Legendários e Juliano Cazarré: a gourmetização da masculinidade
28 abril 2026 às 11h28

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Parece que o homem moderno, finalmente, descobriu que é… homem. Mas, para chegar a essa conclusão óbvia, ele não precisa mais apenas de um espelho. Agora, ele precisa de um kit de sobrevivência, uma montanha íngreme e, se possível, um curso online vendido por um galã de novela. O fenômeno que une o movimento Legendários e a pedagogia de Juliano Cazarré é o mais novo capítulo da nossa era: o mercado da masculinidade “raiz” para quem vive no ar-condicionado.
O roteiro é digno de um filme de aventura, mas o público-alvo é o sujeito que passa o dia em planilhas de Excel, que odeia mulheres com estrias e que tem a masculinidade totalmente frágil. De um lado, o Legendários oferece uma espécie de “treinamento de elite” espiritual, onde o fiel paga para passar frio, fome e cansaço escalando montanhas. A ideia é que, ao atingir o limite físico, o homem deixe de ser um “menino mimado”. Do outro lado, Juliano Cazarré surge como o preceptor da vez, ensinando o óbvio, como ser um pai presente e um marido funcional.
A ironia central é que tanto o movimento quanto o curso de Cazarré vendem a “responsabilidade” como se fosse um produto revolucionário. Pregam o sacrifício como se lavar a louça ou trocar a fralda do filho fosse um ato de heroísmo épico, e não apenas a obrigação básica de qualquer adulto funcional. Criam-se dificuldades artificiais, como subir morros carregando peso, para compensar a falta de sentido real de uma vida baseada no consumo.
Para mim, esses movimentos e cursos não passam de uma forma de esconder o machismo, a toxicidade e a fragilidade masculina. Desde quando é preciso escalar montanhas, fazer trilhas ou comprar cursos online para aprender a ser homem? Antes bastava o bom senso e o caráter, hoje é necessário um marketing agressivo da virilidade.
O sujeito sobe a montanha, posta a foto com filtro rústico no Instagram e assiste às vídeo-aulas de Cazarré como quem consome um produto de prateleira, mas volta para casa exatamente o mesmo, ou pior. Existe uma satisfação narcisista em acreditar que, por ter passado frio em uma trilha, ele agora possui uma “superioridade moral” que o autoriza a continuar sendo o mesmo homem omisso de sempre. Acham que escalando o Pico dos Pirineus estão sendo forjados no fogo, enquanto, na verdade, não conseguem enxergar o óbvio.
Nada disso será capaz de “formar novos homens” se a mudança for apenas estética. Se o indivíduo precisa pagar para que um galã de TV lhe diga para ser fiel ou presente, o problema não é a falta de formação, é a falta de caráter.
A verdadeira virilidade não está em carregar pedras em um morro para depois despejar machismo e toxicidade no grupo de WhatsApp. Está em entender que o respeito às mulheres e a divisão de obrigações não são favores concedidos, são direitos iguais perante a sociedade. Enquanto esses homens buscarem na adrenalina das trilhas a resposta para seus vazios, continuarão sendo apenas meninos mimados brincando de soldado, fingindo uma evolução que morre assim que o sinal do Wi-Fi voltar a funcionar.
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