Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ronald Reagan, o político que derrubou o comunismo, acabou derrotado pelo Alzheimer

O presidente dos Estados Unidos enquadrou os soviéticos, contribuiu para dinamitar o comunismo, mas, no final de seu governo, era controlado pela mulher, assessores falsificavam sua assinatura e astrólogas controlavam sua agenda e vida pessoal

Três livros que ajudam a entender os últimos anos do século 20. Os dois primeiros têm visões parecidas: a corrida armamentista, criada pelos americanos, acelerou a decadência da União Soviética. O terceiro, de um professor de Harvard, diz que a “guerra nas estrelas” não foi decisiva para a queda do comunismo no país de Gorbachev e no Leste Europeu. Crise no próprio Império, desencadeada pela glasnost, teria dinamitado a URSS

Três livros que ajudam a entender os últimos anos do século 20. Os dois primeiros têm visões parecidas: a corrida armamentista, criada pelos americanos, acelerou a decadência da União Soviética. O terceiro, de um professor de Harvard, diz que a “guerra nas estrelas” não foi decisiva para a queda do comunismo no país de Gorbachev e no Leste Europeu. Crise no próprio Império, desencadeada pela glasnost, teria dinamitado a URSS

“As nações não têm amigos ou aliados permanentes, têm apenas interesses permanentes” –
Lorde Palmerston

Desde sempre, as campanhas políticas nos Estados Unidos são duríssimas. Os ataques são brutais e, por vezes, sutis. Quando disputou com Hillary Clin­ton a possibilidade de disputar a Presidência, Barack Obama, notadamente sua equipe, passava informações para a imprensa a respeito das frequentes escapadas de Bill Clinton. O ex-presidente é tido como um Casanova. Na disputa de 1980, entre o presidente Jimmy Carter e Ronald Reagan, os ataques eram desferidos não raro abaixo da linha de cintura. Reagan chegava a chamar o candidato democrata de “um bostinha”.

Comumente se trata Reagan como se fosse imbecil, o que, em definitivo, não era. Não tinha a cultura de Carter, mas politicamente era muito mais hábil, tanto que derrotou o democrata com certa facilidade, surrando-o nos debates. A política é mais produtiva quando se agregam ideias e convicções. Porém, quando não é tão fácil associá-las, precisa-se pelo menos de convicções. Ao contrário do indeciso Carter, o presidente republicano era um político de convicções. Sabia o que queria e não recuava ante pressões políticas ou populares. Não fosse sua firmeza, suas pressões sem recuo sobre a União Soviética, o comunismo poderia ter demorado a ruir (leia abaixo a heterodoxa e contrastante interpretação de Serhii Plokhy). Os comunistas temiam Reagan, sua capacidade de decidir, mas não Carter, a quem avaliavam como moleirão. O livro “Ronald Reagan” (Record, 377 páginas, tradução de Lucas Jim), de Bill O’Reilly e Martin Dugard, apresenta o republicano como estadista, dos mais competentes e eficientes. Não se sabe por quê, mas o papa João Paulo 2º, um dos grandes estadistas do século — contribuiu para demolir o comunismo no Leste Europeu, não apenas na Polônia —, não merece nenhuma citação. As relações do presidente com Gorbachev também não são suficientemente exploradas. Mas o livro é, no geral, de qualidade.

A trajetória política de Reagan começa como governador da Ca­li­fór­nia. Um governador eficiente, que colocou o Estado a serviço da sociedade, tornando-o mais enxuto e produtivo. Em 1976, tenta ser o candidato do Partido Republicano, mas perde a indicação para o presidente Gerald Ford. Na eleição, “se recusa a votar para o cargo de presidente”.

Carter é eleito presidente. Se agrada os que defendem os direitos hu­manos — irritou profundamente a ditadura brasileira, principalmente o presidente Ernesto Geisel —, desagrada a maioria dos americanos, que o considera sem pulso. No seu governo, iranianos sequestraram 52 americanos, mantidos em cativeiro durante seis meses. Candidato à reeleição, ao saber que Ted Kennedy, irmão de Jack e Bob, pretendia confrontá-lo, Carter disse publicamente: “Eu vou chutar a bunda dele”. Kennedy contra-atacou: o democrata seria “hipócrita e fraco”.

Na eleição, o decidido Reagan ganha de Carter, com o apoio de 50,8% dos eleitores. Carter obteve 41%. John Anderson recebeu 6% dos votos.

Carter tinha um ar desolado, blasé, meio Hardy, o do desenho animado. Reagan, ao contrário, era otimista, afirmativo.

Modestos, Reagan e sua mulher, Nancy Reagan, gostam de lasanha e hambúrguer. Assistem programas populares na televisão, como “Os Pioneiros”. Seu herói anterior era Franklin D. Roosevelt. Ao se tornar o todo-poderoso dos Estados Unidos, troca-o pelo ex-presidente republicano Calvin Coolidge.

Pensa-se frequentemene em Reagan como ignorante. De fato, não era intelectual. Mas, embora estudasse detidamente a política interna e externa e, por ter sido ator, ser capaz de decorar uma grande gama de informações, preferia se comportar como um homem simples, intuito. O presidente articulou uma das melhores assessorias, tanto para a política (e gestão) americana quanto para a política internacional.

No governo, Reagan é um político decidido, não teme os adversários nem o público. “Com o toque de uma caneta, ele ordenará o congelamento das contratações federais. Dentro de uma semana, ele também vai suspender o controle de preços do petróleo e da gasolina, ao mesmo tempo em que tornará conhecida sua resolução pessoal de uma economia de livre mercado.” Ao que lhe recomendavam cautela, pensando em conveniências e possíveis perdas eleitorais, dizia: “Eu acredito que uma fatalidade cairá sobre nós se não fizermos nada”. Uma lição para o presidente Michel Temer.

Thatcher

Margaret Thatcher e Ronald Reagan: uma relação política complexa mas proveitosa para os Estados Unidos, para a Inglaterra e para o mundo

Margaret Thatcher e Ronald Reagan: uma relação política complexa mas proveitosa para os Estados Unidos, para a Inglaterra e para o mundo

As relações entre a primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, e Reagan eram excelentes, mas cheias de percalços. Os dois se adoravam, mas às vezes os interesses falavam mais alto. O francês François Mitterrand dizia que a britânica tinha os “olhos de Calígula e a boca de Ma­rilyn Monroe”. Era uma “referência à sua astúcia e ao seu olhar excêntrico”.
A Inglaterra é vista como uma espécie de poodle e não um buldogue dos Estados Unidos. De fato, o país não é uma superpotência, mas, sob Margaret Thatcher, apesar de aliadíssima de Reagan, guardava certa independência. Porém, por ser a potência dominante, os EUA nem sempre consultam os britânicos para suas ações, como a invasão de Gra­nada e as negociações para redução de armas nucleares com os soviéticos, e não apoiam, de maneira integral, as ações militares dos ingleses.

Quando os argentinos invadiram as ilhas Malvinas, em 1982, “em desespero, a Dama de Ferro buscou Ronald Reagan, pedindo que os Estados Unidos ajudassem a Grã-Bretanha” a retomá-las. “Seu colega líder mundial e sua alma gêmea ideológica recusa a ajuda. Reagan sugere que a Grã-Bretanha abandone suas reivindicações sobre as Malvinas. Ele vê as ilhas como um vestígio do passado colonial da Grã-Bretanha”, anotam Bill O’Reilly e Martin Dugard.

Porém, “enquanto finge ser neutro, o presidente” Reagan “é um grande apoiador dos britânicos e tem pouca simpatia pelo ditador argentino [Leopoldo] Galtieri, a quem ele considera um bêbado. Reagan, no entanto, acredita que o líder argentino é um parceiro na guerra contra o co­mu­nismo”. O governo argentino é um aliado dos americanos na luta contra a esquerda na Nicarágua. A ditadura apoia os Contras e corteja a União Soviética, o que assusta Reagan.

Depois de alguma luta, e várias mortes, o governo da Argentina se rende. A Inglaterra retoma as Mal­vinas e a ditadura sai desmoralizada (curiosamente, a primeira-ministra apoiava a ditadura chilena). Nos bastidores, Reagan saúda a vitória britânica.

Em outubro de 1983, um terrorista do Hezbollah ataca soldados americanos, que estão acampados no Aeroporto Internacional de Beirute, explodindo um caminhão com uma carga pesada de dinamite. Num único dia, morrem 241 militares americanos.

Na economia, as medidas de austeridade deram resultado. Com o fim da recessão, cai o nível de desemprego. Na política internacional, Reagan convoca os soviéticos a “reduzir a possibilidade de uma guerra nuclear por meio do controle voluntário de armas”.

Em 1984, começa a acontecer alguma coisa com Reagan — os primeiros sintomas do mal de Alzhei­mer. O jornalista Sam Donaldson (que chama Nancy Reagan de “mamba sorridente”) pergunta ao presidente “sobre uma proposta de reunião” a respeito de “armas nucleares em Viena”: “Existe alguma coisa que você pode fazer para que eles compareçam lá?” Reagan fica quieto, aparentando que “está perdido”. Nancy sopra uma resposta, “estamos fazendo tudo o que podemos”, e o líder republicano a repete. Microfones de alguns canais de televisão captaram a dica e todos percebem o problema. O homem que cunhou a expressão “Império do Mal”, para definir a União Soviética, não está bem.

Mesmo esquecendo das coisas, aos 73 anos, Reagan decide disputar a reeleição, agora contra Walter Mondale, de 56 anos. “A essa altura, os americanos parecem confortáveis com Ronald Reagan na Presidência. Muitos o admiram como homem e patriota. Eles gostam de sua sólida crença nos valores tradicionais, e alguns eleitores o veem como uma figura paterna.

Auxiliares de Reagan sugerem e ele compra a ideia e diz que aprecia a mú­sica de Bruce Srpingsteen, como “Born to Run”, mas é puro marketing.

No primeiro debate presidencial, Mondale arrasa o disperso Reagan. “Aquele cara já era”, acredita o democrata. O presidente detesta seu concorrente e o trata como “mentiroso”, por ter atacado “injustamente sua credibilidade”.

O que fazer no debate seguinte, com um presidente meio senil? Convocado para dar um jeito na campanha, Roger Ailes constata que Reagan havia sido mal preparado para o debate anterior, pois lhe deram informações excessivas. Agora, cobra que fale “simplesmente com o coração”. “Eu o trouxe de volta para o território conhecido, e não o fiz memorizar um monte de porcaria de que ninguém iria se lembrar”, diz Ailes.

Eleito em 49 Estados, Reagan só perde em Minnesota e no Distrito de Colúmbia. Mas o declínio físico do presidente é visível e isto afeta sua administração. Chamado a avaliar a gestão do governo, Jim Cannon “descobriu que a Casa Branca está um caos em todos os níveis. Os assessores de Ronald Reagan forjam suas iniciais em documentos, membros do governo ignoram a política presidencial para forçar suas próprias agendas e, no porão da Casa Branca, o tenente-coronel da Marina Oliver North passou anos vendendo armas ilegalmente ao Irã e desviando o dinheiro dessas negociações para os ‘Contras’ da Nicarágua. North sabia que estava violando a lei”. Reagan poderia ter sofrido impeachment por causa disso.

Nancy se tornou quase uma presidente de fato, mas não estava preparada para tal, brigando com os auxiliares do presidente. Reagan, alheado, fica assistindo reprises na televisão. “Ainda mais preocupante é o fato de que nem sempre o presidente separa algum tempo para ler documentos políticos importantes”, registram Bill O’Reilly e Martin Dugard. “Cannon chegou a sugerir que Ronald Reagan não está mais apto a servir como presidente dos Estados Unidos.” Alguns integrantes da equipe chegaram a cogitar sua retirada do governo. Quatro observadores especiais foram convocados para dizer se o vice-presidente George Bush deveria assumir o governo. Cannon sugere a substituição. Mas Howard Baker, A. B. Culvahouse e Thomas Griscom optaram pela manutenção do encanecido presidente.

­Além do Alzheimer, em expansão, o presidente submete-se, em julho de 1985, “a uma colonoscopia para remover uma lesão pré-cancerosa. Agora Reagan parece estar em declínio permanente. Além da cirurgia e dos aparelhos auditivos, o presidente sofreu recentemente uma cirurgia para corrigir um aumento da próstata, o que o força a usar o banheiro frequentemente. Ele irá em breve submeter-se a outro procedimento para retirar um melanoma do nariz”.

O presidente está sempre cochilando. “Às vezes tem dificuldade de reconhecer pessoas que conhece há muito tempo.” Cada dia mais, Reagan e Nancy acreditam nas astrólogas Joan Quigley e Jean Dixon. O republicano ficou vários dias sem sair de casa devido aos “movimentos malévolos de Urano e Saturno”. Quase inacreditável, mas era assim. A ex-atriz Nancy, que manda e desmanda, “demite” até auxiliares importantes de Reagan.

Gorbachev

Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev: juntos, mas não de modo inteiramente planejado, os dois políticos, um americano e o outro russo (se davam bem), demoliram o comunismo na União Soviética e no Leste Europeu

Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev: juntos, mas não de modo inteiramente planejado, os dois políticos, um americano e o outro russo (se davam bem), demoliram o comunismo na União Soviética e no Leste Europeu

Se Carter era receoso ao lidar com os hábeis comunistas soviéticos, Reagan joga duro, sem meias palavras. O inepto secretário-geral da União Soviética, Leonid Brejnev, “está construindo secretamente um arsenal nuclear e militar que faz parecer pequenos aqueles ostentados pelos EUA e pela Otan. Essa é uma violação e a vários tratados entre as duas nações, que visavam manter a paz mundial”.

Reagan sai da defensiva e parte para a ofensiva — abominava ser um presidente reativo e adorava ser ativo: “Toda vez que entramos em negociações, os soviéticos nos mostram as coisas de que precisamos abrir mão para continuar coexistindo com eles. Assim, estamos nos esquecendo de quem somos”. Desde Franklin Roosevelt, nos tempos da hegemonia de Stálin, os Estados Unidos eram lenientes com os comunistas.

Com uma equipe de auxiliares bem informada — muitos deles, professores das melhores universidades americanas, como o historiador Richard Pipes —, Reagan percebeu que a União Soviética ampliava o investimento militar, mas não tinha recursos suficientes para comprar alimentos para as pessoas. O resultado da crise de abastecimento era uma insatisfação crescente com o regime. Tanto que, para conter o avanço da sociedade, o partido colocou no poder um stalinista, o corrupto e bon vivant Brejnev, verdadeira toupeira.

Sabendo das dificuldades econômicas da União Soviética, que passou a explorar de maneira predatória seus recursos naturais, como petróleo e gás, Reagan decidiu enfrentar as provocações de Brejnev. “Reagan quer que os russos saibam, acima de tudo, de uma coisa: ele não é Jimmy Carter”, escrevem Bill O’Reilly e Martin Dugard.

Numa entrevista a Walter Cron­kite, lenda do jornalismo americano, Re­agan disse, como se estivesse falando para Brejnev: “Você pode observar que é uma grande bobagem se de­sarmar unilateralmente, como fizemos, permitindo a deterioração de nossa defesa e de nossa segurança. E depois disso, você senta-se com o sujeito que tem todas as armas. O que você tem para negociar com ele?”!

Brejnev ouve atentamente as palavras de Reagan e assusta-se. Apresentarem-lhe, no Politburo, a imagem de que o presidente americano era bronco e incapaz de entender o jogo da política internacional (de fato, confundia países e capitais; no Brasil, ao saudar os brasileiros, ergue um brinde ao povo da Bolívia). Não era nada disto que estava percebendo com seus próprios olhos e ouvidos.

Irritado, Brejnev escreve uma carta a Reagan, informando que a União Soviética não busca superioridade. “Mas não permitiremos que tal superioridade seja estabelecida sobre nós”, ameaça, acreditando, quem sabe, que está enfrentando uma pomba e não um falcão intimorato.

No tempo de Brejnev, a União Soviética está praticamente quebrada, sem a mínima condição de concorrer com os Estados Unidos em quaisquer áreas, como nuclear e em termos de crescimento econômico e desenvolvimento (o povo está cada vez mais pobre) — exceto em retórica. Os gastos militares e os equívocos da política econômica comunista praticamente quebraram o país de Púchkin e Tolstói.

Gorbachev, gerindo uma União Soviética de joelhos, negocia a redução de armas nucleares com Reagan, patrono da chamada guerra nas estrelas, escudos balísticos. O presidente americano o aprecia, percebendo nele “uma dimensão moral”.

Aliado a Margaret Thatcher (o livro deixa de enfatizar a participação do chanceler alemão Helmut Khol e do papa polonês João Paulo 2º), Reagan percebe que “é o momento certo para acertar um golpe pela liberdade e talvez acabar com o comunismo em toda a Europa para sempre”.

Em 1987, diante do Muro de Berlim, Reagan prega sua derrubada. “Secretário-geral Gorbachev, se você busca a paz, se você busca a prosperidade para a União Soviética e a Europa Oriental, se você busca a liberalização: Venha até este portão! Sr. Gorbachev, abra este portão! Sr. Gorbachev, derrube este muro!” Dois anos depois, o Muro de Berlim estava no chão, simbolizando a destruição do comunismo em todo o Leste Europeu. Em 1991, Gor­bachev cai junto com o comunismo na União Soviética.

Se joga duro externamente, Reagan não alisa no plano interno. Reivindicando um aumento salarial de 100%, os 13 mil controladores de tráfego aéreo dos Estados Unidos entram em greve. O presidente reage: “Se eles não comparecerem ao trabalho dentro de 48 horas, terão cometido uma penalidade e serão demitidos”. De longe, os dirigentes soviéticos acompanham. Apesar do ultimato, 11 mil controladores permaneceram paralisados. Todos foram exonerados. Os soviéticos ficaram perplexos com a coragem do gestor americano.

Ao deixar a Presidência, Reagan é outro homem, assolado pelo mal de Alzheimer. Não se lembra nem do que comeu no café da manhã e não sabe mais o que significa o caso Watergate. Quando o ex-auxiliar George Shultz o visita, o ex-presidente pergunta à enfermeira: “Quem é aquele homem sentado no sofá com Nancy?” Em 5 de junho de 2004, aos 93 anos, Reagan morre. Não sabia mais quem era ele. “Em meu coração, sei que o homem é bom, sei que o que é certo sempre triunfará em algum momento, e que exise um propósito e valor em cada vida”, diz a inscrição na lápide do presidente.

Leituras adicionais

Um livro complementar, de alta qualidade, é “Reagan e Thatcher — Uma Relação Difícil” (Record, 334 páginas, tradução de Dinah Aze­vedo), de Richard Aldous, professor do Bard College, em Nova York. O autor conta que a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher foi a verdadeira “descobridora” de Mikhail Gorbachev, quando ainda não era o todo-poderoso da União Soviética, e sim o apparatchik que cuidava da ideologia do Partido Comunista, o número 2. Culto, à líder do país de Shakespeare citou lorde Palmerston: “As nações não têm amigos ou aliados permanentes, têm apenas interesses permanentes”.

Depois de ouvi-lo, Margaret Thatcher disse à BBC: “Podemos fazer negócios um com o outro”. Perspicaz, a primeira-ministra percebeu, de cara, que Gorbachev não tinha nada a ver com Breznev, Chernenko e Andropov. Concluiu que era diferente, até muito diferente, e disse isto a Reagan. Tratava-se, relatou ao presidente americano, de um “russo inusitado, no sentido de ser muito menos contido, mais charmoso, mais aberto à discussão e ao debate. O ex-ator ouviu atentamente, sobretudo quando mencionou que o político da terra de Púchkin era favorável à redução das armas nucleares.

Uma visão menos ou nada “americana” da queda do socialismo pode ser conferida no esplêndido “O Último Império — Os Últimos Dias das União Soviética” (Leya, 543 páginas, tradução de Luiz Antônio Oliveira), de Serhii Plokhy. O autor diz que seu livro “questiona a interpretação triunfalista que vê no colapso soviético uma vitória americana na Guerra Fria”. O professor de Harvard diz que novos documentos “mostram com uma clareza sem precedente que o próprio presidente [George Bush, pai] e seus assessores muito contribuíram para prolongar a vida da União Soviética, preocupados com a ascensão do futuro presidente russo Boris Yeltsin, com o ímpeto independentista dos dirigentes das outras repúblicas soviéticas e com a possibilidade de que, quando a União So­vi­é­tica desaparecesse, a Rússia quisesse do­minar sozinha todo o arsenal nu­clear soviético e mantivesse sua in­fluência no espaço pós-soviético, es­pe­cialmente nas repúblicas da Ásia Central”.

Na versão de Serhii Plokhy, baseado em documentos do governo americano, “a Casa Branca tentava salvar Gorbachev, que considerava seu principal parceiro no cenário mundial, e estava disposta a tolerar o prolongamento da existência do Partido Comunista e do Império Soviético a fim de atingir essa meta. Sua principal preocupação não era a vitória da Guerra Fria, que já terminara efetivamente, e sim a possibilidade de eclosão de uma guerra civil na União Soviética, que já ameaçava transformar o antigo império tzarista numa ‘Iugos­lávia com ogivas nucleares”.

O historiador sublinha que “a corrida armamentista perdida, o declínio econômico, a ressurgência democrática e a falência dos ideais comunistas, ainda que tenham contribuído para a implosão da União Soviética, não predeterminaram sua desintegração, causada pelos fundamentos imperiais, pela composição multiétnica e pela estrutura pseudofederal do Estado soviético, fatores cuja importância nem os estrategistas americanos em Washington nem os assessores de Gorbachev em Mos­cou reconheceram plenamente”.

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