Políticos devem estar sempre atualizados. Afinal, o público jovem representa uma parcela considerável do eleitorado e pode fazer a diferença no resultado das eleições de 4 de outubro. Mas essa atualização também exige cuidado para que o discurso não entre em contradição com a própria história.

Quem nunca ouviu aquele ditado de que “os jovens são o futuro da nação”? Por muitos anos, essa premissa foi seguida ao pé da letra, principalmente no âmbito da educação. Afinal, é por meio dela que se abrem portas para um suposto futuro melhor. Com mais letramento, acredita-se que esses jovens consigam formular opiniões com fundamentos lógicos e que possam impactar suas comunidades.

Sabe o tiro no pé? Parece ser o caso. O tucano Marconi Perillo, sem perceber, ofendeu todos os jovens e a memória até de seu padrinho político Henrique Santillo, que foi eleito governador aos 49 anos. Curiosamente, Iris Rezende tinha a mesma idade quando foi eleito governador pela primeira vez, em 1982. Como se vê, Goiás é um Estado precoce e os eleitores apostam em gestores jovens

Com o passar do tempo, a tecnologia se entrelaçou com essa juventude. Alguns deles viram a transformação acontecer diante dos próprios olhos. Outros já pegaram essas mudanças em seu ápice. Atualmente, é quase impossível dissociar da juventude toda essa facilidade que o mundo digital proporciona.

Henrique Santillo e Iris Rezende: governadores com menos de 50 anos | Fotos: Reproduções

Na era das redes sociais, não dá para desprezar o fato de que o público jovem — e outros, claro — tem acesso à informação com muita facilidade. Não vou entrar no mérito se ela é de qualidade ou não, se é rasa ou mais aprofundada. A realidade é que saber o que acontece ao seu redor se tornou uma das coisas mais acessíveis do mundo com o advento da internet e das demais ferramentas tecnológicas. Pode-se saltar da leitura do “The Guardian”, da Inglaterra, para “El País”, da Espanha. Ou do “Le Monde”, da França, para o “New York Times”, dos Estados Unidos. Num piscar de olhos.

Esse público antenado entra no radar de quem busca vencer as eleições gerais, cujo primeiro turno vai acontecer daqui a exatos 50 dias, em 4 de outubro. Um pulinho, como se diz em Jataí, Palmeiras de Goiás e Taquaral. Afinal, estamos falando de um público que pode contribuir para um resultado positivo para determinado candidato no primeiro domingo daquele mês.

A derrapada do tucano

Mas, para além de entrar no radar, a comunicação deve ser muito bem trabalhada para atingir os integrantes dessa faixa etária. E já é possível ver alguns nomes derrapando neste início de campanha eleitoral. Durante o primeiro debate realizado na TV Sucesso/Band, o candidato do PSDB a governador, Marconi Perillo, prendeu-se muito ao passado, ao mesmo tempo em que defendia que sua experiência o tornava gabaritado para voltar ao poder. Para dar base ao argumento, dizia que Daniel Vilela era “jovem demais” e, portanto, “inexperiente”.

Hoje, o tucano tem 63 anos. Já é considerado idoso de acordo com a Lei Federal nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Trata-se do Estatuto da Pessoa Idosa. O que, para muitos, é sinônimo de sabedoria. Mas nem sempre é assim. Ao vender esse argumento, Marconi Perillo vai contra a própria história de vida construída na política. Aos 24 anos, Perillo começou a atuar como assessor de Henrique Santillo, então governador do Estado. Naquele momento, o tucano começava a “engatinhar” na seara política. Santillo, inclusive, enfrentou várias “buchas” — como dizem os jovens — enquanto esteve à frente do poder, como o acidente radiológico com o Césio-137, em 1987, e a criação do Estado do Tocantins, em 1988, desmembrado do Norte de Goiás.

Ciro Gomes foi governador do Ceará bem jovem | Foto: Thiago Gadelha / SVM

Para chegar a algum lugar, político ou não, é preciso ter um ponto de partida. Reflexo disso foi sua candidatura em 1990, quando conseguiu ser eleito deputado estadual pelo então PMDB de Iris Rezende. Perillo esteve ao lado de nomes como Sandes Júnior, Sandro Mabel — atual prefeito de Goiânia —, Sólon Amaral, Agenor Rezende, Alcides Rodrigues — que viria a se tornar seu vice mais tarde e fez uma das gestões mais criticadas em Goiás —, Jovair Arantes e Darci Accorsi.

Em 1994, repetiu o feito, ou melhor, foi eleito deputado federal pelo pP (um partido, por sinal, de centro-direita). Até chegar a 1998. O ex-ministro Iris Rezende era tido como favorito e viu a pessoa a quem havia estendido a mão no meio político se tornar seu principal adversário. Para quem não sabe, antes mesmo de ser assessor especial de Henrique Santillo, Marconi fez parte do MDB, inclusive presidindo a ala jovem do partido. Marconi Perillo virou sobre Iris no segundo turno e foi eleito o governador mais jovem da história de Goiás, com 35 anos à época.

A narrativa apresentada por Marconi Perillo atinge até mesmo integrantes do próprio PSDB. Ciro Gomes, filiado à sigla tucana e que tenta chegar ao governo do Ceará para um segundo mandato, tinha apenas 32 anos quando foi eleito pela primeira vez para comandar o Estado, em 1990. Terminou o primeiro mandato com 74% de aprovação, segundo pesquisa do Datafolha à época. E há uma curiosidade nesse registro: uma das medidas elogiadas na gestão de Ciro foi a escolha de jovens técnicos para suas secretarias. Ou seja, pessoas gabaritadas para ocupar os respectivos cargos, e não apenas indicações políticas.

Mauro Borges: governador de Goiás aos 40 anos | Foto: Reprodução

(Vale lembrar outra história: Mauro Borges Teixeira foi eleito governador de Goiás em 1960 e governou de 1961 a 1964. Foi o governador que introduziu, de maneira marcante, o planejamento na estrutura administrativa do Estado. Ao ser eleito, tinha 40 anos. Dois a menos do que Daniel Vilela.)

A defesa do atual Marconi Perillo para bater de frente com Daniel Vilela entra em conflito com a própria história do tucano. Ser jovem não é sinônimo de despreparo, muito menos de falta de conhecimento. Mas pode ser um indicativo de mudança e atualização. Ao se prender aos feitos do passado — ao se tornar, por assim dizer, um prisioneiro do que passou —, Marconi também perde a chance de mostrar que se atualizou. Falar uma linguagem atual e andar atrelado à tecnologia para convergir com resultados nas principais frentes de necessidades dos goianos são grandes diferenciais do momento. Observe-se que Daniel Vilela é atento às mudanças tecnológicas — assim como é Ronaldo Caiado, de 76 anos.

Candidato à reeleição, Daniel Vilela tem 42 anos. Já passou pelos cargos de vereador, deputado estadual, deputado federal (como tal, foi presidente da importante, poderosa e complexa Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania), vice-governador e governador (fez pós-graduação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas). Se levarmos em consideração a quantidade de cargos públicos ocupados, Daniel já supera o tucano. Há, digamos, quase um empate técnico.

Além disso, o saudosismo que Marconi trouxe em vários momentos do debate também merece ser confrontado com os fatos. Um exemplo ocorreu em 2018, quando renunciou ao cargo de governador para ser candidato a senador. Em entrevista a uma emissora de televisão goiana, o tucano fez um balanço de sua gestão e chegou a citar que o Hospital de Urgências de Uruaçu seria inaugurado no final daquele ano. Isso não aconteceu. A unidade hospitalar foi inaugurada em 2021, durante a pandemia da Covid-19, para servir como hospital de campanha. No final do mesmo ano, o hospital foi oficialmente inaugurado como unidade de grande porte para atender o Centro-Norte goiano, condição que mantém atualmente. Não se trata de desmerecer o tucano, e sim de esclarecer um fato.

“Dar um Google”: a expressão utilizada pelos jovens no sentido de realizar pesquisas sobre os mais variados assuntos nos ajuda a comparar se o discurso atual é compatível com as biografias dos nomes que querem chegar ao Palácio das Esmeraldas.

Volto a dizer: os jovens não devem ser subestimados. Acima de tudo, não é crime ser jovem.

Segundo o Perfil do Eleitorado, plataforma feita e alimentada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Goiás conta com 2.653.358 eleitores aptos entre 17 e 44 anos. Isso corresponde a 52,2% do eleitorado goiano. Quando um político tenta associar juventude à inexperiência, ele entra em conflito diretamente com esse contingente, a conversa passa a não fazer sentido e o resultado disso pode ser fatal no dia 4 de outubro.

Sabe o tiro no pé? Parece ser o caso. Marconi, sem perceber, ofendeu todos os jovens e a memória até de seu padrinho político Henrique Santillo, que foi eleito governador com 49 anos. Curiosamente, Iris Rezende tinha a mesma idade quando foi eleito governador pela primeira vez. Como se vê, Goiás é um Estado precoce e os eleitores apostam em gestores jovens.

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