Não, Iris Rezende não se assemelhava em nada a Bolsonaro
27 junho 2026 às 13h57

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Sob aplausos e gritos na manhã deste sábado na Tatersal de Elite, a advogada e pré-candidata a vice-governadora pelo PL, Ana Paula Rezende, fez uma declaração dirigida a Flávio Bolsonaro, ao seu lado no palanque, que deu o que falar. Segundo ela, seu pai, o ex-prefeito Iris Rezende, e o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, tiveram “trajetórias diferentes, mas os princípios eram os mesmos”.
Para a pré-candidata, antes do MDB, partido que seu pai ajudou a construir e crescer em Goiás, e hoje no PL, os princípios em questão se referem à “dedicação total à vida pública e amor ao povo”.
“Meu pai amava a gente. Seu pai ama a gente”, disse ela, voltada para Flávio.
Nas redes sociais, as críticas à fala de Ana Paula foram diversas e pesadas. “Ana Paula se perdeu no personagem”, comentou um internauta. “Como tem coragem de comparar seu pai ao Bolsonaro?”, escreveu outra. A indignação, em certo ponto, é absolutamente justificável.
Este mero jornalista que vos escreve não titubeia em dizer com todas as letras e fonemas delas derivados: Iris Rezende não era, em nada, igual a Bolsonaro. Os princípios que ambos carregavam em seus mandatos não poderiam ser mais absurdamente discrepantes.
Ainda está fresca na memória uma história que Ana Paula me contou durante um encontro com a advogada. Segundo ela, Iris tinha o costume de ficar inquieto em noites de muita chuva em Goiânia, preocupado com possíveis enchentes e alagamentos que pudessem atingir a população da capital.
O então prefeito passava noites em claro ligando para secretários e tomando ciência da situação em pontos críticos da cidade.
E por falar em enchentes e alagamentos, o estado da Bahia enfrentou, no final de 2021, uma das maiores crises de sua história devido às fortes chuvas. As enchentes deixaram ao menos 20 mortos, além de milhares de desabrigados.
Presidente da República na época, Jair Bolsonaro, paralelamente à tragédia que se desenrolava na Bahia, pilotava um jet ski no litoral catarinense. “Espero não ter de retornar antes do Réveillon”, disse à imprensa na época.
Voltemos a Iris Rezende. O legado e a marca de amor ao povo não eram em vão. O emedebista tinha, de fato, um vínculo com a massa popular difícil de explicar. Os mutirões da Prefeitura são, até hoje, uma de suas principais marcas.
Para se ter uma ideia, a obra que Iris fez no bairro Vila Mutirão entrou para o livro dos recordes ao construir mil casas em um dia, em outubro de 1983, um domingo. Foi o maior número de casas construídas por dia no mundo. O próprio Iris Rezende, recém-eleito governador, idealizou o bairro e ajudou a capinar o mato que estava no terreno, consagrando uma ação que se perpetuaria e beneficiaria milhares de pessoas.
E, em se tratando de fenômenos que afetam o coletivo, tivemos, em 2020, uma pandemia que durou anos e ceifou a vida de mais de 700 mil brasileiros. Enquanto a doença se espalhava, havia um presidente da República que colocava em xeque a eficácia das vacinas, desenvolvidas em tempo recorde para salvar vidas, e sinalizava que a vida humana, no final das contas, não tinha lá essa importância toda.
“Não sou coveiro!”, “Quer que faça o quê? Sou Messias mas não faço milagre”, foram algumas das afirmações de Bolsonaro em resposta ao questionamento de repórteres sobre as mortes pela Covid-19.
Mas de volta a Iris, o político também foi alvo da Ditadura Militar. Então prefeito eleito em Goiânia, teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos, em 1969, pela Junta Militar que governava o País na época. Afastado da vida pública, trabalhou, durante esse período, como agropecuarista e advogado, atuando em diversos casos no Tribunal do Júri.
Já Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pela Ditadura Militar. Em 2016, dedicou seu voto no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff à memória de um dos mais notáveis torturadores do período militar, Brilhante Ustra. Em 2019, Bolsonaro chamou Ustra de “herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer”.
É compreensível que Ana Paula precise fortalecer seu nome no bolsonarismo, e com isso recorra ao forte legado do pai em Goiás. Contudo, ao dizer que Iris Rezende e Jair Bolsonaro compartilhavam os mesmos princípios, a pré-candidata cria uma comparação que não resista à história.
E destaca-se: não porque tenham seguido caminhos políticos diferentes apenas, mas porque, no exercício do poder, expressaram compreensões muito, mas muito distintas sobre o que significa servir à população e amá-la.
Não. Iris Rezende não se parecia em nada com Jair Bolsonaro.



