Altair Sales Barbosa
Altair Sales Barbosa
é professor, doutor em Antropologia pela Smithsonian Institution – Washington, D.C. e pesquisador visitante da UniEvangélica (Anápolis).

Os mensageiros de Jurupari

Este é o resumo da minha e da nossa trajetória indígena. Não sei quantas línguas desapareceram. Sei que sou o único sobrevivente de um grande massacre

O Jurupari, na arte do ilustrador Eduardo Arruda | Foto: Reprodução

Eu sou Gu-ê-Crig, único sobrevivente de um povo que se extinguiu.

No contexto da nossa cosmovisão, povoa um personagem enigmático, maligno, e demoníaco, ao qual os meus irmãos indígenas atribuem o nome de Jurupari.

As mulheres e crianças das aldeias ficam arrepiadas quando seu nome é mencionado.  Ninguém sabe como é, ninguém conhece sua forma, porque ele nunca aparece, sempre atua através de mensageiros, que tomam formas humanas. E, que sempre chegam aos territórios dos meus irmãos indígenas, pós um som estranho, que imita o ruído produzido por um instrumento de sopro, feito de cabaça doce.

Chegam travestidos de inúmeros personagens e, por onde passam, deixam um rastro enorme de desestruturação, mudam o rumo dos caminhos, criando dessa forma encruzilhadas confusas e perigosas. Intimidam os homens com artifícios perigosos, qual choque de poraquê, desrespeitam as mulheres, principalmente as mais jovens e, ainda, cometem um mal maior: espancam as crianças.

Os geraiseiros, que tomaram emprestado um pouco da descendência indígena e convivem nos sertões dos gerais, afirmam que Jurupari aparece às noites de lua minguante, no alto das copas do sabiú, planta típica daqueles gerais. Durante a fase da lua minguante, todas as noites, seus secretários, súditos e bajuladores se reúnem para ouvi-lo.

O Jurupari, na ilustração de Marcos Miller | Foto: Reprodução

Depois tocam o tal instrumento de cabaça doce, dançam e desaparecem em várias direções.
Os geraiseiros ainda contam ser essa a causa da compactação do solo debaixo dos sabiús, por isso, nenhuma plantinha germina ali.

Com toda certeza, Jurupari ficou sabendo dos paraísos indígenas, desde muitas luas até os dias atuais, seus mensageiros e bajuladores vivem perseguindo meus irmãos. Não contentes com o que fizeram, ainda hoje continuam os atormentando de diversas maneiras.

Antes, porém, de lhes mostrar a atual encruzilhada que os seguidores de Jurupari fizeram enveredar meus parentes, vou relembrá-los um pouco da história que as nações indígenas construíram nos sertões de dentro desta terra que mais tarde seria conhecida como Brasil.

Desde que as naus portuguesas chegaram, em abril de 1500, ao litoral deste território, numa enseada batizada com o nome de Baía de Todos os Santos, cerca de 25 gerações se passaram. Naquela época os meus ancestrais indígenas já estavam na região dos grandes sertões, há pelo menos 550 gerações.

Quando meus antepassados, chegaram ao centro do que hoje é o Brasil, uma sensação estranha lhes tomou conta: pensaram ter descoberto o paraíso, tal a opulência de recursos. As paisagens, com seus inúmeros rios de águas cristalinas, repletos de peixes, com seus variados frutos comestíveis, com uma diversidade enorme de animais e ainda com inúmeros abrigos naturais, os acolheram de forma tão carinhosa que eles souberam retribuir esta acolhida, com uma grande pitada de carinho cultural e harmoniosa.

O Jurupari, na ilustração de Giselle Carvalho | Foto: Reprodução

Os ameríndios, como também nos apelidaram, chegaram nesse ambiente como nômades, caçadores, pescadores e coletores das sobrevivências. As moradias eram os abrigos naturais ou cavernas, locais onde enterravam e veneravam os mortos. Nestes locais sempre faziam as cerimônias, gravavam mensagens, ou simplesmente decoravam artisticamente suas paredes.

Mais tarde, com as diversas oportunidades que o ambiente oferecia, aprenderam a domesticar alguns dos vegetais nativos e, dessa forma, meus ancestrais se transformaram em horticultores; com isto, deixaram a moradia das cavernas e passaram a colonizar os verdejantes vales dessa terra, onde implantaram grandes aldeões.

Entretanto, mesmo vivendo em áreas abertas ou aldeias, nunca deixaram de visitar os abrigos naturais ou cavernas, as antigas moradias, pois sempre souberam respeitar e reverenciar a memória dos antepassados.

O Jurupari, na ilustração de Márcio de Castro | Foto: Reprodução

O futuro chegou com a rapidez de um relâmpago, com sua ideologia economicista, passou sobre nossa ancestralidade como um rolo compressor. Todos foram e são estereotipados na forma de vários preconceitos. Até o título de preguiçoso nos cunharam, simplesmente porque não aceitávamos, e não aceitamos até hoje, o regime da escravidão.

Segmentos da sociedade, os fiéis mensageiros de Jurupari procuraram e procuram marginalizar meus antepassados de várias maneiras, incluindo o uso da força. E, por isso, muitos tiveram de se refugiar nos rincões mais escondidos e inacessíveis dessa Terra.

Porém, a cultura e identidade com a terra eram tão fortes que, mesmo deixando somente rastros, ficaram profundas heranças das inúmeras gerações na cultura do povo que foi se formando e mais tarde recebeu o nome de brasileiro.

E, se tiverem a honestidade de olhar para além das aparências, verão que não somente os brasileiros, mas muitos outros povos incorporaram no seu viver cotidiano elementos que meus irmãos legaram.

Assim aconteceu com o feijão, por exemplo, tão apreciado como alimento desde o Brasil até o Texas. Esse vegetal é uma planta da família leguminosae, que foi domesticada pelos meus ancestrais da mesma forma, que domesticaram o abacate, o abacaxi, o tomate, o pimentão e a pimenta, plantas estas que foram muito disseminadas mundo afora.

Também domesticaram o tabaco, planta da família solanácea, e a usavam em rituais para amenizar as dores e situações de estresse, da mesma forma que meus irmãos do altiplano andino usavam e ainda usam a coca, para amenizar efeitos da altitude e evitar a labirintite causada pela escassez de oxigênio. A sociedade que se formou, cujos valores são modelados pela conhecida civilização ocidental de origem europeia e arábica, aproveitou essas plantas e deu a elas outras formas de uso.

Os irmãos mexicanos criaram o milho, cruzando dois tipos de gramíneas nativas. Este cereal se irradiou com tamanha força e sucesso entre todos os meus ancestrais das Américas e hoje movimenta parte da economia mundial.

O Jurupari, na ilustração de Tiago Lacerda | Foto: Reprodução

Algumas das bebidas, cremes e doces que também meus ancestrais utilizavam e alguns de seus descendentes ainda utilizam, alcançaram mercados mundiais, como o guaraná, bebida energética e refrescante; os cremes das palmeiras Açaí, Patauá, Bacaba, Buriti etc aos quais atribuíam o nome de sembereba; o creme de cupuaçu; as castanhas do Pará, do Caju, do Baru, do Pequi, amendoins etc. fazem parte de uma imensa listagem dessa contribuição.

Um dos nossos cremes ficou tão famoso que o mundo até se esquece de sua origem indígena. Trata-se do creme da amêndoa do cacaueiro, planta nativa das florestas equatoriais, cujo doce hoje em dia é o mais apreciado do Planeta, isso porque os europeus se apossaram desse creme e nele adicionaram o leite taurino, dando origem ao chocolate. Os indígenas ensinaram ao mundo a usar o látex da seringueira, planta nativa do ecótono Amazônia e Cerrado. Hoje, essa matéria-prima movimenta desde os corpos das pessoas, pelos solados dos calçados, até caminhões e aviões, pelos pneus.

O Jurupari, na ilustração de Diego Sanches | Foto: Reprodução

Também domesticaram batatas, inhames e mais de trezentas raças de mandioca, que hoje é alimento importante na vida de muita gente; Ensinaram a consumi-la cozida ou assada e processá-la na forma de tapioca, polvilho, crueira, puba, beijus, e dela fizeram o primeiro alimento desidratado da história da humanidade: a farinha.

Ensinaram aos novos colonizadores a consumirem muitas plantas nativas para saciarem a fome e curarem certas doenças. Assim, a sociedade aprendeu a consumir a Mangaba, o Caju, o Pequi etc.; a beber o chá da Douradinha e da Congonha-do-Campo; e a curar a malária usando a entrecasca do Quinino.

Muitos outros segredos vegetais conseguiram ensinar ao novo colonizador que hoje os incorporou na farmacopeia universal. Entretanto, muitos ainda estão guardados com o pouco que restou dos indígenas, não por egoísmo, mas porque a sociedade que se formou nunca se importou em conhecê-los para o benefício de toda a humanidade. Mas os mensageiros de Jurupari conseguem esses conhecimentos para uso comercial e empresarial, na forma que a sociedade designa de biopirataria.

Esse é o resumo da minha e da nossa trajetória indígena. Não sei quantas línguas desapareceram. Sei somente que sou o único sobrevivente de um grande massacre que ainda fala a antiga língua que era do meu povo Akroá. Vivo refugiado, solitário nas escarpas de uma serra. Era jovem quando os mensageiros de Jurupari chegaram à minha aldeia. Não pude suportar tamanha dor e saí correndo feito um caititu espantado. Quando olhei para trás, ainda pude enxergar por entre os galhos, minha graciosa rede de buriti.

Os meus outros irmãos indígenas, que hoje tentam viver em aldeias, devem ter organizado mais de uma vez sua sociedade e sua cultura com os restos que salvaram do impacto, readaptando-os de acordo com as novas condições e necessidades.

O Jurupari, na ilustração de Naomi Covacs | Foto: Reprodução

Tudo que meus irmãos indígenas ensinaram aos mensageiros de Jurupari eram coisas verdadeiras e úteis. Em contrapartida, quase tudo que nos falaram e prometeram eram falsidades e mentiras. Digo quase tudo, porque sei que nem todos são mensageiros de Jurupari.

Apenas uma verdade eu e meus irmãos aprendemos com os mensageiros e que, por incrível coincidência, se assemelha à história que meu povo contava sobre Jurupari e que pode ser resumida numa única frase: o Diabo, quando não vem, manda o secretário.

3 respostas para “Os mensageiros de Jurupari”

  1. Avatar Danilo Alencar. disse:

    Belíssima narrativa. Cada trecho citado nos enche de vergonha? por saber que tão pouco fazemos diante deste absurdo de tantos maus tratos a esse povo que a eles tanto devemos.

  2. Avatar Beto Selva disse:

    Que maravilha de artigo !
    Tomar consciência dessa sabedoria, descrita com tanta competência pelo Professor Altair, pra poder agradecer aos nossos antepassados autóctones essa herança fantástica.
    Precisamos saber mais, divulgar mais, pra que nunca percamos a oportunidade de sentir que somos herdeiros dessa cultura milenar.
    Obrigado professor Altair Barbosa e espero que continue a nos brindar com esse seu extenso cabedal de conhecimento sobre nossos ancestrais, para que possamos tomar consciência e nos sentir honrados em ser herdeiros dessa cultura maravilhosa.

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