Euler de França Belém
Euler de França Belém

Chuvas primaveris, o labrador João Fidelis e homenagem a Willis Haviland Carrier

Será possível trocar a estátua do Anhanguera pela estátua de um inventor americano?

Willis Haviland Carrier: inventor do ar condicionado

Há algum tempo, durante um debate acalorado na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, estudantes e professores discutiram sobre a possibilidade de retirada da estátua do Anhanguera da Praça do Bandeirante, no Centro de Goiânia. A maioria avaliava que, como o Bandeirante teria sido um espoliador do Estado, era melhor derrubar a escultura gigante. Ninguém, nem por um minuto, pensou na felicidade dos pombos. Parte sugeria que jogá-la fora era esconder parte da história da região. Aí, numa tentativa de conter a balbúrdia, o professor Arnaldo Bastos deu a dica definitiva: “Que tal arrancarmos a estátua do bandeirante e colocarmos a de Willis Haviland Carrier?”. Docentes e discentes ficaram estupefatos: quem diabos é Willis Haviland Carrier?

Estátua do Anhanguera: no cruzamento das avenidas Goiás e Anhanguera, no Centro de Goiânia

Com aquele sorriso ao mesmo tempo irônico e doce, dos maliciosos que não são maldosos, Arnaldo Bastos explicou sua sanha mudancista: “Willis Haviland Carrier, caros colegas, foi o engenheiro americano que inventou o ar condicionado e o umidificador de ar”. Com a audiência perplexa, quase sem fala: o doutor em direito acrescentou, com ar cândido: “Uma mudança perfeita, de bom tom, não é?” O fato é que, apesar de positiva, a sugestão colaborou unicamente para acabar com o debate improdutivo e, num passe de mágica, todos esqueceram o Anhanguera, lembraram-se do calor infernal e, pelo menos, passaram a saber alguma coisa sobre o grande Willis Haviland Carrier, o americano tranquilo, nascido em 1876 e falecido em 1950.

João Fidelis: o labrador arteiro que, se brincar, até digita no computador

João, o labrador que adora chuva

Lembrei-me da história do lente Arnaldo Bastos ao sair hoje de casa para passear com João Fidelis, o labrador que se tornou meu despertador diário. Saímos cedo, e não chovia. Depois de 100 metros, sinto que uma gota d’água, furtiva, cai no meu polegar esquerdo. Olhei para o Céu, que estava cinza, nublado. Começou a pingar.

Passei a mão no pelo do João Fidelis. Estava molhado. Mas ele não se importava. A grama começou a ficar molhada, assim como o piso da rua. Logo comecei a sentir o cheiro de terra. Um cheiro bom. Não comi nenhum pedacinho de terra. Garanto. Nem eu, nem o João Fidelis.

A chuva era fininha, mas, aos poucos, comecei a ficar com a cabeça molhada. Como era a primeira chuva, depois de tantos meses de seca, decidi continuar — até porque João Fidelis não estava nenhum pouco incomodado. Aqui e ali, quando ficava um pouco mais molhado, dava uma sacodida mais forte e, em seguida, continuava a andar e a cheirar o ambiente novo, transformado pelo chuvisco; depois, chuva.

Depois de andarmos dois quilômetros, percebi que, com o ar menos seco e sem sol, João Fidelis continuava empolgado. Por isso, no lugar de voltar para casa, continuei a andar, agora com a roupa e os cabelos levemente molhados. Quando voltamos para casa, depois de andar três quilômetros, com paradas para o João Fidelis entender as mudanças do ambiente, por intermédio de seu faro privilegiado, estávamos relativamente molhados. Mas contentes. O calor havia fugido para Cuiabá, onde, segundo o professor Reinaldo Diadório Hermógenes, idolatram Willis Haviland Carrier.

Na porta da casa, João Fidelis deu uma forte sacudida, espalhando água, e parecia feliz. Uma veterinária diz que cachorro feliz é cachorro cansado. Pois é: a teoria talvez possa ser ampliada: cachorro feliz é cachorro molhado. Os labradores “tratam” a água quase como um parente. Certa feita, quando era adolescente, João Fidelis aprendeu a abrir a torneira do quintal e tomava banho. Antes, cavava um buraco debaixo da torneira e criava uma pequena piscina. Ao final do “banho”, estava molhado e vermelho (cor da terra do quintal), não mais amarelado, sua cor natural. Como os banhos estavam cada vez mais frequentes e lamacentos, Candice Marques, colega de Arnaldo Bastos na UFG e fã número dois do invento de Willis Haviland Carrier, trocou a torneira. João Fidelis parou de tomar banho e nós nos arrependemos de tê-lo contrariado.

O médico Mayler Olombrada (dono dos labradores Van Gogh e Frida), goiano que mora na Espanha, diz que labrador tem pelo auto-limpante. Procede. João Fidelis fica sujo, quando cava buracos, e logo depois está limpo. Por quê? Porque o pelo do labrador cai muito, principalmente em determinadas épocas, como agora. Mas ele gosta mesmo é de água. Por isso a chuva, longe de incomodá-lo, o alegra. Quando chove muito, João Fidelis faz uma festa extraordinária. Corre pelo quintal, deita-se nas poças de água, cava buracos. É uma criançona, feliz da vida.

Voltando à história inicial, é provável que não seja preciso arrancar a estátua do Anhanguera, para manter a história viva, ainda que partes possam não nos agradar, mas, como sugeriu o criativo Arnaldo Bastos, torcedor do Goiás (consta que carrega até uma cruz verde na carteira), que tal homenagear Willis Haviland Carrier, o inventor que merece ser qualificado de genial, com uma estátua em alguma entrada de Goiânia? Com a adoção de certo misticismo, pode atrair chuva. De repente, o americano pode passar a ser chamado de “o Padim Cícero do clima”.

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