A discussão sobre os termos hispânico e latino é marcada por história, política e identidade cultural, embora muitas vezes usados como sinônimos, eles não significam a mesma coisa. Os brasileiros são latinos e sul-americanos, mas não hispânicos, e essa distinção ajuda a compreender como diferentes comunidades se reconhecem e são reconhecidas.

A palavra “Hispânico” vem do latim Hispanicus, usado pelos romanos para designar a Península Ibérica, que inclui Espanha e Portugal. Nos Estados Unidos, o termo ganhou força no século XIX para identificar descendentes de espanhóis no sudoeste do país. Já latino surgiu como abreviação de latino-americano, em meio às independências das colônias espanholas no século XIX. América Latina passou a designar países colonizados por nações de línguas românicas, como Espanha, Portugal e França. Por isso, brasileiros entram na categoria de latinos, mas não de hispânicos.

Nos anos 1960, em meio ao movimento por direitos civis, comunidades buscaram termos que refletissem orgulho e resistência. Os chicanos, descendentes de mexicanos nos Estados Unidos, adotaram uma palavra derivada da pronúncia indígena de mexicano. Já porto-riquenhos passaram a se identificar como boricuas, resgatando o nome indígena da ilha, Boriquén. Essas escolhas reforçavam soberania cultural frente à marginalização.

A ausência de dados oficiais dificultava a luta dessas comunidades. Até meados do século XX, o governo classificava apenas brancos, negros e outros. Em 1930, mexicano chegou a ser listado como raça, mas foi abandonado. A pressão de organizações como o National Council of La Raza levou à inclusão da categoria hispânico em 1976, obrigando órgãos federais a coletar estatísticas sobre pessoas de origem mexicana, porto-riquenha, cubana e de outros países de língua espanhola. O censo de 1980 foi o primeiro a oficializar essa contagem.

Apesar de institucionalizado, o termo hispânico gerou críticas. Ele vinculava comunidades latino-americanas à Espanha, apagava indígenas e falantes de português, como os brasileiros, e até lembrava insultos raciais usados contra trabalhadores migrantes. O termo latino ganhou força por soar menos colonial, mas também enfrentou resistência por sua generalização. Mais recentemente, surgiu o Latinx, versão neutra de gênero, alvo de debates sobre aceitação.

Para estudiosos como Nancy López, da Universidade do Novo México, nenhum termo consegue abarcar a diversidade de experiências. Ela destaca que latino ou hispânico muitas vezes são usados como sinônimo de raça, ignorando a realidade de uma pigmentocracia, hierarquia social baseada na cor da pele. A socióloga defende que identidades deveriam considerar tanto a auto-definição quanto a percepção social, o que chama de raça de rua.

Segundo o censo de 2020, cerca de 62,1 milhões de pessoas, 19% da população dos Estados Unidos, se identificaram como hispânicas. Mas uma pesquisa do Pew Research de 2019 mostrou que quase metade prefere se identificar pelo país de origem da família, como mexicano ou dominicano. Os outros 39% usam hispânico ou latino, e 14% simplesmente americano.

Os brasileiros são considerados latinos, mas não hispânicos. A diferença entre os termos revela mais do que semântica, expõe histórias de colonização, resistência e busca por reconhecimento. Em um cenário de diversidade tão ampla, a identidade segue sendo múltipla, e os rótulos, ainda que úteis em políticas públicas, nunca dão conta da complexidade das vivências.

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