Altair Sales Barbosa
Altair Sales Barbosa
é professor, doutor em Antropologia pela Smithsonian Institution – Washington, D.C. e pesquisador visitante da UniEvangélica (Anápolis).

O errante geraiseiro

Desapareceu por muito tempo das feiras, cerca de três anos mais ou menos. Todos sentiram sua ausência. E não faltaram comentários sobre seu paradeiro

Seu Nhandu era um senhor esguio, pernas compridas e tez morena clara. Ninguém sabia ao certo sua moradia. Era um andarilho dos gerais. Nada se ouvia de sua boca a não ser vez em quando um lapso de “humm… humm…!”

Percorria época sim, época não, as feiras animadas, que existiam nos pequenos povoados daqueles sertões de dentro. Sempre carregava um velho e surrado alforje, no qual colocava alguns presentes que ganhava dos feirantes, farinha, rapadura, sal, arroz e até beijuzinho de tapioca.

Às costas trazia um saco de estopa com alguma coisa volumosa, leve e disforme, que despertava em todos certa curiosidade. Não fazia mal a ninguém, sempre tranquilo andava com olhar aguçado reparando tudo que via, às vezes se admirava com uma ou outra coisa, e, com muita atenção e sinal de respeito, ouvia a cantiga dos cantadores. Seu semblante só mudava quando pressentia o som de uma rabeca.

Ficava parado ao lado das rodas de pessoas que conversavam e trocavam opiniões sobre assuntos variados. Parecia se inteirar dos noticiários. Mas nunca dizia nada, nem pedia as coisas, o agrado vinha de graça, porque todos gostavam dele. Agradecia com gesto singular, por isso todos pensavam tratar-se de um ser que não possuía a propriedade da voz. Nunca pronunciou uma só palavra.

Quando a feira ia chegando nos finalmentes, ele tomava um rumo qualquer e partia, ficava às vezes até três meses sem voltar àquele local. No outro fim de semana, já estava ele na feira de outro povoado, carregando o mesmo tipo de comportamento. No final, sumia novamente. Ninguém sabia para onde ia.

O curioso é que, em todos os lugares que aparecia, era conhecido pelo codinome de “Seu Nhandu”, certamente alguns feirantes disseminaram seu nome. A alcunha deveria ser pelo porte esguio, semelhante ao da ema, ave conhecida pelos geraiseiros por esse nome.

Certa ocasião, Seu Nhandu desapareceu por muito tempo das feiras, cerca de três anos mais ou menos. Todos sentiram sua ausência. E não faltaram comentários sobre seu paradeiro. Uns perguntavam “será que ainda é vivente?”, outros se atreviam a dizer que onça o comeu e assim, por esses caminhos situados entre adivinhação e lamentação, o povo das feiras desenhava o destino de Seu Nhandu.

Um belo dia, era sábado, não faz tanto tempo assim, quando as chuvas de outubro ainda não haviam dado o ar da graça e os riachos já estavam secos, o povo, meio atônito, se agonizava na feira de Santo Antônio das Águas Puras para se remediar do pouco que encontrava.

Naquele momento, uma figura esguia, maltrapilha como sempre e com um saco de estopa às costas apontou na ladeira do areião. O povo, meio que surpreso e estupefato, não teve dúvida: — É o Seu Nhandu.

E à medida que se aproximava da feira, todo aquele povo, num gesto simbólico, parecia lhe reverenciar.

Seu Nhandu, como sempre, chegou sereno, mas dessa vez estava sem os alforjes, e dizem que alguém o notou angustiado. Foi então que ele, num gesto educado e calmo, pegou um banquinho de madeira e dirigindo-se ao centro da feira, assim se expressou:

— Hoje tenho uma história para lhes contar.

Um misto de comoção tomou conta daquele povo, pois todos acreditavam ser ele mudo.

Foi então que ele se pôs a falar:

— Povo de Santo Antônio, meus irmãos, fiquei muito tempo longe de vocês, senti a falta de cada um como se sente a falta de um ente querido. Senti também tamanha saudade, que às vezes meus olhos não suportavam a quantidade de águas e eu chorava. Meu nome é Antônio e não Nhandu como vocês carinhosamente me chamam. Nas feiras dos povoados por onde andei, percebi no ar uma curiosidade sobre o conteúdo que carregava no saco de estopa. Hoje vou revelar a vocês. São sementes de tingui, conhecidas em outras localidades como timbó, hoje as deixo para vocês. Nesses quase três anos de ausência, pude percorrer vários cantos desse imenso gerais. Presenciei coisas estarrecedoras. Quando eu era mais jovem, gostava de ficar muito tempo à beira dos rios para ver a piracema da manjuba. Ficava dias. E me perguntava, de onde vem tanto peixe? Na espreita ao lado, vibrava quando surubins e dourados, esganados como sempre, se atiravam sobre o cardume. Gostava de visitar as aguadas, as lagoas que se formavam ao longo dos rios, recheadas de peixes. E, descansar de barriga para cima à sombra de um pequizeiro onde inutilmente tentava contar o número dos bandos das aves de arribação. O sabor gelatinoso dos puçás, e o agridoce vinho do buriti criavam a sensação de que que eu estaria entrando no sétimo céu de Alá, descrito pelo profeta no livro do Alcorão. Quase entrava em delírio quando algum morador desses muitos ranchos de buritis dos gerais me oferecia um copo de lata recheado com café de fedegoso adoçado com rapadura. Pois sim, meus irmãos! Nesses três anos em que me ausentei de vocês, saí quase que como em missão para rever esses locais. O resultado dessas visitas, veio como um saco de desilusão, tal qual o que carreguei a vida toda, recheado de timbó e tingui. Nada das minhas lembranças existe mais, as águas, as piracemas, as lagoas, os pequizeiros, os ranchos de buritis, todos queimados. Aliás, o último pelo qual passei, ainda se ouvia o estalar das brasas. Pensei, meu Deus o que terá acontecido? Foi aí que recordei das profecias do velho João Cego que morava lá pras bandas do Taboleiro da Conceição e sempre gostava de repetir: “Vocês mais jovens, tomem cuidado, porque chegará um dia em que gente estranha vai chegar neste lugar dizendo para todos: ‘Quero terra. Quero água.’ E, para conseguir esses bens, usarão de meios escusos, perigosos e enganadores, que eles escondem atrás de uma botija como se essa fosse do bem. Uma vez instalados, roubarão tudo que é seu, tudo que você ama e construiu, roubarão a vida de vocês que no fundo se confunde com a vida dos rios e dos gerais. Eu vim aqui hoje até vocês para lhes suplicar duas coisas: espalhem essas notícias e nunca deixem que os forasteiros ou seus mandantes lhes roubem a alma e tirem de vocês a capacidade de sonharem.

Dizendo assim, com uma voz forte e sonora, pronunciou a frase latina:

— Quod habeo tibi do.

Depois mansamente desceu do banco, colocou-o no local onde pegou e seguiu mundo afora no rumo do areão.

O povo atônito, não sabia o que fazer, nem o que dizer, não houve diálogo. Quando todos acordaram de seu estado quase letárgico e procuraram pelo senhor Antônio ou Seu Nhandu, este já havia sumido. Só se avistou no centro da feira um monte de sementes secas de tingui.

5 respostas para “O errante geraiseiro”

  1. Avatar HELENA M B P VASCONC disse:

    Prof Altair , enxerguei seu conto! Maravilhoso e dolorido e Seu Nhandu estava coberto de razão. Vejo com tristeza hoje no que foi transformado nosso cerrado. Qdo vinha das Gerais há 46 anos atrás, encantava-me as árvores de galhos torcidos na estrada. Hoje não enxergo mais nada. Obrigada pelo texto

  2. Nilson Jaime Nilson Jaime disse:

    Professor Altair Sales,
    Goiás e o Brasil ganham com sua coluna.

    Serei seu leitor assíduo, para apreender ensinamentos de antropologia, geologia, ciências naturais, ciências da vida e literatura.

    Parabenizo ao Jornal Opção pela feliz aquisição.
    Bravo!

    Com admiração,

    Nilson Jaime

  3. Avatar Elizabeth Abreu disse:

    Como sempre… Uma narrativa envolvente recheada de conhecimentos. Obrigada!!!

  4. Avatar Aristides Moyses disse:

    Meu caro Altair. Você é magistral. Seus contos, seus textos dão cheios de vida e de ensinamentos. Com você, a gente aprende sempre. Obrigado. Fique por aqui por muito tempo. Grato ao Jornal Opcao por nos presentear com sua coluna.

  5. Uai, amigo professor Altair, eu não sabia que você é contista? Gostei muito do seu conto. Parabéns! Continue escrevendo? Abraço e que a paz esteja sempre com você!

    José Fernandes da Silva

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