“A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas.” Estas palavras são do filósofo, poeta e botânico alemão Goethe, e elas, acredito, devem fazer parte do seu livro “A metamorfose das Plantas”, publicado em 1790. Ainda quero passar o olho em tal obra, mas não em busca de informação científica, mas poética, como a presente na frase inicial deste parágrafo. Em determinados assuntos, a minha busca de respostas está no quintal do subjetivismo. Manoel de Barros, o poeta primo ou irmão do joão-de-barro, chegou a dizer “que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma usina nuclear”. E é mesmo.

A mim, por exemplo, não me interessa a explicação dos cientistas sobre o porquê das cores das flores; a explicação das borboletas me basta. É minha alfabetização em borboletas, as quais chamo de pequenos poemas alados, que me permitiu chegar à conclusão de que as flores são a poesia que eclode das plantas. A razão é fria e morreria de rir com essa explicação. Tudo com ela é ao pé da letra.

Falando em subjetivismo, volto a Goethe: um dos precursores do romantismo, gênero literário que libertou a musa do quintal do estilo clássico comandado com rigor pelo objetivismo e colocou as rédeas da poesia nas mãos da emoção. Em razão disso, o romantismo pôs-se a voar mundo afora. E chegou ao Brasil. Nosso José de Alencar, embriagado de emoção, disse em seu romance “Iracema” que os lábios da índia eram de mel e que o doce do seu sorriso ia além da doçura do mel da jati: uma espécie de abelha silvestre muito conhecida no nordeste. O pé da índia também entra na descritiva ciranda subjetiva: “o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas”.

Aranha em flor do cerrado predando um mosquito | Foto: Sinésio Dioliveira

A frase de abertura desta crônica se enquadra no que pretendo contar. Só que, em vez de folhas, vou me valer da leitura das flores, que têm uma relação muito próxima com aquelas, pois ambas, em se tratando de uma mesma planta, vêm de uma só semente e são partes de um todo. É preciso, portanto, reconhecer que as folhas entram em cena muito antes das flores e cabem àquelas gerarem seiva elaborada por meio da fotossíntese e distribuí-la por todas as partes da planta. As folhas de uma amendoeira já chegaram a dar conselhos ao poeta Carlos Drummond de Andrade em como envelhecer com dignidade. Fato que confirma o que disse Goethe.

Foi dentro de uma flor de tumbérgia arbustiva que encontrei “um conteúdo valioso”: uma pequenina aranha. O que me fez ver uma metáfora sinistra. E o aranha não estava ali acidentalmente. Sua presença dentro da flor é porque sabia que insetos aparecem para buscar néctar. Fato que lhe permitia os fazer de presas. Não cheguei a vê-la devorando nenhum inseto, mas já vi outras aranhas. Essa estratégia de se amoitar para pegar a presa é muito usada por muitos bichos. A camuflagem para outros é estratégia para fugir da fome dos predadores. O urutau, ave também conhecida como mãe-da-lua, é deles: no período de reprodução, escolhe uma ponta de galho de uma árvore que se pareça com sua plumagem, levanta a cabeça todo altaneiro e fica imóvel como uma estátua.

Goethe e José de Alencar, ambos românticos | Foto: Reproduções

A flor serve como metáfora em relação a muitas coisas que buscamos dentro do nosso objetivo de vida. Coisas estas que, ao longo da sua busca, descobrimos nelas algumas que oferecem perigos, os quais são do nosso conhecimento só depois de estarmos no meio delas. Algumas, inclusive, podem resultar em letalidade. Uma filha de uma amiga conheceu um jovem numa balada e viu nele príncipe para a vida eterna numa casa cheia de filhos. Não demorou muito no rala e rola e logo os dois ajuntaram as calcinhas e as cuecas numa mesma gaveta de um guarda-roupa num dos quartos da casa da mãe. Nada de príncipe havia no Dom Juan, mas um sapo asqueroso e violento. A mãe, temendo uma ação mais violenta do rapaz contra sua filha, que mandou o namorado embora, enviou-a para fora do país. Agora está morando com uma tia na Inglaterra.

Todo cuidado é pouco com as flores em nosso caminho, muitas podem ser “flores do mal” — ter aranha —; as pedras, no entanto, não há por que nos preocuparmos com elas, pois sempre se mostram como pedras, não se escondem entre as pétalas. 

Sinésio Dioliveira é jornalista