A decisão do governo federal de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina comum, aprovada nesta terça-feira, 14, pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), deve produzir efeitos diferentes para os motoristas brasileiros. Enquanto veículos flex mais modernos tendem a funcionar normalmente, sem risco de danos mecânicos, carros antigos e alguns modelos importados podem apresentar problemas de desempenho. Além disso, a nova composição deve aumentar o consumo de combustível. O alerta é do diretor do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO) e engenheiro mecânico Weslley da Silva Alves.

“Os carros flex modernos não têm risco de quebra porque foram projetados para funcionar até mesmo com 100% de etanol. O motorista, porém, vai sentir o impacto no bolso, porque quanto maior a quantidade de etanol na gasolina, maior será o consumo de combustível. Já nos veículos antigos, projetados para gasolina pura, existe um risco real de danos mecânicos”, afirmou ao Jornal Opção.

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Weslley da Silva Alves: “o motorista, porém, vai sentir o impacto no bolso” | Foto: Acervo pessoal

A medida terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período. Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a expectativa é que a nova composição passe a valer a partir de 1º de agosto.

De acordo com Weslley, o aumento da participação do etanol reduz a eficiência energética da gasolina, uma vez que o biocombustível possui menor poder calorífico do que a gasolina de origem fóssil.

“O etanol gera menos energia por litro. Quando aumenta sua participação na mistura, a eficiência energética da gasolina diminui. Na prática, o veículo percorre menos quilômetros por litro, reduzindo a vantagem econômica da gasolina comum”, explica.

Veículos antigos exigem maioVeículos antigos exigem mais atenção

Os maiores impactos da nova mistura devem ser sentidos por veículos fabricados em uma época em que a gasolina continha uma proporção menor de etanol, além de alguns modelos importados desenvolvidos para combustíveis com especificações diferentes das adotadas no Brasil.

Segundo Weslley, nesses casos, a mudança pode comprometer o funcionamento do motor e acelerar o desgaste de alguns componentes. Entre os principais problemas estão:

  • corrosão de peças metálicas;
  • ressecamento de mangueiras, juntas e retentores;
  • dificuldade na partida;
  • perda de potência;
  • funcionamento irregular do motor;
  • alterações no sistema de injeção eletrônica.

“Esses veículos foram calibrados para uma composição diferente da gasolina. Ao aumentar o teor de etanol, o sistema pode ficar desregulado, provocando perda de desempenho e até falhas de funcionamento”, explica.

Qualidade do combustível também preocupa

Além da nova proporção de etanol, o engenheiro chama atenção para a necessidade de reforçar a fiscalização da qualidade dos combustíveis vendidos nos postos.

Segundo ele, mesmo veículos preparados para a nova mistura podem apresentar problemas caso o etanol utilizado esteja fora das especificações técnicas.

“O maior conselho ao motorista é abastecer em postos de confiança. Se houver problemas na qualidade do combustível, isso pode acelerar processos de corrosão e comprometer componentes do motor, principalmente nos veículos equipados com injeção direta”, afirma.

Para Weslley, a fiscalização é fundamental para garantir que a gasolina comercializada atenda aos padrões estabelecidos e não provoque prejuízos aos consumidores.

Indústria automotiva pede cautela

Embora o governo federal sustente que a frota brasileira está preparada para receber a gasolina com 32% de etanol anidro, parte da indústria automotiva considera que a mudança ainda exige uma avaliação mais aprofundada.

Após a decisão do CNPE, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou nota em que manifesta preocupação com a adoção da nova mistura sem estudos específicos sobre sua compatibilidade com toda a frota nacional.

Segundo a entidade, os testes que embasaram a adoção do E30 não avaliaram aspectos como durabilidade dos motores, emissões de poluentes, autonomia e desempenho dos veículos operando continuamente com gasolina contendo 32% de etanol. Por isso, a associação defende a realização de uma validação técnica mais ampla antes da implementação definitiva da medida.

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