No meio da Praça Cívica havia um obelisco que estava ali desde a inauguração do Palácio das Esmeraldas, em 1937. Ele era o ponto central do projeto original da praça, criado por Atílio Corrêa Lima, arquiteto e urbanista que idealizou Goiânia.

O obelisco tinha o mesmo porte do relógio, em estilo Art Déco, que fica do outro lado do logradouro, no início da Avenida Goiás. Seguindo as diretrizes do estilo modernista, de linhas retas e arrojadas, os dois eram alinhados entre si. O monumento era verde, acompanhando a cor predominante dos prédios originais da Praça Cívica, e em suas quatro faces havia lâmpadas. Singelo, discreto, mas era o marco da fundação da capital de Goiás. Sob ele estava a pedra fundamental de Goiânia.

Praça Cívica, 1940. Uma multidão aguarda, ao redor do obelisco, para ver de perto o presidente do Brasil, Getúlio Vargas, em sua vista a Goiânia | Foto: Divulgação

Pequeno? Singelo? Humilde? — estranharam os homens públicos da época, que decidiram erguer no lugar do obelisco algo maior — bem maior. Um monumento que, à altura do que julgavam merecer os governantes (e não os cidadãos goianos), desse a Goiânia, em 1964, um símbolo capaz de colocá-la, ao menos nesse aspecto, em pé de igualdade com outras capitais e seus monumentos deslumbrantes.

Escultora Neusa Morais e a maquete do Monumento aos Pioneiros ainda sem as cabeças, 1964| Foto: Divulgação

Adeus, obelisco; viva o Monumento aos Pioneiros: um indígena, um branco e um negro cravando no chão uma espécie de coluna de granito. Até então, tudo corria como previsto pelos governantes. Eles já sabiam que o goianiense não reclamaria, acostumado que sempre esteve a se calar diante das arbitrariedades.

Monumento aos Pioneiros instalado na Praça Cívica em 1964 | Foto: Divulgação

Mas houve um detalhe inesperado. A escultora Neusa Moraes, goiana da antiga Cidade de Goiás e autora da obra, fundiu no bronze as figuras dos três homens com os órgãos genitais à mostra. Foi um escândalo. Pais e mães telefonavam para rádios, jornais e canais de TV para dizer que não permitiriam que seus filhos passeassem pela Praça Cívica — que, nos anos 1960, era o principal ponto de encontro da cidade — diante de tamanha “imoralidade”.

Durante dias, não se falou de outra coisa em Goiânia. A população se enfureceu. Os governantes não sabiam como reagir. A escultora chegou a ser agredida na rua. Diante da pressão, ela própria tomou a iniciativa: mandou recolher a obra e remodelou as peças em bronze, acrescentando tangas e calções aos pioneiros antes considerados despudorados.

Hoje, os pioneiros, “devidamente vestidos” continuam ocupando lugar de destaque no “umbigo” de Goiânia

Ainda restam dois obeliscos na Praça Cívica — idênticos entre si, mas menores do que o que desapareceu da memória e da história da cidade. Com a proximidade do centenário de Goiânia, os governantes poderiam aproveitar o momento em que se busca recuperar e restaurar a região central e histórica para, em um gesto simbólico, reconstruir o obelisco e devolvê-lo ao lugar que sempre lhe pertenceu: o “umbigo” de Goiânia, no centro da Praça Cívica.

Obelisco original situado no lado direito da Praça Cívica. Resgate histórico