No cruzamento das avenidas Goiás e Paranaíba, no Centro de Goiânia, existe um busto que não consegue contar sua própria história. Na placa, um enunciado de gratidão, está inscrito: “Benemérito Andrelino Rodrigues de Moraes, doador das terras para a construção da cidade de Goiânia”. Uma homenagem com intenção simbólica, mas sem qualquer difusão. Uma espécie de grito sem voz.

Busto de Andrelino Rodrigues de Moraes no Centro de Goiânia

O busto, discreto, é quase anônimo, no meio do fluxo da cidade que passa por cima, corre, buzina, cresce e não olha. Não há narrativa, nem memória, apenas mais uma paisagem insólita do Centro de Goiânia, que há tempos se esqueceu desse homem : Andrelino de Moraes. Um personagem que faz parte da narrativa do nascimento da capital de Goiás, mas que foi colocado à margem da história.

A fundação da Goiânia, símbolo de um novo tempo, preferiu manter ausente desse roteiro cristalizado o nome de Andrelino Rodrigues de Moraes, o homem que ofereceu o chão sobre o qual a cidade foi construída. Sua contribuição não ocupa espaço proporcional nas memórias oficiais.

Vista da Avenida Goiás, Tocantins e Araguaia. 1937.

Este é um exemplo de que certas escolhas de memória produzem silêncios, e no caso de Andrelino esses silêncios atravessam gerações. O mito da cidade moderna, planejada e harmônica foi construído sobre silêncios e dívidas morais, às vezes colossais.

Goiânia, 2026

“Dono de Goiânia”

Há personagens que constroem cidades com concreto, aço, tijolos e projetos. Outros, constroem com coragem e ideias. Quando se fala na fundação de Goiânia, os nomes que vêm logo à mente são os de Pedro Ludovico Teixeira, Attilio Corrêa Lima e Armando de Godoy. Porém, há um quarto personagem nessa história, praticamente ausente da memória oficial, mas sem ele talvez Goiânia não existisse onde está situada. Trata-se de Andrelino Rodrigues de Moraes.

Durante décadas, sua contribuição foi absorvida pela grandiosidade da capital que ajudou a erguer. Enquanto o concreto subia e ruas e avenidas se abriam, o nome desse pioneiro foi soterrado sob o mesmo solo que doou.

Até o início dos anos 1930, Vila Boa de Goiás ainda era a capital do Estado, mas a ideia de mudança não era nova. Durante o Império (1863) e no início da República ( 1890), presidentes da província mostraram como era inconveniente a permanência da capital em Vila Boa. Também já constava na Constituição Republicana um artigo que acenava para a mudança. Mas foi após a criação do serviço de Higiene em Goiás, em 1931, que a regulamentação da saúde pública forneceu ao médico-interventor federal Pedro Ludovico Teixeira as informações de que ele precisava para justificar a mudança da capital.

Vila Boa de Goiás, antiga capital do Estado de Goiás.

O regulamento sanitário descaracterizava Vila Boa de Goiás como sede do governo. No relatório 1930-1933, encaminhado por Pedro Ludovico a Getúlio Vargas, chefe do governo provisório, o interventor desqualifica a antiga capital sob argumentos referentes às péssimas condições sanitárias, ele ainda utiliza o mesmo discurso para justificar a mudança da sede do governo para outra localidade. Durante toda discussão até o nascimento de Goiânia, o interventor não mencionou a questão política como um dos motivos da alteração, mas anos depois, em 1942, no Batismo Cultural de Goiânia, quando a nova capital já era realidade, ele revelou que a razão política também influenciou poderosamente a mudança.

Os atos iniciais do projeto de transferência têm início em 1932, com a formação de uma comissão técnica que percorreu o Estado a fim de indicar a escolha do local onde seria erguida a nova capital. Quatro áreas foram estudadas: Campinas, Ubatan (Egerineu Teixeira, distrito de Orizona), Bonfim ( Silvânia) e Pires do Rio. Ao final, a comissão indicou Bonfim, mas o relatório foi alterado, a pedido do interventor, para que a Goiânia fosse erguida na região do município de Campinas. “Campininha das Flores”.

Praça Joaquim Lúcio, Campinas. 1932

 O problema era que ali quase tudo tinha dono, e um dos maiores proprietários era Andrelino Rodrigues de Moraes. Nascido em 1890,  ele era muito mais que um fazendeiro. Foi um líder político, prefeito de Campinas ( indicado pelo interventor) e conhecia bem o o valor das terras da Fazenda Botafogo, Criméia e Vaca Brava. Como prefeito ele poderia ter ficado neutro, travado ou dificultado os planos para a nova capital diante da resistência de outros fazendeiros que temiam perder terras férteis e valorizadas para a expectativa de Pedro Ludovico, que contava com a desapropriação de 300 alqueires de fazendas distintas no entorno de Campinas para a construção de Goiânia.

Alameda Botafogo, às margens do Córrego Botafogo. 1936

No entanto, o fazendeiro apoiou publicamente a mudança. Ele se engajou no processo mudancista, pois compreendeu que estava diante de algo que ia além do seu patrimônio pessoal. Em 27 de abril de 1933, Andrelino de Moraes e sua mulher Bárbara assinaram a escritura de doação de 50 alqueires para o Estado e dois alqueires para Igreja.

Na prática, essa escritura é a certidão de nascimento de Goiânia. Ao transferirem as terras da Fazenda Botafogo para o Estado, o casal estava doando o coração geográfico da futura capital. Não era uma compra, muito menos uma desapropriação forçada. Era a maior contribuição individual para o nascimento da cidade. Um gesto definitivo que mudaria a história de Goiás e também da própria família.

Vista aérea de Goiânia, 1937


O acordo parecia justo. Em troca, o Estado se comprometeu a reservar à família um alqueire nas proximidades do Palácio do Governo — que, até a sua inauguração em 1937, ainda não tinha ganhado a alcunha de Palácio das Esmeraldas ( termo sugerido pelo primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges), uma área que obviamente se valorizaria muito.

Palácio das Esmeraldas em construção na Praça Cívica, 1934.

Era uma espécie de reconhecimento pelo gesto, mas também uma garantia de patrimônio em uma cidade que nascia do zero. Afinal, ninguém sabia se aquele projeto ousado daria certo: uma cidade no meio do Cerrado, nos anos 1930, longe dos grandes centros. Mas Andrelino acreditou no futuro, ele só não imaginou que, poucos anos depois, Goiânia cresceria mais rápido do que qualquer previsão e o traçado urbano tornou impossível manter à disposição a área contínua ao redor da Praça Cívica.

Praça Cívica, 1939

Então, em 1938, um novo acordo foi feito por meio de uma solução aparentemente considerada definitiva. Uma nova escritura de composição amigável foi assinada. Nela, ficou estabelecido que, ao invés de um alqueire goiano ao lado do Palácio, a família de Andrelino de Moraes receberia 27 lotes espalhados pela cidade, que, na época, se resumia ao Centro e o Setor Sul ainda desabitado. Somados, os lotes deveriam totalizar 48.400 m². Um acordo moderno, urbano e aparentemente sensato. Supostamente, porque começava aí uma história que levou  92 anos para chegar ao fim.

A falsa promessa e um erro silencioso

O acordo de 1938 parecia encerrar definitivamente a questão, mas a diferença de metragem era tão grande que beira ao inacreditável. E isso,Andrelino só foi perceber anos depois. Durante algum tempo tudo parecia resolvido, a cidade se expandia, novos prédios surgiam e outros bairros nasciam. O fazendeiro seguia sua vida acreditando que o acordo havia sido cumprido. Mas em algum momento, ao conferir as medidas dos lotes recebidos, ele e a família ficaram em choque ao entenderem que foram enganados.

O que foi lavrado na escritura registrada Cartório de Imóveis de Campinas, os 27 terrenos deveriam somar a metragem de um alqueire goiano: 48400m², mas o que foi entregue mal chegava à 13650m², 28% do que foi acordado com o Estado.Uma diferença brutal, não um pequeno detalhe ou erro técnico.

Projeto original para o Setor Sul. 1937.

A partir daí, Andrelino não encontrou mais um governo disposto a negociar. Por isso, em 1952, não teve outra alternativa, senão entrar com uma ação na Justiça contra o Estado de Goiás a fim de reaver o que não lhe foi garantido, nem mais, nem menos.

Goiânia, Praça do Bandeirante, 1950

A ação foi julgada procedente pelo juiz Pedro de Faria. A Justiça determinou que o Estado de Goiás transferisse ao espólio de Andrelino, lotes situados em diferentes setores de Goiânia que correspondem aos citados na escritura original.

O Estado preferiu entrar com recurso. Em 1956, o Tribunal de Justiça manteve a decisão. A família decidiu iniciar a execução da sentença, mas algo misterioso e criminoso aconteceu: os autos do processo desapareceram do TJ-GO. O fato gerou abertura de inquérito, mas sem solução.

A família passou dez anos tentando localizar o processo, depois ainda teve que restaurar tudo à partir de cópias. Mas o tempo é implacável e a Justiça morosa, Andrelino morreu aos 70 anos, em 1961, sem ver qualquer desfecho.Os filhos do fazendeiro assumiram a luta, depois vieram os netos, depois os bisnetos, até chegarem os trinetos.

Difícil imaginar o peso do tempo nesse caso. Goiânia cresceu, modernizou e virou metrópole. Regimes políticos surgiram e desapareceram, vieram novas Constituições, mudanças econômicas, crescimento populacional….e o processo continuou ali, se arrastando entre instâncias superiores, até que em 2020, finalmente, veio o desfecho. Quase 90 anos depois do ato de doação das terras  de Andrelino e Bárbara ao Estado , a Justiça reconheceu o direito da família ao ressarcimento.

Andrelino de Moraes e sua família, década de 1940.

Justiça cega, surda e tardia

Este foi o segundo processo judicial mais longo da história do Brasil. Após a conclusão, que deu ganho de causa à família de Andrelino Rodrigues de Moraes, demorou algum tempo para que seus  herdeiros pudessem ser ressarcidos,porque o Estado ainda tentou reverter a sentença condenatória.

Mas por decisão unânime da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, foi negado provimento ao recurso especial apresentado. Após trânsito em julgado, em dezembro do mesmo ano, foi confirmada a publicação do acórdão expedido pelo Superior Tribunal de Justiça. Era o fim de um   pesadelo que durou décadas e atravessou gerações.

Os autos físicos do processo tinham mais de 3 mil páginas. Muitas pessoas envolvidas, desde membros da família a juízes, advogados, procuradores e testemunhas não puderam ver o desfecho do caso porque o tempo não permitiu.

Em 2020, a família de Andrelino de Moraes somava mais de cem descendentes. Todos já haviam recebido o espólio da herança do fazendeiro que deu origem a bairros de Goiânia como Vila Moraes, Bairro Feliz, Setor Água Branca, Criméia Leste, Jardim Novo Mundo e Palmito. A vitória na Justiça, garantiu aos trinetos do pioneiro de Goiânia o devido ressarcimento que foi devidamente quitado pelo Estado de Goiás.

Como uma cidade escolhe lembrar de quem lhe deu seu próprio chão?

Muitas vezes não escolhe, simplesmente esquece. Andrelino Rodrigues de Moraes teve seu nome dado às escolas, ruas e avenidas de Goiânia assim como o ginásio do Sesc, no Setor Universitário. Mas lembrar não é apenas nomear um logradouro ou homenagear com um busto. Para lembrar de verdade tem que se contar a história inteira, com os gestos de coragem e também as injustiças.

No caso de Andrelino, lembrar é um ato de maturidade histórica. É admitir que o progresso teve um custo humano imensurável e altamente simbólico. Porque uma cidade que honra seus fundadores não vive de nostalgia, mas se fortalece ao compreender que o futuro faz sentindo quando o passado é tratado com dignidade. A saga dessa família, que começou com Andrelino e Bárbara, deveria ser contada em voz alta para que ninguém tivesse que esperar outras seis gerações para ser ouvido.

É crucial que não se esqueça os que passaram, e deram tanto pela construção de Goiânia.