Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

O escritor André Giusti e o talento das estórias curtas

O talento crítico é expresso com rara clareza, e transborda em “Novas Tendências”.  E intrigante: para um livro escrito em 2003, há dois contos verdadeiramente proféticos

André Giusti, escritor notável

Aveiro, Portugal — Um a resenha do escritor Geraldo Lima no Jornal Opção, de 16 de dezembro último, levou-me a comprar e ler o livro de contos do jornalista carioca-brasiliense André Giusti. Pelo texto, já havia gostado do livro, antes mesmo da leitura. Depois desta, não resisto a dar um palpite para apenas agregar algo ao excelente comentário.

O livro é “A Solidão do Livro Emprestado”, editado em 2003 e com a segunda edição em 2018. Geraldo Lima chama a atenção para algumas facetas que dão relevo aos contos de Giusti: o fato de terem como teatro, na maioria, o Rio de Janeiro (embora há os que ocorram em Brasília), a fragilidade das relações amorosas (como, aliás, na vida real), relatadas com mestria, excessos e consequências do poder político.

Valem a pena, como boa leitura, livro e resenha. Sobre esta, além de concordar com o fato de que a colocação das estórias — principalmente as de amor — no palco carioca cai como uma luva (com personagens iguais aos de Giusti, convivi muitas vezes quando morei naquela cidade única em seus cidadãos, defeitos e qualidades), e aquiescer que o autor tem “rara sensibilidade ao tratar de relações afetivas e de poder entre os indivíduos”, acrescento que André Giusti é um profundo analista, em seus contos, dos extremos que permeiam a sociedade atual, sejam eles funcionais, amorosos ou políticos.

O talento crítico é expresso com rara clareza, e transborda em “Novas Tendências” — a melhor narrativa do livro. E intrigante: para um livro escrito em 2003, há dois contos verdadeiramente proféticos: “Inocente, Senhor”, que se escrito hoje poderia ser confundido com alguma reportagem; e — pasme — “Alvorada”, que teve absolutamente tudo incluído na narrativa para ser o desfecho de uma das últimas presidências dessa nossa República do Brasil. O desfecho foi outro, mas poderia ter sido o do conto. Leiam e concordem — ou discordem, se puderem.

Irapuan Costa Junior, escritor e ex-governador de Goiás, mora em Aveiro, Portugal.

Leia a crítica de Geraldo Lima

A prosa enxuta e envolvente de André Giusti

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