevenção, ampliar o acesso à saúde e estimular hábitos mais saudáveis são caminhos para mudar a forma como o brasileiro chega à velhice.

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