Por que Marconi não valorizou a segurança e a polícia quando governador? Quem não se lembra do Simve e das greves?
29 agosto 2026 às 21h00

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Entre o falar e o fazer sempre há um abismo. É importante ver o quanto isso ganha significado na política. Durante o período eleitoral, diversos candidatos aparecem como verdadeiros “salvadores da pátria”, com soluções quase “mágicas” para todo e qualquer tipo de problema existente na sociedade. Entretanto, chega a ser contraditório alguém reconhecer a existência dessa questão, ter passado por um espaço de poder e não ter feito o necessário para mudar essa realidade.
A segurança pública é pauta para debate dos candidatos a governador. Seja pela falta dela ou pelos baixos índices criminais que um trabalho integrado, aliado à tecnologia e a robustos investimentos, trouxe para a sociedade. Atualmente, Goiás tem se destacado pelo segundo motivo.
Entretanto, muito se tem falado sobre a valorização dos policiais, que é de extrema importância. Afinal, o crime tem se tornado cada vez mais sofisticado. São pessoas cada vez mais preparadas para lesar, de alguma forma, o cidadão e o Erário. Desse modo, ter uma polícia bem preparada, equipada e sempre à frente dos criminosos é dever de um governo que quer cuidar das pessoas.
Mas falar e fazer são coisas diferentes. Hoje, quem já teve a oportunidade de fazer isso — e não fez — quer tentar convencer as pessoas de que conta com autoridade moral para levantar essa bandeira e atacar os adversários.
O candidato do PSDB a governador de Goiás, Marconi Perillo, tem ressaltado, em suas participações em sabatinas, que vai priorizar a valorização da categoria policial goiana. Durante seus quatro mandatos, houve feitos que devem ser reconhecidos, como a criação do Comando de Operações de Divisas (COD), a construção de presídios e a aquisição de viaturas e outros equipamentos necessários para o trabalho das forças de segurança.

Mas urge refrescar a memória do candidato quando falamos em valorização. Em 2013, agentes e policiais civis ficaram quase 90 dias em greve em busca de um acordo com o governador sobre reajuste salarial. Ele cobravam um aumento proporcional a 60% do que era pago aos delegados. Também eram solicitados a reestruturação da carreira e o bônus por produtividade, que era pago aos delegados.
Na época, o secretário de Segurança Pública, Joaquim Mesquita, participou de uma reunião com os líderes do movimento, intermediada pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO), na qual foi apresentada uma contraproposta ao governo, o que demonstrava um caminho para chegar a um consenso sobre o percentual de reajuste. Nessa altura, cerca de 90 mil ocorrências deixaram de ser registradas nas delegacias do Estado
Em outro encontro, Joaquim Mesquita disse que o governo só teria condições de pagar o bônus de produtividade, de 5% a 20%, o que foi aceito pelos grevistas, junto com o plano de reestruturação da carreira. Antes disso, Marconi Perillo determinou que os pontos dos grevistas fossem cortados, sob o argumento de que todas as alternativas já haviam sido apresentadas. O episódio demonstrou que, naquele momento, já não havia mais espaço para conversa com o tucano.

Dois anos depois, uma nova manifestação foi realizada pelos servidores da Segurança Pública. Dessa vez, a cobrança era pelo cumprimento de um compromisso firmado com bombeiros, agentes prisionais, policiais civis e militares, segundo o qual o reajuste salarial da categoria seria dividido em quatro parcelas.
Na segunda parcela a ser paga, Marconi Perillo informou que não cumpriria o pagamento devido à falta de recursos. Em 2014, o governador pagou o equivalente a 18,5% do total previsto. As demais parcelas ficaram em 12,33% e deveriam ser pagas em 2015, 2016 e 2017 — último ano completo do mandato de Marconi Perillo, que acabou se licenciando, em abril de 2018, para tentar uma vaga ao Senado.

Em 2018, o grupo tucano foi derrotado, na disputa pelo governo, por Ronaldo Caiado. O tucano não foi eleito senador.
Na época, o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado de Goiás (Sinpol-GO), Paulo Sérgio Araújo, deu uma declaração que deixava evidente a insatisfação dos trabalhadores com o não cumprimento do acordo pelo governo, assim como com a falta de estrutura de trabalho. “Nós já não temos investimento em segurança pública, e agora, nem os acordos de reposição salarial serão cumpridos. O trabalhador fica sem vontade de trabalhar, sem o incentivo para trabalhar. E nós não queremos isso, nós queremos servir bem a sociedade”, afirmou ao g1 em 24 de novembro de 2015.
Sabe o que acontecia um dia antes? O toque de recolher no Residencial Real Conquista, sobre o qual trago mais detalhes em um material que preparei para o Jornal Opção (https://tinyurl.com/3f97tju8).
Naquela época, criminosos ligados a uma facção ordenaram que os comércios do bairro não abrissem e que os moradores permanecessem em casa em respeito à morte de um traficante local. Foi uma demonstração evidente da situação de insegurança vivida em Goiânia naquele período. Moradores destacaram que “toque de recolher” era algo sobre o qual só se ouvia falar no Rio de Janeiro e que, devido à ineficiência do Estado à época, tornou-se uma realidade próxima.
Mesmo com a presença da polícia no dia seguinte — mesma data da declaração de Paulo Sérgio —, a sensação de insegurança tomava conta do bairro.
A miséria dos homens do Simve
É preciso voltar ainda mais no tempo para mostrar outros episódios que demonstram que a valorização também está atrelada às condições de trabalho oferecidas aos profissionais. Em 2012, o governo de Marconi Perillo criou o Serviço de Interesse Militar Voluntário Especial (Simve) com o objetivo de reforçar o policiamento em Goiás. Funcionava da seguinte maneira: o programa era formado por homens que já haviam servido ao Exército, mas que não haviam ingressado por concurso público. Eles ficavam nas ruas realizando policiamento comunitário e rondas em viaturas.
A “valorização” ofertada a esses 2,4 mil policiais era de R$ 939,33 durante o curso de formação — que envolvia teoria e prática — e de R$ 1.341,90 para quem o concluísse. Ou seja, cerca de metade do salário de um PM concursado. Esse total representava 16% de todo o efetivo existente à época. Alguns desses homens vieram de outras cidades goianas para viver na capital e atuaram no Real Conquista logo após o episódio do toque de recolher. Muitos se tornaram próximos, e pude acompanhar de perto a realidade de alguns deles.
O grupo de cerca de 15 policiais que rondavam a região dividia uma casa. Lá viviam em situação precária. Havia colchões espalhados pelo chão para acomodar todos eles, e cada um assumia determinadas tarefas para manter a organização do lugar. Para muitos, estar ali naquele momento, servindo ao seu Estado e contribuindo para levar um pouco de segurança aos moradores, era a realização de um sonho. Afinal, ainda que jovens, muitos estavam no processo de formar uma família, ter filhos e acreditavam que aquele seria o pilar central de um futuro melhor.
Mas viver de sonho não coloca comida na mesa, muito menos paga as contas de casa. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucional a criação da categoria. A partir daí, o Estado precisou buscar alternativas para recompor o efetivo e enfrentar o problema da violência, que era latente àquela época.

A falta de helicópteros
Há um episódio a respeito do qual é preciso chamar a atenção dos eleitores e dos policiais civis e militares.
Em 2012, sete pessoas morreram na queda de um helicóptero da Polícia Civil durante a reconstituição de uma chacina em Doverlândia. Agentes, delegados e o acusado do crime estavam entre as vítimas. Desde então, a corporação ficou sem helicóptero.
Marconi Perillo, em entrevista após sua reeleição, em 2014, disse que não havia previsão para uma nova aquisição e associou a demora à burocracia. Após 13 anos — já no governo de Ronaldo Caiado e Daniel Vilela —, a corporação ganhou uma nova aeronave. Atualmente, a Secretaria de Segurança Pública conta com sete helicópteros à disposição, inclusive com equipamentos distribuídos em bases no interior do Estado.

Valorizar alguém não precisa ser necessariamente apenas com dinheiro — que é importante e bem-vindo —, mas também proporcionando o material necessário para que se entregue um serviço à altura do que esperam mais de 7,4 milhões de goianos que pagam seus impostos e buscam vê-los revertidos em qualidade. Valorizar é respeitar esses homens e mulheres aguerridos, que saem de madrugada e voltam à noite, colocando suas vidas em risco para nos proteger.
Hoje, dizer que quer valorizar soa como um discurso ultrapassado de quem tenta se apropriar de bons números obtidos nos últimos sete anos para voltar ao poder. Marconi Perillo teve a chance de fazer, mas a história mostra que muitas das ações adotadas naquele período não tiveram a aprovação da categoria e da sociedade. Tanto que a rejeição do tucano é de 49% e sua intenção de voto é de 20%, de acordo com o instituto Quaest, um dos mais categorizados do país.
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