Corrupção não escolhe saldo bancário: o equívoco da “conta fofa” de Wilder Morais
22 agosto 2026 às 21h00

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Tenho de admitir que, como eleitor, assistir a um debate político sempre me surpreende. Um palco, uma quantidade X de concorrentes e um momento em que um pode duelar com o outro sobre propostas, planos de governo e melhorias para a população. Claro, sem deixar de lado os ataques entre os adversários. Há um misto de Ágora e circo.
Como de costume, o primeiro debate a ser realizado é o da Band. Em Goiás, foi promovido pela afiliada TV Sucesso. Em determinado bloco, a temática era corrupção. Tema delicado e calcanhar de Aquiles para muitos políticos. Afinal, todos se posicionam contra, mas não é difícil virem à tona casos escabrosos de desvio de dinheiro público, recursos que poderiam ser revertidos em diversos serviços em benefício da população. Ou seja, se ainda não é, o tema em questão pode se tornar um telhado de vidro a qualquer momento.
O candidato a governador que representa o bolsonarismo em Goiás, Wilder Morais, do PL, trouxe a sua visão: um secretariado composto apenas por nomes goianos e com uma pessoa da respectiva área para cuidar de cada pasta. Mas, no meio dos dois minutos das suas considerações, o candidato diz: “[…] Nós vamos ter em cada uma dessas pastas uma pessoa que, de preferência, tenha um CPF e que tenha uma conta bancária bem fofa para que a gente possa ter o controle disso […]”.
A fala de Wilder Morais sugere que o secretariado dele, além de técnico, também deve ter alto poder aquisitivo. Nas entrelinhas, a justificativa seria a de que uma pessoa que tem “a conta fofa” não teria motivos para cometer algum tipo de ato ilícito ao ocupar um cargo de alta responsabilidade, como é o caso de um secretário de Estado.
O trecho de sua fala me levou a uma profunda reflexão porque, se pararmos para pensar, não estamos falando de pessoas de baixo poder aquisitivo quando lembramos dos maiores escândalos de corrupção da história recente ou, pelo menos, elas não eram as mais “beneficiadas” com desvios, propinas, caixas dois e outros crimes.
Não estamos falando do personagem folclórico inglês Robin Hood, que tirava dos mais ricos para distribuir aos que tinham menos, buscando promover uma melhor qualidade de vida para essas pessoas. Pelo contrário, estamos falando de pessoas que promovem verdadeiros rombos financeiros no país, nos Estados ou nas cidades, com desvios de quantias que frequentemente alcançam cifras milionárias — e até bilionárias, em alguns casos. Recursos que deixam de ser revertidos na inauguração de uma unidade de emergência, na compra de medicamentos para a assistência básica, no ônibus que leva alunos da zona rural para a escola, em uma estrutura de ensino de qualidade, em um asfalto decente na porta de casa, no acesso à água potável e ao esgoto ou em qualquer outro serviço digno ao brasileiro.

Ou seja, Wilder Morais procura ignorar, mesmo não sendo nada ingênuo, o comportamento de alguns colegas do ramo empresarial (diga-se que, quando vários fatos ocorreram, o empresário goiano morava no Brasil e certamente lia jornais ou assistia telejornais). Não estou dizendo que todo empresário é corrupto. Mas sabemos que alguns fazem parte de negócios escusos para obter vantagens financeiras, inclusive envolvendo contratos com o poder público. Em bom português, escândalos que volta e meia estão na boca do povo e alimentam a indignação do eleitor contra a corrupção tiveram como protagonistas ou personagens centrais empresários bem-sucedidos, com patrimônios de valores incontáveis para este jornalista que vos escreve.
Quem não se lembra do “príncipe” das empreiteiras, Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo que leva o sobrenome de sua família e que esteve constantemente no noticiário por causa da Operação Lava Jato? Na investigação, foi apontado como um dos responsáveis por um esquema envolvendo corrupção, cartel e pagamento de propinas a agentes públicos e políticos em troca de contratos públicos, especialmente relacionados à Petrobrás. (Por sinal, a Argentina continua penalizando indivíduos ligados à Odebrecht.)

Segundo as investigações, como presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, comandava o conglomerado que mantinha um setor dedicado a repasses ilegais, conhecido como “Setor de Operações Estruturadas”. Chegou a ser preso em junho de 2015 e condenado em 2016. Posteriormente, firmou acordo de colaboração premiada, no qual detalhou financiamento ilegal de campanhas e o sistema de pagamentos ilícitos da empresa. Mesmo após decisões tomadas pelo então juiz Sérgio Moro terem sido anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os termos de sua colaboração e suas confissões tiveram tratamento jurídico próprio.
Durante a operação, o patrimônio de Marcelo Odebrecht era estimado entre R$ 13,1 bilhões e R$ 14,7 bilhões, segundo levantamento divulgado pela “Forbes” em 2015, figurando entre os brasileiros mais ricos à época. E, também, aparecia na lista dos mais ricos do mundo.
Também não se pode esquecer a prisão do ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo. Ele se tornou réu na Operação Lava Jato e posteriormente fechou acordo de colaboração premiada, no qual relatou pagamentos ilícitos envolvendo políticos e agentes públicos. A investigação também tratou da participação da empreiteira em cartel relacionado a contratos da Petrobrás e outras obras públicas. Ele deixou o comando da construtora.

Outros empresários condenados no âmbito da Lava Jato foram executivos da empreiteira Camargo Corrêa. O ex-presidente da empresa Dalton Avancini e o executivo Eduardo Leite, que firmaram acordos de colaboração premiada com a Justiça, receberam penas de 15 anos e 10 meses cada. Já João Ricardo Auler foi condenado a 9 anos e seis meses de prisão. Todos pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e pertinência a organização criminosa.

Na época, Dalton Avancini e Eduardo Leite relataram que a empreiteira teria desembolsado pelo menos R$ 110 milhões em propinas ao longo de seis anos destinadas às diretorias então comandadas por Renato Duque, na área de Serviços, e Paulo Roberto Costa, na área de Abastecimento. Entre 2007 e 2012, segundo os relatos apresentados no âmbito das investigações, a construtora teria destinado R$ 63 milhões à Diretoria de Serviços e R$ 47 milhões à Diretoria de Abastecimento da Petrobrás.
Daniel Vorcaro
E, claro, não se pode deixar de citar o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em resumo, o caso envolve suspeitas de um esquema bilionário de fraudes financeiras, emissão de ativos sem lastro e gestão fraudulenta. Um dos pontos que chamaram a atenção foi a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de juros muito acima da média do mercado — chegando a 140% do CDI — para atrair investidores, apesar dos questionamentos sobre a capacidade da instituição de honrar esses pagamentos. O banqueiro também é investigado por supostamente utilizar carteiras de créditos de baixa qualidade e operações consideradas fictícias para inflar artificialmente o patrimônio da instituição.

Além disso, chamam a atenção as ligações de Vorcaro com diferentes nomes da política, transitando entre figuras da esquerda, do centro e da direita. Entre as relações que vieram a público estão as envolvendo o senador Jaques Wagner, a proximidade com Ciro Nogueira e contatos com Flávio Bolsonaro, além do pedido de patrocínio milionário para o filme que contará a trajetória de Jair Bolsonaro. Essas conexões passaram a receber atenção pública à medida que as investigações e a crise envolvendo o Banco Master avançaram. (Acrescente-se que o candidato do PSDB a governador, Marconi Perillo, admitiu ter recebido 14,5 milhões do Banco Master, via Augusto de Lima, para fazer consultoria.)
Sobre Daniel Vorcaro, vale o registro de que linha ligação com a Oncoclínicas, cuja unidade hospitalar de Goiânia foi construída pela Orca, empresa Wilder Morais. Não se está sugerindo que o senador goiano tem a ver com as falcatruas do “presidiário” Daniel Vorcaro, e sim, tão-somente, fazendo o registro de que construiu um prédio de uma rede hospitalar — coincidentemente em crise depois da debacle do Banco Master — ligada ao ex-banqueiro.
A história e o noticiário mostram que o valor do patrimônio não é sinônimo de caráter. Wilder Morais, que reforça ter saído de um berço simples (o pai era taxista), deveria saber disso, porque essa é uma das maiores lições que a vida ensina. Infelizmente, o poder atrai mais poder e, para se manter no topo, há pessoas capazes de fazer de tudo. Aqui acrescento uma frase eternizada na voz da cantora Clara Nunes: “Não adianta estar no mais alto degrau da fama, com a moral toda enterrada na lama”.
O candidato ao governo de Goiás pelo PL, assim como qualquer outro, deveria, caso eleito — aparece em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto —, escolher pessoas competentes para estarem à frente das secretarias. Esse é um denominador comum, acredito eu, para qualquer pessoa da sociedade. Mas considerar uma “conta fofa” como sinal de que alguém não terá motivos para fraudar um contrato ou uma licitação é um critério pueril — para não dizer elitista.
O marqueteiro Marcelo Vitorino, homem inteligente, deve ter puxado as orelhas de seu pupilo. Porque gostar só de rico não é positivo para quem é candidato ao governo de Goiás…
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