O Brasil enviou mais de 25 mil militares para lutar contra o nazifascismo na Itália, entre 1944 e 1945 — há mais de 80 anos. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), morreram mais de 460 pracinhas e vários voltaram mutilados (https://tinyurl.com/2nf4z4r4) e com neurose de guerra.

Os pracinhas, os homens, são citados em vários livros. Cada vez mais, o que é positivo, porque os brasileiros foram à Europa para defender a democracia contra o totalitarismo da Alemanha do nazista Adolf Hitler. Entretanto, as 73 enfermeiras que salvaram vidas na Itália, trabalhando dia e noite — à custa da própria saúde —, permanecem praticamente esquecidas, com escassos registros bibliográficos.

Setenta e três enfermeiras — 63 da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e seis da Força Aérea Brasileira (FAB) — cuidaram, com desvelo, dos brasileiros (e americanos do norte) feridos nas batalhas, entre 1944 e 1945. Portanto, também são pracinhas.

As enfermeiras não participaram das batalhas diretamente. Mas conviveram com as consequências das lutas, tratando dos feridos. Uma delas foi ferida quando a área em que estava foi bombardeada pelos alemães.

Além de olvidadas, as enfermeiras tiveram de lutar para terem seu valor reconhecido como militares (e receberem aposentadorias dignas). Duas delas — as capitãs Altamira Pereira Valadares e Zilda Nogueira Rodrigues — tiveram neurose de guerra.

“De Altamira a Zilda — A Guerra Permanente das Enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira” (Dialética Editora, 202 páginas), de Daniel Mata Roque e Fernando Porto, é um livro de alta qualidade. Muito bem documentado, com interpretações pertinentes (resulta de uma tese de doutorado pioneira, original). Pode-se sugerir que os autores restituem, se se pode dizer assim, as vozes das capitãs Altamira e Zilda.

Livro do historiador Fernando Lourenço Fernandes relata que “a FEB teve 314 casos de distúrbios psicológicos durante toda a campanha, tendo ficado 239 dias seguidos na frente de combate”. O médico Paiva Gonçalves, que coordenou as juntas de seleção para a FEB, “informa que o Serviço de Saúde da FEB atendeu ‘433 casos de perturbações mentais’”.

Comenta-se, nesta resenha, mais sobre as enfermeiras Altamira e Zilda. Mas o leitor interessado, que nem precisa ser especializado, ganhará muito se ler os trechos iniciais e finais da obra. Há uma discussão de primeira linha sobre neurose de guerra, baseada nas ideias do psicanalista tcheco-austríaco Sigmund Freud e do psiquiatra holandês Bessel van der Kolk.

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Altamira Pereira Valadares

Nascida em 1910, em Batatais (SP), Altamira teria contraído gripe espanhola, aos 8 anos, em 1918. No Rio de Janeiro, formou-se enfermeira na Escola de Enfermagem do Departamento Nacional de Saúde Pública (mais tarde, Escola de Enfermeiras Anna Nery), em 1933. Tinha 1,53m e pesava 41 quilos.

Altamira casou-se com o médico Hélio Bastos Valadares, mas enviuvou cedo. Determinada, não quis ter filhos e nunca mais se casou.

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Altamira Pereira Valadares, capitã do Exército em dois tempos: idosa e jovem fardada | Foto: Centro de Documentação Capitão Altamira Pereira Valadares, em Batatais

Nomeada em 1934, Altamira começou a trabalhar, remunerada pelo Ministério da Educação e Saúde Pública, na Escola de Enfermeiras Anna Nery.

Em 1934, como assistente do médico Carlos Chagas, atendeu o general Pantaleão Pessoa, chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, e vacinou Luiz Carlos Prestes, em 1942, na Penitenciária Central do Distrito Federal.

Em 1942, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha e a Itália. Criou-se então o Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército.

“Todas as 67 enfermeiras da FEB foram voluntárias para o Exército e a guerra”, relatam Roque e Porto. “Foram incorporadas cidadãs que se apresentaram ao Exército de forma espontânea.”

Nomeadas como enfermeiras de 3ª classe, as 67 mulheres recebiam “soldo equivalente aos dos sargentos”. Altamira entrou para o Exército no Rio de Janeiro.

Carmeb Bibiano e Altamira Pereira Valadares enfermeiras na região de Valdiburra na Itália em janeiro de 1945 Foto centro de documentação II Guerra
Carmen Bibiano e Altamira Pereira Valadares, enfermeiras brasileirias, na região de Valdiburra, na Itália, em janeiro de 1945 | Foto: Centro de Documentação II Guerra

Em abril de 1944, Altamira “foi nomeada enfermeira de 3ª classe e incluída no Quadro de Enfermeiras da Reserva do Exército”.

O embarque de Altamira para a Itália se deu em 4 de agosto de 1944. Viajou num avião dos Estados Unidos. Chegou em Nápoles em 12 de agosto.

Na Itália, por decisão do comandante da FEB, general João Baptista Mascarenhas de Moraes, as enfermeiras foram promovidas ao posto de 2º tenente. Tornaram-se oficiais. Mas o soldo permaneceu o de  sargento.

A FEB, que atuou no Norte da Itália, contou com os préstimos de Altamira em vários hospitais, como o 105º Station Hospital, o 64º General Hospital, o 38º Evacuation Hospital, entre outros.

No 15º Evacuation Hospital, em Corvela, Altamira atendeu, “com o fim da guerra, muitos prisioneiros alemães feridos”.

O primeiro ingresso oficial de mulheres nas Forças Armadas do Brasil se deu com as 73 enfermeiras que estiveram na Itália. Na FEB ganharam a patente de tenente mas recebiam soldo de sargento. Algumas foram reformadas como capitãs. E a neurose de guerra não atingiu apenas homens. As militares também adoeceram.

Altamira trabalhou num hospital de campo — mais próximo das batalhas — que recebia “os feridos mais graves”. Ela relatou que “os casos atendidos eram cirurgias de tórax e abdômen ou amputações, ‘que não podem esperar dado a gravidade e urgência’”. “É uma correria, poucos se salvam”, anotou. Manter-se inteiramente são é uma tarefa para Hércules, por assim dizer.

“Nos hospitais de campanha durante a guerra, Altamira lamentou não ser médica, pois assim poderia ‘ir mais além’ no seu trabalho.” A enfermeira “atuava diretamente com os médicos cirurgiões e recebia os feridos inconscientes”.

Dado o pesado ambiente da guerra, com feridos e mortos, Altamira chegou a pensar em ir embora da Itália: “A minha cabeça está oca”. Estava muito magra e debilitada. Por causa dos “bravos feridos” que passaram por suas mãos, decidiu permanecer.

Médicos, como o coronel Marques Porto, elogiaram a eficiência e a dedicação de Altamira. Mas a enfermeira se dava melhor com os militares americanos.

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Altamira Pereira Valadares com estudantes; a capitã aparece fardada | Foto: Centro de Documentação Capitão Altamira Pereira Valadares

Certa feita, quando um médico fazia uma cirurgia, com o apoio de Altamira, duas bombas atingiram o hospital. “Caiu um bloco de terra suficiente para ferir alguém”, anotou a enfermeira em seu diário. Uma “ferida” invisível, quiçá na alma, surgia ou se firmava.

A enfermeira anotou no diário que não estava bem. “Creio que vou ficar maluca, estou perdendo a memória lentamente! Sinto um vazio e um torpor, sonolência, porém custo a dormir”.

Com o fim da guerra, Altamira deixou a Itália em 5 de julho de 1945. “Foi licenciada do serviço ativo e incluída na reserva do Exército em 6 de outubro.”

O médico-major Alípio Corrêa Netto (professor de cirurgia na USP) registrou, num boletim, que Altamira era uma enfermeira “dedicada ao serviço de equipe cirúrgica”.

Altamira recebeu, em 1945, a Medalha de Campanha. Depois, ganhou a Medalha de Guerra, em 1946, a Medalha de Bons Serviços da Cruz Vermelha Brasileira, em 1958, e a Medalha Marechal Mascarenhas de Moraes, em 1975.

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Daniel Mata Roque, o pesquisador cuja tese de doutorado versa sobre a “neurose de guerra” de duas enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira (FEB) | Foto: Reprodução

No Brasil, Altamira voltou aos quadros do Ministério da Educação e Saúde.

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Enfermeiras gravemente feridas

Graziela Afonso de Carvalho e Guilhermina Rodrigues Gomes foram “as duas primeiras enfermeiras a serem reformadas, portanto jurídica e publicamente reconhecidas como militares e como portadoras de sequelas de guerra”, em 14 de novembro de 1946.

Durante a inundação do 38º Evacuation Hospital, Graziela caiu e fraturou duas vértebras e duas costelas. Altamira era sua colega de trabalho.

A explosão de uma mina terrestre próxima ao 7º Station Hospital, em Livorno, jogou Guilhermina longe. A enfermeira fraturou a coluna.

Roque e Porto contam que “46 enfermeiras requereram o retorno ao Serviço de Saúde do Exército. Outras 12 já haviam sido reformadas, antes de 1957, por incapacidades físicas e emocionais adquiridas na guerra”. As 12 se tornaram “de fato militares do Exército”.

O decreto presidencial de 2 de junho de 1949 reformou Altamira. A enfermeira foi promovida a 1º tenente e, em 1956, a capitã (ou capitão, como preferem os autores do livro).

De Altamira a Zilda capa de livro

A reforma se deu com base no “diagnóstico de neurose de guerra”. Os médicos apontaram “crises de pânico e de choro, alucinações, insônia, instabilidade de humor, tremores, desânimo e sentimento de culpa”.

Aposentada, Altamira decidiu constituir a memória da FEB. Seu livro “Álbum Biográfico das Febianas” é um importante documento histórico. Ela criou um museu em Batatais. Seu diário, não publicado em livro, como ela queria, pode ser lido na internet.

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Zilda Nogueira Rodrigues

Zilda nasceu, em 29 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro. Os pais eram pobres. Atuou como parteira antes de se formar no curso de Enfermagem Obstétrica da Escola de Medicina e Cirurgia do Instituto Hahnemanniano do Brasil.

A enfermeira Elza Cansanção Medeiros relatou que, na Itália, Zilda, que era parda, sofreu discriminação por parte de militares e enfermeiras americanos. A FEB contava com três enfermeiras negras.

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Zilda Nogueira Rodrigues: capitã do Exército que serviu à FEB na Itália | Foto: Reprodução

Mulher de personalidade forte, Zilda teve problemas com superiores. Pelo visto era competente. Tanto que assumiu como enfermeira-chefe da Seção Brasileira de Hospitalização do 45º General Hospital.

Médico e major Azais de Freitas Duarte elogiou o trabalho de Zilda: “Hábil profissional, destacou-se soberbamente, revelando capacidade extraordinária, energia, lealdade em suas atitudes”.

Dado seu empenho, foi promovida pelo comandante da FEB a enfermeira de 1ª classe.

Devido a uma “estafa mental”, Zilda foi internada, em Livorno e Nápoles. Azais de Freitas “observou irritabilidade, insônia, angústia”. O médico registrou quadro de “depressão”.

Mesmo em crise, Zilda ficou na Itália até o término da guerra. Retornou ao Brasil em 7 de julho de 1945. Recebeu as medalhas de Campanha e de Guerra. Depois, em 1972, recebeu a Medalha Marechal Mascarenhas de Moraes.

No retorno ao Brasil, os médicos do Exército constataram que Zilda estava com “neurose de guerra”. Apontaram “depressão” e informaram que a enfermeira tentou se suicidar duas vezes. Os tratamentos recomendados foram insulinoterapia e eletrochoques.

Como o tratamento não surtiu nenhum efeito, Zilda foi reformada, aos 31 anos, como 1º tenente, em 1950.

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Zilda Nogueira Rodrigues com o sargento Leopoldo Barbato Filho (ferido), na Itália | Foto: Acervo do Centro de Documentação Capitão Altamira Pereira Valadares

Em 1954, Zilda se tornou a primeira mulher a se tornar capitã das Forças Armadas brasileiras.

Reformada, Zilda não se acomodou. “Dedicou-se à memória e à assistência aos colegas ex-combatentes, integrando as diretorias da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil e da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira.”

Zilda e mais duas enfermeiras foram as primeiras eleitoras mulheres do Clube Militar. Na década de 1950, a enfermeira criou o Clube de Oficiais Enfermeiras de Guerra.

Na eleição de 1960, apoiou o general Henrique Lott para presidente da República. O aliado do presidente Juscelino Kubitschek era um febiano.

Zilda morreu em 22 de junho de 2006, aos 87 anos.

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“A neurose em Altamira”

Roque e Porto contam que, com o retorno ao Brasil, Altamira adoeceu. “Uma constante sensação de sofrimento, físico e psicológico, invade o dia a dia” da enfermeira ‘e todas as áreas de sua vida”.

“Preciso chorar muito, porque tenho a  impressão de que vou enlouquecer”, escreve Altamira no seu diário. “Sinto-me muito nervosa, esgotada. Tenho a impressão que deliro ou que irei enlouquecer se permanecer por muito tempo nesta terra”, anota.

Altamira visitou o papa Pio XII, no Vaticano, e participou de sessões espíritas. A enfermeira assinala que o fato de “não” ter colaborado para salvar militares da FEB a tornaram “atormentada” e “amaldiçoada”.

Para dormir, Altamira tomava sedativos. “Tenho sonhos horríveis e espero que não sejam pressentimentos e não passem de efeitos profundamente recalcados de guerra.”

Roque e Porto relatam que “Altamira parece ter muitas crises  e oscilações de humor e vontades”. No diário, ela anota: “Nunca pensei em pôr fim à minha vida, mas ultimamente sinto esta atração pois o meu mal continua rebelde e a minha vida cheia de decepções”.

Em 1947, Altamira recebe o diagnóstico de “psiconeurose de guerra”. Sente-se melancólica: “Dia lindo de sol e a alma triste em sombras”.

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Altamira Pereira Valadares: na porta de sua casa, em Batatais | Foto: Centro de documentação Capitão Altamira Pereira Valadares

Cinco médicos apontaram os sintomas de Altamira: “fobias, angústia, insônia, tremor dos dedos, emagrecimento, instabilidade de humor”.

Em 1948, a Junta Militar de Saúde do Exército apresenta outro diagnóstico: “constituição psicopática neurótica e rinite espasmódica”. Altamira é considerada “incapaz definitivamente para o serviço do Exército”.

O especialista em neurologia e psiquiatria do Hospital Central do Exército propõe, no seu parecer, que “a doença” de Altamira “pode ter sido agravada pelas condições do serviço em ação de guerra”. É muito difícil passar incólume à brutalidade das batalhas.

O psiquiatra Américo Doyle Ferreira, do Exército, registra no relatório oficial: “A paciente declara que ao seguir para o front italiano estava em perfeitas condições de saúde. Que durante os seus serviços como enfermeira do 32th Field Hospital esteve submetida a intenso regime de trabalho com um mínimo de 16 horas diárias”.

O excesso de trabalho, disse Altamira ao psiquiatra, aumentou sua “tensão nervosa”. Ela contou ao médico que “vivia sob estrondos e tremores do solo devido aos incessantes bombardeios, o espetáculo horrível oferecido pelos feridos graves com lesões traumáticas”. O profissional fala em “depressão nervosa” e “constituição psicopática, neurose de guerra, coriza espasmódica”.

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“A neurose em Zilda”

Na volta ao Rio de Janeiro, dados problemas emocionais, Zilda é internada no Hospital Central do Exército. A enfermeira relatou aos médicos que “sofria com sonhos apavorantes”. Ela gritava durante o sono.

O médico Azais de Freitas disse que o quadro neurótico de Zilda era decorrente da guerra.

Zilda Nogueira Rodrigues com enfermeiras que estiveram na Itália 0k45
Joana Simões de Araújo, Aracy Arnaud Sampaio, Zilda Nogueira Rodrigues, Virginia Maria de Niemeyer Portocarrero e Lília Rodrigues, em pé, da esquerda para a direita; sentadas, Maria Luiza Vilela Henry e Lenalda Campos Duboc: as sete enfermeiras trabalharam para salvar vidas na Itália | Foto: Acervo pessoal de Maria do Socorro Sampaio Martins de Barros/ANVFEB-DF

O psiquiatra militar Hugo Kammsetzer apresentou “um quadro bastante grave da paciente, com surtos, depressão e tentativas de suicídio”.

Kammsetzer diz que Zilda “chegou ao ponto de atentar contra a vida, ora com cibalena, ora com gasolina”. A enfermeira “tem medo, é tomada de pânico”.

O psiquiatra Thales Estrázulas de Oliveira e Kammsetzer concluem pelo diagnóstico de “psiconeurose de angústia”.

A guerra, com seus horrores, plantou uma semente de desajuste na mente tanto de Altamira quanto de Zilda.

Depois da guerra, Altamira e Zilda se envolveram com a preservação da memória das enfermeiras que estiveram e, ao seu modo (salvando vidas, cuidando de feridos), lutaram na Itália. Roque e Porto falam em “incapacidade psicológica para viver com a própria memória”.

Os autores do livro mencionam Bessel van der Kolk: “A essência do trauma é ‘ser esmagador, inacreditável e insuportável”. Freud assinalou: “Todos os neuróticos são fingidores, eles simulam sem o saber e essa é sua doença”.

No caso das duas enfermeiras — que, com problemas de saúde, lutaram pela valorização das demais enfermeiras que foram à guerra —, “o desafio principal tornara-se a própria mente”.

Roque e Porto pontuam que, “nos diagnósticos de Altamira e Zilda, surge a possibilidade que as duas já sofressem de uma patologia neurótica antes da guerra, e que a experiência do conflito tenha desequilibrado ou potencializado os sintomas e o sofrimento”.

Os pesquisadores percebem “o trauma como a centralidade” das vidas de Altamira e Zilda “e de suas novas personalidades públicas e privadas. A permanente reelaboração da memória traumática e esse insistente reviver, de certa forma obsessivo, é parte tanto do sintoma psíquico quanto da tentativa de processar e superar o trauma, consciente e inconscientemente monumentalizado”.

A tese central da pesquisa é: “As enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira (FEB) diagnosticadas com neurose de guerra, em virtude de suas atuações na Segunda Guerra Mundial, permaneceram o resto da vida presas aos traumas trazidos do conflito bélico”. Elas são “vítimas, vencedoras e monumentos de uma guerra total”.

Altamira e Zilda lutaram pela democracia em solo europeu. Com seus cadinhos de participação, contribuíram para destruir o totalitarismo da Alemanha nazista de Adolf Hitler.

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Enfermeiras processaram o poeta Décio Pignatari

Em 1992, nove enfermeiras que estiveram na Itália moveram uma ação contra o poeta, prosador e tradutor Décio Pignatari, um dos pais, ao lado dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, do concretismo.

No romance “Panteros”, um personagem, sargento da FEB, afirma que “das enfermeiras, só se lembrava de uma: as outras só queriam foder com os americanos, desprezavam os brasileiros, que eram melhor tratados pelas enfermeiras ianques”.

Décio Pignatari
Décio Pignatari, poeta e prosador | Foto: José Osvaldo Santos/Arquivo USP Imagem

Pode-se sugerir que a fala traduz a opinião do personagem, não necessariamente a opinião do escritor Décio Pignatari. Ainda assim, a frase é mesmo ofensiva e preconceituosa em relação às enfermeiras brasileiras e às mulheres em geral.

Décio Pignatari foi processado “por injúria e difamação contra todo o coletivo de veteranas da FEB, vivas e falecidas”. As enfermeiras exigiram retratação pública.

Um procurador do Ministério Público ficou ao lado de Décio Pignatari, sugerindo o arquivamento da ação.

Na segunda instância, as enfermeiras “venceram” Décio Pignatari. Na audiência de conciliação, o bardo não compareceu, mas enviou um advogado. Numa carta, ainda que não pedisse desculpas, o romancista disse que “o texto era pura ficção” e que “não” havia pretendido “ofender ninguém”.

Décio Pignatari reconheceu o valor das enfermeiras na luta contra o nazifascismo. O juiz nominou de “retratação cabal” a fala do poeta. O processo foi arquivado em 1995.

Não há erros no livro, exceto um, de escassa importância. A jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch é bielorrussa — não ucraniana.

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Família Belém “enviou” 3 membros pra Itália

A família Belém enviou três pessoas para a Itália: o tenente Benvindo Belém de Lima e as enfermeiras Maria Belém Landi e Roselys Belém Teixeira.

Sei quase nada sobre Maria Belém Landi e Roselys Belém Teixeira. Sei alguma coisa sobre Benvindo Belém de Lima, primo de meu pai, Raul de França Belém.

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Enfermeiras do General Hospital Headquarter Building, em Nápoles; da esquerda para direita: Nair Paulo de Melo, Maria Conceição Suarez, Edith Fanha, Carlota Mello, Roselys Belém Teixeira e Izabel Novaes Feitosa | Foto: Reprodução

Maria Belém Landi nasceu em 1920, e morreu em 2008, em Brasília. Na internet menciona-se que nasceu no Rio de Janeiro e em Barreiras, na Bahia.

Na Itália, Maria Belém Landi trabalhou em vários hospitais, na área de clínica cirúrgica

A enfermeira Altamira Pereira Valadares disse sobre a colega: “Maria Belém deixou grande nome entre os médicos pela sua extraordinária capacidade de trabalho, de produção e competência técnica”.

Roselys Belém Teixeira nasceu em Araguari (MG), em 1914, e morreu em 2014. A enfermeira era 2º tenente na Itália. Ela embarcou no dia 19 de outubro de 1944.

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Maria Belém Landi: enfermeira brasileira que atuou na Itália | Foto: Reprodução

Benvindo Belém de Lima, de Pindorama — quando nasceu, era distrito de Natividade —, lutou contra o nazifascismo na Itália e foi ferido numa perna.

Homem magro e alto, com mais de 1,90m, Benvindo Belém de Lima morreu aos 32 anos.

As feridas de Benvindo Belém de Lima, tanto as físicas quanto as psíquicas, nunca se cicatrizaram.

De acordo com Raul Belém, Benvindo Belém de Lima não apreciava falar sobre sua participação na Segunda Guerra Mundial. Era, por assim dizer, um “neurótico de guerra”.

Certa feita, um parente perguntou “Tenente Benvindo, o sr. matou muitos alemães na guerra?” O ex-militar deu uma resposta curta: “Eu não fazia mira”. Levantou-se e saiu, sem se despedir.

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Benvindo Belém de Lima: ferido na guerra, morreu no Brasil, aos 32 anos | Foto: Arquivo da família

Dono de uma fazenda, na região de Pindorama de Goiás — hoje Pindorama do Tocantins —, Benvindo Belém de Lima, na versão de Raul Belém, adotou um modo de vida diferente dos demais. Comprava cavalos velhos, que ninguém queria mais, e colocava nas suas terras (muitas terras, segundo o parente Cícero Belém de Moura, meu primo).

Um de seus hábitos era considerado “estranho” por seus contemporâneos. Suas roupas eram sempre idênticas, das mesmas cores.

Há indícios de que Benvindo Belém de Lima morreu em decorrência dos ferimentos, não inteiramente curados, das lutas na Segunda Guerra Mundial.

Em Belo Horizonte, há a Rua Expedicionário Benvindo Belém de Lima. Goiás, pelo contrário, o esqueceu. Não há nenhuma homenagem. Em Pindorama, há um busto — e só.

[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com — WhatsApp: 62-99973-9629]