“Poder não admite vácuo” é um dos dogmas da “realpolitik” – termo originalmente usado pelo jornalista e político alemão August Ludwig von Rochau (1810–1875). A atual gestão da Presidência da República acabou desde o resultado final das urnas em 30 de outubro, quando seu titular, Jair Bolsonaro (PL), optou pelo não reconhecimento da derrota, ao mesmo tempo em que se fez recluso e passou a despachar em casa. Na prática, quase 60 dias com carga média diária de trabalho inferior a uma hora e meia. Enquanto isso, seus apoiadores sentaram praça nas portas dos quartéis para pedir, contra a vitória do petista, uma intervenção militar que não virá.

A transição, como em qualquer democracia, precisava ocorrer. Sob o comando do vice eleito Geraldo Alckmin (PSB), o novo comando do Planalto fez seu papel. Mas bem mais do que isso: Lula, com o espaço que lhe apareceu na frente além do comum, dada a recusa do quase ex em governar, tomou medidas que salvam até mesmo o próprio Bolsonaro, com a conquista do acréscimo de necessários bilhões ao orçamento do próximo ano, mas que servem também para ajudar a fechar as contas também do exercício vigente.

A chamada PEC da Transição foi o grande teste para a gestão que, na prática, já está dando as cartas. Com a colaboração do Judiciário – que considerou que o Bolsa Família não deve entrar no teto de gastos, em decisão monocrática do ministro Gilmar Mendes, e deu fim ao orçamento secreto, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) –, Lula conseguiu equilibrar a balança com Arthur Lira (PP-AL), o real “manda-chuva” do País nos últimos anos e negociou acordo com o Centrão para o incremento dos recursos extras para o próximo ano.

É um baita alívio para o início do mandato, ainda mais nas condições tensas da política nacional, em que um bando de golpistas radicais – cada vez menor, é preciso ressaltar – insiste que “o ladrão não sobe a rampa”, se referindo à posse do petista para seu terceiro governo. Lula vai, sim, subir. A questão é: até que ponto terá estabilidade. A votação da PEC, portanto, dá um bom indicativo.

Em termos de montagem do ministério, também tudo está indo relativamente nos conformes, já que ninguém esperava que seria fácil. O presidente tem a vigilância sobre cada escolha, mesmo dos auxiliares do segundo escalão – o que já causou baixas na equipe do Ministério da Justiça, com o futuro titular, Flávio Dino (PSB), tendo de trocar dois nomes antes mesmo de nomeá-los: o ex-futuro diretor da Polícia Rodoviária Federal, Edmar Camata; e o ex-futuro secretário nacional de Políticas Penais, coronel PM Nivaldo Restivo.

Como ele mesmo disse, na solenidade de anúncio coletivo de boa parte de seu ministério, é preciso cobrar, mesmo. E, até agora, Lula tem tido algum crédito pelos analistas políticos, que veem que ainda é momento de acomodar os aliados mais próximos – embora torçam o nariz, na maioria, para o que consideram excesso de petistas na Esplanada –, mas consideram que nomes como o do intelectual Silvio Almeida, para a pasta dos Direitos Humanos, e a da presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade, para a Saúde.

Com a experiência de oito anos na cadeira da Presidência e a resiliência de 580 dias em uma prisão que se provou ilegal, não há como negar: não teria ninguém mais adequado além de Lula para assumir um governo em situação tão periclitante para a democracia. A aprovação da PEC foi um presente que o petista com certeza pediria a Papai Noel.