Euler de França Belém
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Entrevista de Marcelo Adnet às Amarelas da revista Veja sai com final cortado

O corte é pequeno. Trata-se de um erro da gráfica e da redação. Será que a Abril, sob novo comando, está perdendo qualidade?

A entrevista de Marcelo Adnet saiu faltando um trecho | Foto: Jornal Opção

A última edição da revista “Veja”, com data de 15 de abril (o que não deixa ser estranho, pois estava circulando desde sábado, 11, em algumas cidades do país), entrevistou o comediante Marcelo Adnet. O bate-papo resultou em polêmica nas redes sociais, sobretudo por causa do trecho em que o humorista revela que sofreu abuso sexual na infância. Mas quem comprou a revista nas bancas ou é assinante deve ter levado um susto. A entrevista saiu incompleta. Quem leu no site da publicação pôde verificar que o corte foi pequeno. Na versão impressa termina assim: “O isolamento impõe o reencon-”. O texto completo é: “O isolamento impõe o reencontro consigo mesmo. É a vida real”.

O isolamento de que trata é o provocado pela pandemia do novo coronavírus. As edições de “Veja” são geralmente impecáveis, às vezes saem uma ou duas páginas maiores, nos cantos — devido a erro no corte. Mas faltando pedaço eu, que sou assinante há anos, nunca tinha visto.

Qual terá sido o problema? Possivelmente a gráfica está com número de funcionários reduzido. E, como a revista está sendo fechada às pressas, para não deixar de fora os fatos mais quentes da semana, o erro acabou acontecendo. Ou será que, sob novo comando, a “Veja” começa a perder qualidade, inclusive gráfica?

Detalhe: nenhum dos editores percebeu que um trecho havia, como se diz na gíria da redações, “estourado”? Não, é claro.

Origem das páginas Amarelas

A entrevista, em julho de 1969, saiu em papel branco | Foto: Jornal Opção

A “Veja” foi criada em 1968 pelo empresário Victor Civita, por seu filho Roberto Civita e pelo jornalista Mino Carta, o primeiro diretor de redação da revista. Em 1969, dando prejuízo, quase foi fechada.

Numa reunião com a cúpula da Abril, Victor Civita comunicou que a “Veja” seria descontinuada. Domingo Alzugaray (mais tarde, publicou a “IstoÉ”) e Roberto Civita manifestaram-se contrários ao fim da revista.

“Preciso de mais três meses para começar a salvá-la”, disse Roberto Civita. Victor Civita acabou concordando.

Mino Carta contratou Millôr Fernandes para a seção “Supermercado Millôr”. Mas a circulação continuou a cair. O que salvou a publicação foram fascículos sobre a conquista da Lua, em 1969. A circulação subiu e a revista começou a “pegar”. Mas deu prejuízo por boa parte do tempo.

Uma decisão acertada foi a criação de uma entrevista com quatro páginas, depois reduzida para três, e uma seção de investimentos. Era um pequeno caderno. “Roberto sugeriu que o caderno — abrangendo tanto a entrevista como as matérias de investimentos — tivessem uma roupagem editorial diferente. Que tal se saíssem com outra cor de papel? Presente na reunião em que se discutiu a mudança, Richard [Civita] propôs que se utilizasse um estoque de papel amarelo guardado na gráfica. Assim foi feito — e nasceram dessa forma as Amarelas, nome que batizaria a entrevista em formato pingue-pongue”, conta Carlos Maranhão no excelente livro “Roberto Civita: O Dono da Banca — A Vida e as Ideias do Editor da Veja e da Abril” (Companhia das Letras, 534 páginas).

O escritor Nelson Rodrigues foi o primeiro entrevistado das “Amarelas”. O entrevistador, Luís Fernando Mercadante, descobriu que “o gravador pifara”. “Simplesmente nada havia sido registado. O que fazer? Sem outra saída, escreveu de memória, certo de que havia esquecido de boa parte das respostas e se confundido aqui e ali. Cumprido o acordo, levou o texto para Nelson, receoso de sua reação. Quando o dramaturgo e cronista terminou a leitura, deu-lhe os parabéns: ‘Perfeito! Essas maquininhas de gravar são maravilhosas!’”

Sobre a entrevista de Nelson Rodrigues

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