Saiba que a linha do Tratado de Tordesilhas passa por vários municípios de Goiás
06 agosto 2026 às 17h27

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A linha imaginária do Tratado de Tordesilhas (1494-1750) cruzava o atual estado de Goiás. Ela dividia o Brasil colonial entre Portugal e Espanha. A demarcação passa pelo vilarejo de Olhos D’Água, distrito do município de Cocalzinho de Goiás, marcando o limite histórico das terras lusitanas.
Foi graças às obras “História da Terra e do Homem no Planalto Central” e “A Linha de Tordesilhas Passa Aqui” do historiador goiano Paulo Bertran (1948-2005), um dos maiores estudiosos da pré-História e da história de Goiás e do Distrito Federal, que os moradores de Olhos D’Água, município há 120 km de Goiânia, descobriram que a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas passa bem no meio da Praça de Santo Antônio e divide a cidade em dois lados: o português e o espanhol.
Nos livros de Paulo Bertran constam mais detalhes sobre a linha que praticamente se debruça sobre o que são hoje os Estados de Goiás e Tocantins e o Distrito Federal. O historiador passa até as coordenadas da Linha de Tordesilhas que coincidem com a localização do Meridiano 48°35’25’’ cortando Olhos D’Água ao meio. Da praça, a linha ainda encontra em seu caminho a Serra dos Pirineus, — que no século XVI era considerado o ponto mais alto do traçado — 1385 metros acima do mar.

Por esse meridiano, Portugal ficou com a área que corresponde a todo o Distrito Federal e boa parte do Planalto Central do Brasil. Em linha reta, ele estende-se desde o Congresso Nacional, no Eixo Monumental de Brasília, até a fronteira espanhola, totalizando 72 km e 800 metros de comprimento a oeste, de acordo com os mapas do Serviço Cartográfico do Exército Brasileiro. A linha original de Tordesilhas continua avançando pela ponte sobre o Rio Corumbá, na GO-060, rodovia estadual que liga a capital federal à capital de Goiás.


Quando o Tratado foi oficializado, em 4 de junho de 1494, a França tornou-se a maior crítica do acordo que dividiu o mundo ao meio entre Portugal e Espanha e que ainda foi ratificado por meio de bula papal, tamanha sua importância. A linha ainda cruza Alexânia, em Goiás, nas imediações da ponte já citada sobre o Rio Corumbá e então segue, cortando o município de Abadiânia pelo lado leste, e depois, como um curso de rio, passa por outras cidades como Silvânia, São Miguel do Passa Quatro, Cristianópolis, Pires do Rio, Santa Cruz de Goiás, Caldas Novas e Corumbaíba.

Duas potências e o planeta dividido ao meio
Assinado em 4 de junho de 1494, o Tratado de Tordesilhas recebeu esse nome porque o acordo entre Portugal e Espanha foi firmado na cidade espanhola de Tordesilhas. Seu objetivo específico era resolver os conflitos territoriais que surgiram entre as duas coroas a partir do descobrimento do novo mundo no final do século XVI.

O Tratado veio na sequência da contestação portuguesa às pretensões da Coroa espanhola resultantes das viagens de Cristóvão Colombo que, em apenas, um ano e meio, conseguiu conquistar quase toda a América Central e o Caribe.

Promessa Divina

Olhos D’Água surgiu de uma promessa religiosa feita por uma moradora da região, Maria Alves de Magalhães, que construiu uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua, em 1941, nas terras que doou à igreja para pagar a graça alcançada. Em torno da capelinha surgiu o povoado de Santo Antônio dos Olhos D’Água — que rapidamente tornou-se “pouso obrigatório” de tropeiros que passavam pela região.
Foi também a partir dessa cidadezinha que surgiu a estrada que levaria à construção de Brasília, através do Sítio Castanho. A propriedade faz parte do quadrilátero que deu forma ao Distrito Federal, uma área demarcada pela Missão Cruls, no final do século XIX, para a construção da capital federal.
ATENÇÃO TURISTAS, A LINHA DE TORDESILHAS PASSA POR AQUI
Em letras garrafais vermelhas, sobre um fundo branco, o anúncio ocupa parte da fachada do Bar do Meio há algumas décadas. O nome é uma homenagem ao Tratado de Tordesilhas. A linha imaginária que já separou duas partes do mundo passa justamente sobre o balcão do bar.
Com o tempo, o botequim virou parada obrigatória dos turistas que visitam Olhos D’Água. Para que ninguém tenha dúvidas sobre a linha que já atravessou Goiás e passou por ali, o proprietário do bar possui exemplares dos livros de Paulo Bertran para mostrar, com orgulho, que ele também faz parte dessa história.

Por anos, Olhos D’Água ficou conhecida pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Com o passar do tempo, ganhou fama internacional quando seu rico artesanato, produzido pelos moradores da cidade, espalhou-se mundo afora — confirmando, mais uma vez, que, desde o Tratado de Tordesilhas, já estava predestinada à fama internacional.

