Autor de A Escrava Isaura foi juiz e delegado em Catalão
06 agosto 2026 às 11h44

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Há 150 anos, o escritor Bernardo Guimarães (1825-1884) publicava seu romance imortal “A Escrava Isaura”, de 1875. O Brasil vivia em plena campanha abolicionista, e treze anos depois, em 1888, foi assinada a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão no Brasil.

Quando lançou “A Escrava Isaura”, Bernardo Guimarães já era um escritor consagrado no Brasil Imperial. Tão famoso que, durante uma visita a Minas Gerais, em 1881, o imperador Dom Pedro 2º fez questão de conhecer o autor do livro que, cem anos depois, foi adaptado para a televisão e virou um fenômeno mundial como a novela mais assistida no mundo (virou febre em Portugal e Cuba, por exemplo).
Mas o que pouca gente sabe é que a inspiração para escrever esse clássico da literatura brasileira foi buscada nas lembranças e experiências que Bernardo Guimarães guardou na memória durante o período em que viveu em Goiás.
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu em Ouro Preto em 1825. Aos 21 anos, em 1847, mudou-se para São Paulo, onde estudou Direito no tradicional Largo São Francisco.
Foi na faculdade que o patrono da cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras (ABL) conheceu futuros escritores, como o romancista José de Alencar, autor de “O Guarani” (1857) e “Iracema” (1865), e o poeta Álvares de Azevedo, de “Lira dos Vinte Anos” (1853) e “Noite na Taverna” (1855).
O escritor era um excelente contador de causos que fez sucesso em praticamente todas as mídias desde o final do século XIX, como no circo, teatro, cordel, assim como no século XX, no cinema, radionovela, telenovela e até histórias em quadrinhos.
Como escritor, publicou 17 livros entre romances e poemas (inclusive alguns eróticos) como “O Seminarista”. Mas foi a saga da escravizada branca que luta pela liberdade enquanto era aprisionada numa fazenda em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, o mais famoso dos romances de Bernardo Guimarães.
AS MÉMÓRIAS DE CATALÃO
O autor de “A Escrava Isaura” mudou-se para Catalão em 1852, aos 27 anos, logo após sua formatura em Direito, a convite do senador goiano Antônio Paranhos para atuar como juiz municipal.
Em 1854, após dois anos em Goiás, o escritor e magistrado regressou ao Rio de Janeiro. Catalão nessa época ainda era uma vila obscura e só foi elevada à categoria de cidade em 1859. Então, o escritor viu a oportunidade de voltar para Catalão; dessa vez, como juiz e delegado municipal, empossado nos cargos em 10 de maio de 1861.

Magistrado generoso e humano, logo de início Bernardo comoveu-se com o estado deplorável em que viviam dezenas de presos, em condições precárias, na carceragem da delegacia de Catalão
Revoltado diante do tratamento desumano que era dado aos presidiários, o magistrado-delegado não hesitou em convocar um “júri sumário”, libertando a seguir todos os presos. A decisão o levou a conflitos com seus superiores e, mais tarde, serviu de pretexto para que fosse processado por adversários que ainda aproveitaram momento para denunciar seu lado boêmio e o convívio social sem preconceitos, sendo incurso em vários artigos do código criminal e outras leis do tempo do Império.
Bernardo Guimarães preferiu, ele mesmo, fazer sua defesa na corte. Nos autos, o poeta e prosador revelou seu temperamento romântico e sentimental, um caráter profundamente humano, mas, sem vacilar, destruiu com firmeza todas as acusações que lhe foram apontadas e ainda arrasou seu principal acusador, o então juiz de Direito local, dr. Virgínio Henrique da Costa, politiqueiro e vingativo. Costa tinha o apoio do presidente da província de Goiás, dr. José Martins Pereira de Alencastro e do presidente da província de Goiás, dr. José Martins Pereira de Alencastro.
Bernardo Guimarães concluiu sua defesa num tom bem mais literário do que jurídico.
“O denunciante, não contente de esmerilhar a vida pública de um juiz e lançar mãos de quanta futilidade encontrou para vexá-lo com acusações infundadas e irrisórias, ainda vai com mão profana sondar sua vida particular, esquadrinhar qualquer pequena fraqueza, inclinar o ouvido talvez aos vis mexericos da maledicência e lançar mão da difamação perante os tribunais para ver se assim consegue de todo esmagá-lo! Mísero expediente e só digno de almas ignóbeis”, criticou.
Em suas considerações finais, ele concluiu assim sua defesa: “O respondente não se inculcará, por certo, como modelo de sobriedade e de regularidade de conduta: solteiro e ainda não tendo chegado ao inverno da vida, ainda não se resignou a viver como cenobita, nem renunciou aos prazeres do mundo, folga de se envolver na alegria dos festins, ama os prazeres da música e o vinho, a dança e as mulheres; a música e toda a espécie de regozijos soem suavizar as amarguras desta vida ingrata e árida. Mas ninguém provará que prorrompesse em excessos escandalosos, nem que corresse após os prazeres e festins em menoscabo do desempenho consciencioso de seus deveres. Se o respondente é inclinado aos prazeres é porque, é homem, e acha-se sujeito a uma das condições da humanidade, que sofre bem poucas exceções; o próprio denunciante senão algum anacoreta, o que não é de crer, não estará sujeito a essas pequenas fraquezas da humanidade?”
O romancista e poeta foi absolvido, no dia 23 de junho de 1862, pelo juiz substituto Manoel Pereira Cerqueira.
Por causa desse processo, o nome de Catalão foi levado aos quatro cantos do país, pois Bernardo Guimarães, durante o julgamento, enviava para o jornal “Atualidade” (órgão de grande circulação no Rio de Janeiro e redigido por seu amigo Flávio Farnese) seus escritos contundentes, denunciando as inúmeras arbitrariedades praticadas por seus adversários.
Os artigos, por seu valor literário e interesse político, foram transcritos em outros jornais e chegaram mesmo a sensibilizar o imperador Dom Pedro II. Resultado. O governador da província foi destituído do cargo e o juiz que o acusou foi impedido de chegar ao almejado cargo de desembargador que tanto ambicionava.
O AMOR POR GOIÁS E PELO POVO GOIANO

Poucos escritores conseguiram exprimir com tanta doçura a melancolia de uma noite de luar na solidão dos campos. O autor de “A Escrava Isaura” deixou uma obra que assinala um marco na evolução do romance brasileiro.
Foi por meio da ficção que Bernardo Guimarães descreveu com grande ternura as paisagens do sul de Goiás — as campinas, os rios, as matas em comunhão com a natureza.
Bernardo Guimarães comoveu-se também diante da alma humana dos goianos que encontrou ao longo do caminho que traçou em Catalão e arredores. Colocou nas suas inesquecíveis páginas, de linguagem simples, as qualidades do homem do interior: os fazendeiros, os mineradores, os trabalhadores da terra que tanto admirou.
O autor de “O Garimpeiro” foi precursor do naturalismo, cultivou a tradição da província, explorou com sabedoria o rico folclore brasileiro e nos presenteou com o romance rural — sempre atento à história do país. As lendas e tradições do esquecido rincão sertanejo foram as principais fontes de inspiração para seus vários livros e Goiás está presente em quase todos eles.
AS SERESTAS DE CATALÃO
Artigos publicados por Ricardo Paranhos contam que Bernardo Guimarães era um bom músico e excelente poeta. Seu instrumento preferido era o violão. Chegava às vezes em suas repetidas serestas a executar belíssimos números musicais, compostos de improviso, números que não conseguia recompor posteriormente, por não guardar na memória a letra e o ritmo.
Boêmio incorrigível, estava sempre acompanhado por amigos, pessoas de destaque nos meios culturais da cidade, entre os quais o padre Luiz Antônio da Costa, o senador Antônio da Silva Paranhos e o poeta Roque Alves de Azevedo (Roquinho). Roquinho e Bernardo Guimarães foram os introdutores das românticas serenatas em Catalão.
Paranhos conta que “Catalão ouviu as suas primeiras serestas executadas por Bernardo e Roquinho, os quais adentravam a madrugada versejando ilusões desfeitas, amores impossíveis, romances destruídos. Quanto coração chorou a saudade do passado, na música rimada, nos acordes sonoros das serestas e no estro poético de Bernardo e Roquinho?!”.
RETORNO A OURO PRETO
Mais moderado, já em 1867, aos 42 anos, Bernardo Guimarães casa-se com Tereza Guimarães, que o incentivou na sua volumosa produção literária. Aos 58 anos, em 10 de março de 1884, o escritor faleceu na mesma casa onde nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais.


