Entre decisões e “causos”: livro “Não Consta dos Autos” revela histórias dos bastidores da magistratura goiana
24 setembro 2026 às 17h05

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Ao Jornal Opção, o desembargador Altamiro Garcia Filho apresentou, nesta quinta-feira, 24, os detalhes do projeto literário que coordenou ao lado do colega Itaney F. Campos. A obra coletiva “Não Consta dos Autos: histórias de magistrados goianos”chega ao seu segundo volume, reunindo 40 crônicas que serão lançadas no dia 6 de outubro, às 17h, no Espaço Cultural Goiandira do Couto, na sede do TJ-GO.
Há mais de três décadas de atuação no Judiciário, Altamiro explica que a ideia surgiu da observação de encontros informais entre magistrados, nos quais eram contados “causos” e episódios marcantes da carreira. “Eu tenho trinta e poucos anos de magistratura e, sempre que havia encontros antigamente em Goiânia, nós ouvíamos causos e histórias de magistrados”, recorda.

“Principalmente os mais antigos contavam histórias muito engraçadas. Com o tempo, percebi que esses magistrados se aposentavam ou faleciam, e essas histórias acabavam sendo esquecidas. Foi aí que surgiu a ideia de catalogar essas histórias que não foram parar nos processos”, completa.
O projeto é desenvolvido pela Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJ-GO, com apoio do desembargador Luiz Cláudio Veiga Braga e do historiador Nasr Chaul. A proposta central é revelar a dimensão humana da atividade jurisdicional, mostrando aflições, medos e dúvidas que não aparecem nas peças processuais.
“A intenção é manter viva a cultura da magistratura e registrar aquilo que não chegou ao conhecimento das partes processuais, mas que é interessante. A tentativa é justamente mostrar o lado humano do magistrado, as suas aflições, os seus medos e as suas dúvidas. Afinal, dependendo da decisão adotada, o juiz pode mudar a vida de uma criança ou de uma família inteira. O livro mostra o peso dessas escolhas e o objetivo é transmitir à sociedade aquilo que o magistrado viveu”, afirma.
Seleção das histórias
Os organizadores convidaram desembargadores e juízes aposentados a escreverem episódios marcantes de suas carreiras, em textos de até cinco páginas. “O critério foi convidar os desembargadores mais antigos e os aposentados, perguntando a eles qual história marcou a sua carreira e qual gostariam que fosse repetida para os seus filhos e netos. Pedimos que selecionassem uma e a escrevessem. Estabelecemos alguns parâmetros, como um limite de cerca de cinco páginas, embora alguns tenham escrito mais e outros menos”, explica.

No segundo volume, além dos magistrados em atividade e aposentados, houve espaço para descendentes de juízes já falecidos. “Nos casos dos magistrados já falecidos, nós entramos em contato com os filhos e pedimos que escrevessem uma história que o pai costumava contar. Isso emocionou muito os filhos, pois foi uma lembrança marcante receber esse convite”, relata.
Nos exemplos citados constam os causos de Homero Sabino, ex-presidente do TJ-GO, que foram preservados pelos filhos depois de sua morte. “O Desembargador Homero, por exemplo, tinha histórias hilárias e, após o seu falecimento, esses causos correriam o risco de desaparecer. O mesmo acontecia com o Desembargador Fenelon e com outros magistrados que tinham relatos fantásticos. Por isso, no caso do Desembargador Homero, os próprios filhos escreveram a história para este livro”, aponta.
Ele contou que desembargadora Sandra Regina Teodoro, filha do desembargador Fenelon Teodoro Reis, registrou no primeiro volume uma passagem inusitada da carreira do pai. “Ela escreveu no primeiro volume uma passagem muito engraçada sobre o pai ter condenado uma pessoa e, mais tarde, ter ficado com o carro atolado na estrada, precisando pedir ajuda a essa mesma pessoa para desatolar o veículo”, conta.
Inspiração acadêmica e impacto social
Ao avaliar o impacto da obra no meio jurídico e acadêmico, Altamiro ressalta que o livro preenche uma lacuna fundamental na formação dos estudantes e profissionais do Direito, abordando aspectos práticos e éticos que não constam na literatura técnica. “Com certeza, isso nenhum professor ensina nas aulas”, enfatiza.
O magistrado também destaca a importância de reaproximar a magistratura do cidadão e desmistificar caricaturas negativas atribuídas à categoria. “A ideia é inspirar gerações. Estamos muito carentes de referências que nos inspirem, e essas histórias podem marcar bastante quem deseja seguir a magistratura, principalmente os estudantes de Direito. Relatos assim podem comover ou ajudar alguém num momento difícil”, reflete.
“A intenção é fazer com que a sociedade nos veja como realmente somos. Infelizmente, a magistratura é muitas vezes retratada pela comunicação social de forma negativa, e eu entendo a razão de isso acontecer diante de tantas notícias ruins. No entanto, a grande maioria dos magistrados é composta por pessoas honestas, trabalhadoras e comprometidas em entregar a justiça. A nossa ideia é resgatar a essência da magistratura, que é servir ao cidadão”, pontua.
Após consolidar os dois primeiros volumes o desembargador garante que já planejam expandir o projeto. “Pretendemos fazer um terceiro volume e, nele, vamos passar a incluir os juízes de primeiro grau, já que até agora estávamos a trabalhar apenas com os desembargadores”, antecipa.
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