Cláudia Vieira, a cantora de jazz e de MPB que o mundo precisa descobrir
16 agosto 2026 às 10h00

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Cláudia Vieira é uma grande cantora mundial. Cláudia Vieira é uma grande cantora brasileira. Cláudia Vieira é uma grande cantora goiana. Sobretudo, Cláudia Vieira é uma grande e múltipla cantora.
Ecoando o poeta russo Púchkin, o escritor Liev Tolstói disse que quem planeja conhecer o universal deve começar por sua aldeia.
Cláudia Vieira, com 30 anos de carreira e novos projetos em mente — um deles em preparação —, orgulha-se de interpretar músicas de compositores goianos, como Bruna Mendes (jovem de imenso talento que o país está descobrindo). Ao cantar o “regional” — um regional que é filho da tradição universal —, a cantora dialoga com o mundo.
Pense em Billie Holiday. Pense em Ella Fitzgerald. Pense em Sarah Vaughan. Pois, assim como as três, Cláudia Vieira é cantora de jazz. Canta tão bem, com imensa e intensa fluência, que quem a ouve pode acabar pensando que está em Nova Orleans ou, quem sabe, em Nova York. (Por sinal, se fosse americana, teria feito sucesso mundial, tal o seu talento).
Chamada pelo Jornal Opção de “Billie Holiday do Cerrado”, há três décadas, Cláudia Vieira não se importa com rótulos. Só quer mesmo é ser conhecida como Cláudia Vieira, cantora que tem uma bela voz. Uma voz, digamos assim, mutante.
Sim, mutante. Porque, do jazz, Cláudia Vieira salta para uma música popular brasileira — ou bossa nova — e a canta com a precisão de sempre. Porque se trata de uma cantora multifacetada. Versátil, como se dizia nos inícios de sua carreira tão longeva quanto fecunda.
Nesta entrevista à Bolha, Cláudia Vieira conta que já contou até para bebês. Um garotinho de 2 anos a surpreendeu ao dizer que ela não havia cantado “Ciranda, cirandinha”.
Com você, leitor, Cláudia Vieira — a voz e a personalidade. Com exclusividade.

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A bossa nova é jazz, não é?
Sim, é jazz. E inova e revigora o jazz. Tanto que vários cantores de jazz, dos Estados Unidos, se encantaram com a música de Tom Jobim e João Gilberto.
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Você, artista multifacetada, canta bossa nova?
Ao escutar Johnny Alf (1929-2010), lembrei-me que há uma discussão sobre qem é o precursor da bossa novas. Livros de música e biografia dizem é Johnny Alf. Mas não teve o reconhecimento de outros músicos e cantores. Ele interpretou músicas de Dolores Duran de maneira extraordinária. E ele tocava piano muito bem. A gravação ao vivo mostra o caráter excepcional de seu trabalho. Ele cantou “Castigo” (https://tinyurl.com/5xvct3rj) e “Noite do meu bem” (https://tinyurl.com/3uzbwxrv). Mas, sim, canto bossa nova. Meu repertório é variado.

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Aprecia a música de Dolores Duran (1930-1959), uma cantora e compositora que viveu apenas 29 anos?
Estou trabalhando o repertório de Dolores Duran, grande cantora e compositora.

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Dolores Duran, por sinal, esteve em Goiânia.
Não sabia disso. Gosto de escutá-la. Ela é muito alegre, compõe com rara habilidade. Mas sua vida não foi tão alegre. Morreu jovem, mas viveu intensamente.
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Seu pai, um grande cantor, esteve com ela?
É provável. Porque meu pai conheceu e cantou com tanta gente.

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Há 30 anos, você estampou a capa do Opção Cultural, com o título de “A Billie Holiday do Cerrado”. Ao completar 30 anos de carreira, pode-se dizer que, de alguma maneira, a cantora americana “vive” em Cláudia Vieira. Por sinal, ouvi você cantando jazz de modo magnífico.
Vou ser sincera: acho pretensão de minha parte cantar jazz e blues. Ainda assim, gosto muito. Mas não me considero à altura das grandes cantoras de jazz.
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Quais são as brasileiras que considera como cantoras de jazz ou que tem voz para o jazz?
Uma voz fortemente jazzística? Vale mencionar Nana Caymmi e Leny Andrade. A segunda é muito forte.


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Como avalia a cantora Baby Consuelo? Estaria mais próxima do rock?
Baby Consuelo tem um timbre muito peculiar.
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É uma beleza Baby Consuelo cantando “Brasileirinho” com Elza Soares, não é?
Sim. Elza Soares tem uma voz poderosa. As duas cantoras têm um quê de jazz e blues. Dizem que o blues é mais um estado de espírito do que uma música em si. Me apeguei muito à trajetória das cantoras e compositores de jazz. Me tocam muito pela trajetória, pela resistência, pela questão racial, pelos enfrentamentos. Não era nada fácil, mas as mulheres insistiram e persistiram para se firmarem como cantoras nas décadas de 20, 30, 40 e 1950. Vale registrar que várias eram negras.


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Billie Holiday foi a principal cantora de jazz?
Há grandes cantoras de jazz, como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Mabel Mercer. Há também Etta James, que transitava entre o blues e o jazz. Mas a história de Billie Holiday é, de longe, a mais emblemática. Ela cantou e encantou o mundo, com uma voz que era um esplendor. Morreu no auge, com apenas 44 anos, em 1959. Não teve uma vida fácil. Mas, acima de tudo, é uma grande vencedora, e por isso é reverenciada até hoje, 67 anos depois de sua morte. Acredito que será eterna, como Homero.

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Você compõe ou só interpreta? Costumo dizer que, ao cantar, o artista vai “recompondo” a música…
Sou uma intérprete e não componho. Fiz uma única composição, com Front Júnior, um grande parceiro. Fiz por causa da insistência dele.
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Billie Holiday era uma artista plena que as drogas devastaram. Conta-se que aplicaram num cavalo a quantidade de entorpecentes que ela tomava num dia. O animal morreu. Mas ela tinha uma resistência incomum. Com o tempo, por causa das drogas e da bebida, sua voz foi ficando mais rouca. Ainda assim, cantava, e ainda muito bem, até tarde da noite. Não era uma vida fácil. Sua voz, de uma pessoa saudável, mudou nos últimos 30 anos? Você gosta de sua voz atual?
A volta altera, é incontornável. A idade chega e altera tudo — inclusive a voz. Na verdade, a voz é um milagre. Uma fonoterapeuta me disse: “A voz é algo inexplicável. Porque você pensa no cérebro, o ar passa, um músculo vibra e se transforma em uma palavra”. Eu cuido da minha voz, o que é cansativo (risos).

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Como cuida de sua voz?
Adoro comer, mas, como tenho refluxo, tenho de fazer dieta. Quando tenho show, é um sofrimento. Porque não posso comer nada que prejudique a voz.
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Você se priva de muitas coisas?
A dieta é longa. Quando tenho muitos shows é assim: nada temperado, nada de farinha branca. Carne quase nada. São tantas restrições que é melhor falar o que se pode comer. Então, a alimentação interfere muito. Os exercícios vocais ajudam demais. Faço aula de canto até hoje e nunca canto sem fazer aquecimento vocal. Estou na fase de aprender o desaquecimento vocal. Por que estou nessa fase? Porque, normalmente, cantar é a mesma coisa que qualquer exercício físico. Faço academia, porque isso ajuda. É obrigatório fazer exercício aeróbico, senão você não dá conta de respirar e fazer todo o exercício que a gente tem que fazer para poder emitir o som.
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Faz uma fisioterapia pulmonar?
Sim. Porque a arte de cantar não é fácil. Precisa-se de preparo. Bibi Ferreira fez um show, com uma orquestra, e disse: “Gente, agora nós vamos cantar?” Cantou uma música bem fácil. “Agora segura o diafragma, projeta aqui na frente, solta a respiração e põe aqui no pulmão, alarga a costela.” Os espectadores começaram a rir, mas é o que quem canta tem de fazer: “Comprime a barriga, pensa no diafragma, abre as costelas, manda o seu ar, agora sua voz tem que chegar aqui, agora é outra altura”. Então, as alturas você vai regulando, é um instrumento que você carrega.
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Então, existe uma técnica?
Existe uma técnica. A técnica é suuuper bem-vinda. Porque é o que te ajuda a preservar a voz. Fora o lado emocional, porque o emocional chega e derruba. Esse é um fator fundamental também que você tem que aprender a lidar para não enlouquecer.
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Seu pai é cantor. Então, a música está impregnada, por assim dizer, no seu DNA. Mas quando descobriu que era cantora, que tinha vocação?
Costumo dizer assim: gosto de cantar. A gente está sempre aprendendo. Sou uma cantora que está sempre estudando para melhorar, fazer bem-feito. A arte — como o canto — é o que nos define como ser humano.
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O Jornal Opção não te chamaria de “Billie Holiday do Cerrado” se você não fosse uma grande cantora.
(Cláudia gargalha). Ser intérprete é o que tenho a ver com Billie Holiday. Fui formada pela interpretação, vendo meu pai cantar — ele é um grande intérprete (leia sobre ele no link: https://tinyurl.com/7jwwsmwv ). As cantoras que sempre me influenciaram foram as intérpretes. Cresci escutando Maysa, Elis Regina, Maria Bethânia. Aprecio as cantoras do rádio. E, claro, Dolores Duran.



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Além de Dolores Duran, qual outra cantora toca sua alma, digamos assim?
Ângela Maria (1929-2018). Eu estou ensaiando um outro show também, em que eu canto uma música que ela gravou.
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Ângela Maria cantou a música “Babalú”. Cláudia Vieria a seguirá?
(Risos) “Babalú? Oh, não! Aquilo ali é aula. Ângela Maria era uma grande diva. Era fora do comum. Me vejo mais como uma trabalhadora da interpretação. O que mais gosto de fazer é interpretar. Aprecio curtir a música, me dedicar a ela, às palavras, aos significados. Esses dias alguém estava falando de uma música, então eu disse: “Gente, eu nunca pensei nessa música desse jeito”. O grande barato da música é que cada um tenha sua história com ela. Procuro viver as histórias, minhas também, por meio da música. A minha escolha de repertório é sempre sobre algo que vai me tocar. Não tem essa coisa de “tá na moda”.

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A música contempla tudo: jazz, blues, house, jazz eletrônico etc. Hermeto Paschoal era um artista completo?
Em si, o Hermeto Paschoal era um estilo. Um caso único. Um músico múltiplo. Uma orquestra de um único homem.
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Há um estilo Hermeto Paschoal, mas inimitável, não é?
De fato, o músico criou um estilo. Assim como outros grandes músicos do Brasil, de Goiás. O país precisa conhecer um pouco mais seus músicos notáveis. Há músicos brasileiros que fazem coisas que não se faz em outros países. Às vezes são mais reconhecidos no exterior. As harmonias de Toninho Horta impressionam aqui e alhures. Quando pego uma harmonia do Toninho Horta, que ele pega para tocar uma música, todo mundo fala: “Uau, lá vem alguma coisa personalíssima”. Hermeto Paschoal é outro músico brilhante. Sou muito apaixonada por Moacir Santos. É fenomenal. Não tem nada que você escute dele que não tenha sua marca. É uma coisa que ninguém fez antes. Sei definir uma música de jazz ou de blues. Mas o jazz foi e continua sendo modificado. Há outros estilos. Então, o Hermeto é um estilo dentro do jazz.


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A casa Blue Note, dos Estados Unidos, abriu em São Paulo e vai abrirem Goiânia. Sinal de que o mercado está em expansão.
Confesso que não sabia.
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Você tem um público cativo, mas tem notado que ele está se diversificando? Observo que há um grande interesse pelo jazz em Goiânia.
Há um público que caminhou comigo e há um público novo. Uma característica minha é que transito muito e por isso dialogo também com compositores da nova geração. Gosto de conversar, de estar junto. Não frequento só um lugar. Vou ao Bananada, por exemplo. É preciso manter a curiosidade. Gravei álbuns-solo com compositores daqui, dando às músicas uma caraterização de MPB e jazz. Gosto de uma coisa mais intimista. Então, sim, o público se renova. O público me vê cantando em vários lugares. Estive há pouco com o Mundhumano, Kleuber Garcês, na Rua 8, no Centro de Goiânia. Cantei num festival de jazz em Brasília, o Superjazz Festival. Há algum tempo cantei música de Brunê, uma compositora nova de Goiás mas radicada em Belo Horizonte. Gravei música de Bruna Mendes, uma compositora sensacional. Há também a Salma e o Mac.
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Onde fica a cantora Cláudia Vieira no meio do balaio que é a música brasileira?
Estou exatamente no balaio (gargalhada). O que acho bom é estar no balaio mesmo, estar na onda, estar no fluxo. Não gosto de me fechar. Eu tenho projetos e gosto de fazer projetos diferentes. Um deles é o Divas do jazz.

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Você canta jazz para adolescentes e crianças. É um de seus projetos mais interessantes, não é?
A experiência é fantástica. Temos duas propostas com o projeto 30 Anos de Carreira. Um é cantar nas escolas públicas estaduais e municipais. Outro é fazer shows em teatros. Os repertórios são diferentes. Levo coisas que o público vai reconhecer e coisas que não vai reconhecer. A produtora do projeto, Adriana Parreira, propôs uma coisa legal: um livreto que contém as letras de algumas canções que vou cantar. As escolas trabalharam antes com os alunos, para terem afinidade com o repertório, o que aumenta o reconhecimento das músicas.

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Trata-se de uma audição?
Sim. Levei músicas da MPB e de compositores goianos. É preciso valorizar o que é bom, mas não se conhece. Aliás, não se valoriza porque não conhece. Ao conhecer, as pessoas acabam apreciando e comentando, o que gera reconhecimento. Foi montada uma banda inteira, o que é um privilégio para mim. O projeto teve o incentivo da Lei Goyazes. As leis de cultura incentivam o artista e beneficia o público. Herbert, o artista ajuda a formar público para si e para outros cantores.
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Cantando para criança, o que mais lhe agradou? Alguma menina ou menino chamou sua atenção?
Numa escola pequena, fomos recebidos pelas crianças com uma alegria contagiante. Os garotos pesquisaram minha vida e me entrevistaram. Fizeram um trabalho de jornalista. Eu cheguei a dizer: “Nooossa!” A escola “comprou” o projeto e, de algum modo, o ampliou. As crianças fizeram cartazes e disseram quais músicas gostaram. Foi especial. As escolas costumam nos receber muito bem.
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É diferente cantar para crianças e adultos?
É diferente. Cantar para adolescente é mais diferente ainda. O adolescente hoje está exposto a um estilo único de música, por isso o desafio é maior. A criança, mais liberta, é aberta à criação artística.
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Você cantou até num Cmei?
Cantei num Cmei para bebês, como o apoio do Front. Cantei música do tipo “era uma casa muito engraçada”. Os menininhos de fralda adoraram o show. Um menininho, de fralda, abraçou minhas pernas e disse: “Tia, eu gostei demais do seu show, mas faltou ‘Ciranda, cirandinha’” (gargalhada). Eu não esqueço disso. Falei: “Gente, com 2 anos ele já está sabendo o que quer escutar”. Gostei muito.
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Você cantou “Ciranda, cirandinha”?
(Risos) Eu não cantei. Porque a gente estava indo embora. Mas cantei com o menino, segurando na sua mão. Só que, no show, não cantei.
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Quem é a Cláudia de 30 anos atrás e a Cláudia de hoje… como cantora e pessoa? Mudou muito ou pouco?
Tudo muda, o que é ótimo. Meu marido, o percussionista Sergio Pato, é meu produtor, o que me acalma muito. Porque viro uma pilha quando tenho de fazer um show novo. Nossa Senhora! “Calma, Cláudia, vai dar tudo certo” — ele diz.

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Você fica ansiosa?
Nossa! Sonho que estou esquecendo a letra. Aí acordo e vou “passar” a letra. Sonho que esqueci o figurino. Aí passo o figurino. Tenho uma fábrica de cosméticos e, às vezes, pego um papelzinho e começo a anotar: lentes de contato, escova de dentes. Anoto tudo que tenho de levar para o show. Senão ficou doidinha. Quando saio para fazer um show parece que vou mudar e não vou voltar. Levo muita coisa.
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Ainda bem que você não esquece o microfone….
(Risos) Não esqueço mesmo. E não fico sem meu bodypack. Porque é uma coisa nova, comprei há um ano. É o meu salva-vidas. É o meu retorno no earphone mesmo, no ouvido. Ajuda demais, poupa a voz. Me preocupo muito em poupar a voz. É um instrumento e não pode arrebentar a “corda”. Por isso é preciso dormir muito e bem. Mas sou péssima para dormir, tenho insônia.
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Toma medicamento para dormir?
Não tomo remédios. Cheguei a tomar, porém vi que, no lugar de ajudar, me prejudicava. Toda professora de canto sugere que dormir com qualidade é importante para quem canta. Faço, isto sim, um tratamento alternativo.
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O que você toma?
Tomo canabidiol. Faço tratamento com um especialista. Não se trata de dormir cedo, mas de estar em casa cedo. Sou igual a um menino; para dormir, preciso me acalmar antes. Sou muito ansiosa. Mas tenho melhorado com a chegada da velhice [nota da redação: velhice não combina com Cláudia Vieira — que tem uma imensa energia vocal e física]. Na vida é assim: é melhor ir tocando o que não se pode resolver. Sérgio Pato, pragmático, costuma dizer: “É possível resolver”. Então, confio nele, que acaba resolvendo o problema.
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Mas insistindo: quem é Cláudia Vieira?
Me perguntaram recentemente: “Quem é Cláudia Vieira?” Respondi rápido: “Cláudia Vieira é cantora. Porque o ‘resto’ é Sérgio Pato”. Ele cuida da agenda, envia meus releases. Cuida do site. É uma bênção. Me deu um chão.
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Você trabalha com produtor?
Sempre trabalhei com produtor. Júlio Vilela foi meu produtor e diretor. Ele me ensinou demais. Foi fundamental na minha formação — assim como Ricardo Grilo, Shell Júnior, Greyson, Fernando, Henrique Rodovalho.
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Ricardo Grilo continua atuante?
Sim, é atuante. Converso com ele sobre música. Fiz um show no Sesc, há dois anos, e fiz um vídeo. Ricardo disse: “Não estou acreditando nesse vídeo. Vou refazer”. Refaz o vídeo todinho. “Agora você divulga”, autorizou. Fernando mora na Europa. Mas, quando vem a Goiânia, a gente conversa. As pessoas citadas me ajudaram bastante.
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Há artistas que se aposentam e vivem da fama. Você pretende cantar até ficar velhinha? Ou tem outras perspectivas para os próximos 30 anos? (Lembrando que Maria Bethânia continua cantando muito bem com 80 anos.)
Ah, não penso, não. Eu deixo a vida me levar. Estou deixando assim. Esses dias falei: “Front, estou velha, vou ter que me despedir do palco”. Ele respondeu: “Ih, você ainda tem muita lenha pra queimar, e o estilo que você canta não morre”. Foi bom escutar isso dele. Não me preocupo com glamour, em parecer jovenzinha. Assumo a idade que tenho. Mas meu espírito é jovial.
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Nunca gostou de glamour, não é?
Nunca gostei. Faço um trabalho sério, que deixe dedicação e investimento emocional e econômico. Abdica-se da família, que sempre me apoiou. Isto me toca muito. Minhas irmãs, que são minhas sócias, dizem: “Vá ensaiar, vá lá e faça”. Minha filha, a Maria Rita, hoje me ajuda, me acompanha. Sobre o figurino, ela pondera: “Esta roupa está batida, tem de arrumar outra”. Acho máximo. Ele exige: “Põe colar”. Quando tenho de viajar, ela entende, de cara, quando digo que terá ficar como o vovô, com a vovó. Graças a Deus, tenho o apoio da família, de meus irmãos.
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Vai subir ao palco de bengala?
Quero cantar até quando der. Cuido da voz para durar o máximo que puder. A professora Evelyn Freitas, fantástica, me ajuda demais.

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Como é a ajuda?
Tenho um protocolo de cuidados. Antes, com receio de perder a voz, eu falava: “Não vai durar muito”. Às vezes, eu saía do palco sem voz. O excesso do uso vocal é danoso. Tive um processo de perda de voz. Ao terminar um show, em Brasília, eu já não falava. Estava afônica. Nem sei como fiz o show. Talvez pura adrenalina.
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O que estava acontecendo?
Descobri que tinha refluxo e precisava fazer exercícios vocais. Duda Cruvinel, amiga que também foi minha produtora, descobriu a professora Evelyn, no Rio de Janeiro, e me disse: “Você pode fazer aulas online”.
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O problema foi resolvido?
Evelyn me ajuda há quatro anos. Me ampara em todos os aspectos vocais, desde a respiração aos exercícios. Ela indica o que deve melhorar, o que é preciso preservar, o que se pode comer. Ela é danadinha.
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A professora Evelyn é rigorosa?
Um dia falei para Evelyn: “Minha voz não está melhorando”. Ela falou: “Mas também nunca ouvi você falar ‘eu fui à academia’. Sem academia não tem milagre”. Aí eu passei a ir e nunca mais toquei no assunto. A professora olha a gente como um todo. Hoje falo para a mestre: “Evelyn, acho que eu vou conseguir chegar até os 80”. Ela fala: “Ah não, vai mais, porque o povo gosta dessas coisas sofridas que você gosta”. Ah, é uma música para dançar, é uma música para divertir”. É uma música mais intimista. É isso que me ajuda.
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E pode partir, por exemplo, para pocket show.
Isso. Às vezes, quem quer me contratar não tem orçamento para pagar cachê de um show. Por isso tenho formatos diferentes. Por vezes, é uma banda completa, um trio ou um duo. Às vezes é voz e violão — eu e o Front. Há projetos diferentes. Tenho “Cor Multiplicada”, canto músicas de Caetano Veloso. Tem “Divas do Jazz”. Tem agora “Seus gestos”, que estou montando. Tem “Os 30 anos”. Há um projeto com Maria Eugênia. A gente viaja pelo interior.

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É tudo ideia sua?
Não exclusivamente. Já “Seus gestos” é.
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“Seus gestos” está nascendo, não é?
Sim, mas, na verdade, é uma retomada. Logo no início desses meus 30 anos, para trás, eu já estava pensando nisso. Meu pai garante que com 3 anos eu já cantava “Upa Neguinho”.
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Sei cantar “Upa, Neguinho” inteiro. Vamos cantar juntos um dia?
Vamos. Eu tenho de lembrar.
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Então, você vai cantar até o final da vida?
Talvez sim. Porque tenho disposição. Mas, Herbert, montar um show não é fácil.
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Qual é o seu grande desafio? O que que está faltando na sua carreira, que ainda não aconteceu e que você vai fazer acontecer?
Sair do Brasil. Nunca cantei fora. Tenho vontade de cantar em outros países. Adoraria cantar na Europa. Seria uma experiência enriquecedora. Em todo lugar, tenho retorno do meu trabalho. Então, gostaria de me testar no exterior.
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Você tem que cantar em Chicago.
Não custa sonhar. Sei que me ouvem no exterior. Entretanto, para fazer algum sucesso, é preciso mostrar o trabalho in loco. Mas montar um show, ainda mais fora do país, custa caro. Não é nada fácil. Ademais, é preciso criar uma rede de relacionamentos.
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Você tem três décadas para produzir uma carreira global?
(Gargalhando) Pois é. Ainda vou produzir isto. Ainda vou jogar (cantar) lá fora. (Cláudia Vieira não duvida de seu talento, imenso. Mas é como diz: construir uma rede de relacionamentos, para que seu trabalho seja exibido no exterior, não é nada fácil.)

Ao final da entrevista, Bolha visitou a bela casa de Cláudia Vieira e aproveitou para registrar a cantora nos cantos preferidos dela.
Bolha preparou um vídeo especial com trechos da entrevista exclusiva de Cláudia Vieira, veja abaixo em Galeria da Bolha




