Tarifaço: diplomata diz que o Brasil precisa entender que o mundo mudou e os EUA adotaram a lei da selva
18 julho 2026 às 21h00

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Ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, o diplomata Rubens Barbosa concedeu uma entrevista ao repórter Carlos Eduardo Valim, de “O Estado de S. Paulo” (sexta-feira. 17), que merece ser discutida, inclusive pelo presidente Lula da Silva, tal sua relevância.
De acordo com Rubens Barbosa, é equivocada a análise do governo Lula da Silva, da mídia e de vários economistas “sobre a estratégia” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao taxar o Brasil.
O presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) sublinha que o tarifaço, “mais do que uma questão política ou comercial específica”, tem a ver com “uma mudança da posição americana quanto a sua política comercial para todo o mundo”.
À primeira vista, a ação de Trump parece “irracional”, mas não é bem assim. Rubens Barbosa sublinha que é preciso ficar atento à questão real. Para manter a hegemonia econômica e política, os Estados Unidos estão “impondo uma nova ordem global, em que vale a lei do mais forte”.

As regras internacionais e as instituições multilaterais não funcionam mais, frisa o diplomata. O capitalismo americano, que parecia civilizado, se tornou, mais uma vez, selvagem. Como nos tempos, quem sabe, de Theodore Roosevelt, o do proverbial “big stick”.
“A motivação das tarifas do governo Trump tem como objetivo muito claro atrair investimentos para o território americano, reduzir o desequilíbrio da balança comercial e afastar a China de alguns mercados”.
“Sinto que a mídia em geral e o governo não estão mostrando que entenderam o que aconteceu. Essas tarifas começaram em abril do ano passado e representam uma mudança da posição americana no comércio internacional”, assinala Rubens Barbosa.
“E é algo contra o mundo inteiro, não contra o Brasil. A motivação desta tarifa tem como objetivo muito claro atrair investimentos para o território americano, reduzir o desequilíbrio da balança comercial e afastar a China de alguns mercados”, analisa.

Mesmo certo, o Brasil precisa negociar
O Brasil está sendo “penalizado” com tarifas mais altas porque, afirma Rubens Barbosa, “é um dos poucos países que não negociaram acordo de comércio com os Estados Unidos. (…) Só não tem tarifa alta quem negociou acordo com os EUA”.
A mídia brasileira está se “equivocando” em suas análises, postula o experimentado diplomata Rubens Barbosa. “Cheguei a ver uma emissora de tevê falando que o principal problema é o Pix. Não é nada disso.”
O Reino Unido abriu as portas para o etanol americano, mas o governo brasileiro não aceitou a mesma regra. Rubens Barbosa diz que, no caso, o Brasil não tinha como aceitar a imposição — e não acordo — americana. Agiu corretamente, portanto.
Porém, ao contrário do que se diz, na mídia em geral, e não apenas na de esquerda, “a motivação para as tarifas não tem relação tem relação com política interna, não tem relação com (o ex-presidente Jair) Bolsonaro”. Ao menos é a avaliação de Rubens Barbosa.

A mídia está se “equivocando” em suas análises, postula o diplomata. “Cheguei a ver uma emissora de tevê falando que o principal problema é o Pix. Não é nada disso.”
“O Brasil recusou todos os convites americanos para participar de estudos de trabalho para minerais estratégicos e para participar do escudo das Américas”, diz Rubens Barbosa.
Ex-embaixador diz que um grupo de empresários brasileiros “conseguiu que 2.100 produtos em exceção às tarifas”. Trata-se de uma negociação privada, e não do governo do presidente Lula da Silva, do PT.
País não tem como retaliar
Mas um grupo de empresários “conseguiu que 2.100 produtos em exceção às tarifas”. Trata-se de uma negociação privada, e não do governo de Lula da Silva.
O tarifaço não é novidade. Mas há um fato novo, segundo Rubens Barbosa. A novidade é política. “Nunca houve uma crise política com os Estados Unidos que pode escalar tanto.”

O secretário de Estado, Marco Rubio, atacou o presidente Lula da Silva diretamente, chamando-o de egoísta. Já o petista-chefe fez 62 críticas, em três anos, a Trump.
O Brasil tem condições de retaliar os Estados Unidos? “Dos 200 países do mundo, nenhum ameaçou escalada contra os EUA. Só contra a China houve uma disputa tarifária. Todos os países negociaram — a União Europeia, a Índia, Vietnã, a Ásia inteira” (incluída a China).
Se o Brasil retaliar, a resposta americana poderá ser ainda mais dura. “Uma coisa é a narrativa política interna, e outra coisa é o interesse nacional. É preciso ter uma salvaguarda dos interesses das empresas brasileiras, acima de ideologia e partidarismo.”
O país de Lula da Silva “não” tem como sustentar uma retaliação aos Estados Unidos, pondera o ex-embaixador.
“O fato é que não temos condições políticas para lidar com os americanos. Agora, com eles, não tem regra nenhuma. É a lei da força. E há um detalhe: o mundo mudou, a gente não se ajustou ainda a essa questão.
“Se fizermos retaliação, estaremos expostos a uma contrarretaliação, sobre a qual não temos controle. O Brasil não tem cacife para isso. Quem vai sofrer com as retaliações serão as empresas. Essas novas medidas vão entrar em vigor em 22 de julho e ainda têm os 12,5% que os EUA prometem aplicar a países que eles consideram ter problemas de condições de trabalho”.
Terras raras e big techs
Não há outra alternativa, exceto voltar à mesa das negociações, postula o diplomata. Há uma questão decisiva — as terras raras.
Outra questão que pode se tornar séria, na opinião de Rubens Barbosa, é a investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em curso na Justiça americana.
Os Estados Unidos estão preocupados com as regras para enquadrar as big techs — como Facebook, Instagram, X, Google.
As empresas de tecnologia não querem cumprir as leis dos Estados nacionais. Por isso enfrentam problemas em vários países, como Austrália, Canadá, França, Espanha e Alemanha. Não só no Brasil.
“O fato é que não temos condições políticas para lidar com os americanos. Agora, com eles, não tem regra nenhuma. É a lei da força. E há um detalhe: o mundo mudou, a gente não se ajustou ainda a essa questão. Hoje, o que prevalece é a lei da selva”, analisa o expert em política e negócios internacionais.
Rubens Barbosa admite que é muito difícil negociar com os americanos. “Eles pedem concessões unilaterais.” O diplomata recomenda que os empresários, que iniciaram uma negociação sem o governo Lula da Silva, continuem operando. Mas a gestão do petista-chefe tem de participar, sugere.



