Rock in Rio 2026: o festival perdeu a essência?
08 setembro 2026 às 16h09

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Tem uma sensação estranha pairando sobre a Cidade do Rock. E não é só sobre estar vazio ou lotado. O primeiro dia, por exemplo, teve multidão com o Foo Fighters. Mas houve sim apresentações esvaziadas, e a foto de clareira no gramado dói. Apesar de algumas apresentações lotadas, como Elton John, com ingressos esgotados, a impressão é que o Rock in Rio perdeu o encanto

Agora, vamos aos motivos desse flop:
1 ) R$1.950 pra ver em pé a sua banda preferida num “camarote” bem pertinho do palco. Esse é o elefante na Cidade do Rock. O ingresso normal custa R$870 a inteira. A meia, R$435. Cliente Itaú, R$739,50. Mas a “Comfort Zone” custa R$1.950 inteira, R$975 meia e R$1.657,50 cliente Itaú. Ou seja, você paga quase dois paus para um cercadinho com vista melhor. Isso é “camarotização do gramado”. O festival não é mais um rito coletivo, é uma pirâmide. E isso afasta a base. Um baita filtro de classe num evento que historicamente se vendia como “de todo mundo”.
2) Line-up Sessão da Tarde. É cruel, mas é isso. Tem muitos nomes gigantescos, mas com cara de reprise. Capital Inicial chegou à nona participação. Nona! Foo Fighters, Maroon 5, nomes que a gente já sabe de cor. É aquele filme que você gosta, mas já passou vezes demais. E vamos combinar que pagar R$870 reais numa reprise…boring! O próprio Foo já tem volta prevista pro Brasil em 2027. A pergunta incômoda é: por que gastar R$870 nisso se provavelmente você verá esse show de novo?
3) O Rock in Rio virou um shopping center. São mais de 100 ativações de marca e previsão de um milhão de brindes. Montanha-russa de marca, karaokê de marca, pavilhão de marca. E no meio disso tudo, umas bandas tocando. Parece que a experiência foi desenhada mais para gerar conteúdo e consumo do que memória musical. Tá mais pra uma feira corporativa com som ao fundo. Aff!
4) Excesso de tudo, identidade de menos. Tem rock, pop, K-pop, eletrônico, nostalgia, geração TikTok. Isso é diverso, mas também é meio playlist de streaming. O Rock in Rio tenta ser tudo ao mesmo tempo. E aí talvez não seja mais indispensável pra ninguém. É uma máquina econômica monumental que parece ser especial, Uma virada perigosa porque uma curadoria maximizada e previsível provoca o desaparecimento daquela sensação de “preciso estar lá”. E a gente sabe que o confortável demais não faz história. Lembra da lama no Rock in Rio 85?!
5) A imagem que quebra a magia. O mar de gente sempre foi parte do mito Rock in Rio. Quando a câmera abre e mostra buracos no gramado, alguma coisa quebra no simbólico. Pro festival construído em cima de FOMO ( “MEDO DE FICAR DE FORA”), poucas imagens são tão perigosas como essa. Não é que “ninguém foi”, mas ver clareiras enormes no gramado quebra a mística do mar de gente que sempre vendeu o Rock in Rio.
6) Talvez tenha ficado grande demais para ser cool. Essa é a provocação final. O Rock in Rio é enorme, poderoso, movimenta bilhões. Mas se tornou tão máquina que acabou perdendo a aura de evento raro. E quando vira um produto e deixa de ser simplesmente um acontecimento, muda tudo, porque deixa pra trás a essência da exclusividade. O festival preferiu incorporar a engrenagem de entretenimento e, pra isso, foi obrigado a deixar de lado a mística de momento histórico e geracional.
Essa mudança radical fez do Rock in Rio 2026 um gigante que talvez não seja mais indispensável.

