A notícia não deve ser “embelezada” para se tornar atraente aos leitores e telespectadores. Mas as notícias — assim como seus comentários — apresentadas pelo Renato Machado tinham um revestimento de elegância e, por isso, se tornavam mais atraentes ou cativantes.

Havia uma nobreza de espírito tanto na fala quanto a postura física de Renato Machado. Quando aparecia no vídeo, na tela da Globo, atraía, de cara, a atenção dos telespectadores. O pedronavista Marcelo Franco diria: “Ele tem ‘it’”. Sim, isto: “it”. Não era tão bonito quanto Paul Newman e Marlon Brando. Mas era tão cativante quanto.

Assim como Jorge Pontual, Renato Machado era o príncipe do jornalismo. Com ele no ecrã, o mundo não despiorava, mas ficava um pouco mais belo e sensível.

Don Fabrizio Corbera da Globo

A elegância de Renato Machado lembra a de don Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, personagem do romance “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o notável escritor siciliano.

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Renato Machado, jovem e já elegante | Foto: Reprodução

De alguma maneira, assim como Jorge Pontual, Renato Machado era o príncipe do jornalismo brasileiro. Com ele no ecrã, o mundo não despiorava, mas ficava um pouco mais belo e sensível, por assim dizer.

(Renato machado parecia um modelo de Beau Brummell, Giorgio Armani, Ralph Lauren, Christian Dior e Ricardo Almeida. Um dia, numa loja, brinquei: “Quero comprar o terno do Renato Machado”. O vendedor não entendeu. O que faz um homem ser elegante não é nem o terno em si, mas quem o enverga, digamos.)

Todos morrem. Todos morremos. Um dia. A vida, afinal, é uma só e não tem estepe. Pois na quinta-feira, 16 — com 29 graus em Goiânia, aprazível —, aquele que parecia imortal, imorrível, diria Antônio Rogério Magri, decidiu dialogar diretamente com Deus, quiçá sobre a mediação de Santo Agostinho ou São Jerônimo.

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Danuza Leão e Renato Machado foram casados | Foto: Reprodução

Renato Machado morreu aos 83 anos. Muito bem vividos. Ele estava internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio (ele jamais diria Rio de Janeiro). Foi casado com as jornalistas Danuza Leão e Mônica Morel (sua viúva).

Jornalista divertia-se trabalhando

Pode-se dizer que Renato Machado divertiu-se durante quatro décadas, quase meio século, na Globo. Divertiu-se não é, claro, a palavra adequada. Porque, na verdade, ele trabalhou, de sol a sol. Mas quem trabalha com prazer certamente se diverte. Por isso se diz, no início do parágrafo, que o jornalista se divertiu. Porque, divertindo-se, divertia-nos. Assim como o grande Chico Pinheiro, com aquele humor proverbial e aquela carona e aquele sorrisão aberto de homem de boa vontade e de bem com a vida.

(Pelas caras de Renato Machado e Chico Pinheiro, todo dia é sexta-feira, nunca segunda-feira — o dia mais tedioso da semana.)

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Renato Machado com sua mulher, Mônica Morel, e a filha, Maria Eduarda Machado | Foto: Reprodução

Renato Machado apresentou o “Bom Dia Brasil”, durante anos (1996 a 2010), em parceria com Leilane Neubarth e Renata Vasconcellos, assim como o “Jornal da Globo” e o “TJTV”.

Correspondente internacional, o principesco Renato Machado trabalhou em Londres. Cobriu atentados terroristas em Paris e o desastre nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Na volta, se destacou como repórter especial.

Vinho era uma das especialidades de Renato Machado (a outra era gastronomia). Sabia tudo e mais um pouco.

O Brasil e o mundo, que são uma coisa, fica menos belo e perceptivo sem Renato Machado. Mas a vida é assim: com um pedacinho tido como “o último” — a morte. A Velha Senhora. Incontornável.

[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com]