A linha imaginária do Tratado de Tordesilhas (1494-1750) cruzava o atual estado de Goiás. Ela dividia o Brasil colonial entre Portugal e Espanha. A demarcação passa pelo vilarejo de Olhos D’Água, distrito do município de Cocalzinho de Goiás, marcando o limite histórico das terras lusitanas.

Foi graças às obras “História da Terra e do Homem no Planalto Central” e “A Linha de Tordesilhas Passa Aqui” do historiador goiano Paulo Bertran (1948-2005), um dos maiores estudiosos da pré-História e da história de Goiás e do Distrito Federal, que os moradores de Olhos D’Água, município há 120 km de Goiânia, descobriram que a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas passa bem no meio da Praça de Santo Antônio e divide a cidade em dois lados: o português e o espanhol.

Nos livros de Paulo Bertran constam mais detalhes sobre a linha que praticamente se debruça sobre o que são hoje os Estados de Goiás e Tocantins e o Distrito Federal. O historiador passa até as coordenadas da Linha de Tordesilhas que coincidem com a localização do Meridiano 48°35’25’’ cortando Olhos D’Água ao meio. Da praça, a linha ainda encontra em seu caminho a Serra dos Pirineus, — que no século XVI era considerado o ponto mais alto do traçado — 1385 metros acima do mar.

Por esse meridiano, Portugal ficou com a área que corresponde a todo o Distrito Federal e boa parte do Planalto Central do Brasil. Em linha reta, ele estende-se desde o Congresso Nacional, no Eixo Monumental de Brasília, até a fronteira espanhola, totalizando 72 km e 800 metros de comprimento a oeste, de acordo com os mapas do Serviço Cartográfico do Exército Brasileiro. A linha original de Tordesilhas continua avançando pela ponte sobre o Rio Corumbá, na GO-060, rodovia estadual que liga a capital federal à capital de Goiás.

Praça de Santo Antonio por onde passa a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas

Quando o Tratado foi oficializado, em 4 de junho de 1494, a França tornou-se a maior crítica do acordo que dividiu o mundo ao meio entre Portugal e Espanha e que ainda foi ratificado por meio de bula papal, tamanha sua importância. A linha ainda cruza Alexânia, em Goiás, nas imediações da ponte já citada sobre o Rio Corumbá e então segue, cortando o município de Abadiânia pelo lado leste, e depois, como um curso de rio, passa por outras cidades como Silvânia, São Miguel do Passa Quatro, Cristianópolis, Pires do Rio, Santa Cruz de Goiás, Caldas Novas e Corumbaíba. 

A divisão do Brasil à época do Tratado de Tordesilhas.

Duas potências e o planeta dividido ao meio

Assinado em 4 de junho de 1494, o Tratado de Tordesilhas recebeu esse nome porque o acordo entre Portugal e Espanha foi firmado na cidade espanhola de Tordesilhas. Seu objetivo específico era resolver os conflitos territoriais que surgiram entre as duas coroas a partir do descobrimento do novo mundo no final do século XVI.

Documento original do Tratado de Tordesilhas

O Tratado veio na sequência da contestação portuguesa às pretensões da Coroa espanhola resultantes das viagens de Cristóvão Colombo que, em apenas, um ano e meio, conseguiu conquistar quase toda a América Central e o Caribe.

Mapa de 1504 marca o mundo dividido ao meio pela linha de Tordesilhas

Promessa Divina

Igreja de Santo Antônio que deu origem à Olhos D’Água em Goiás.

Olhos D’Água surgiu de uma promessa religiosa feita por uma moradora da região, Maria Alves de Magalhães, que construiu uma capela em homenagem a Santo Antônio de Pádua, em 1941, nas terras que doou à igreja para pagar a graça alcançada. Em torno da capelinha surgiu o povoado de Santo Antônio dos Olhos D’Água — que rapidamente tornou-se “pouso obrigatório” de tropeiros que passavam pela região.

Foi também a partir dessa cidadezinha que surgiu a estrada que levaria à construção de Brasília, através do Sítio Castanho. A propriedade faz parte do quadrilátero que deu forma ao Distrito Federal, uma área demarcada pela Missão Cruls, no final do século XIX, para a construção da capital federal.

ATENÇÃO TURISTAS, A LINHA DE TORDESILHAS PASSA POR AQUI

Em letras garrafais vermelhas, sobre um fundo branco, o anúncio ocupa parte da fachada do Bar do Meio há algumas décadas. O nome é uma homenagem ao Tratado de Tordesilhas. A linha imaginária que já separou duas partes do mundo passa justamente sobre o balcão do bar.

Com o tempo, o botequim virou parada obrigatória dos turistas que visitam Olhos D’Água. Para que ninguém tenha dúvidas sobre a linha que já atravessou Goiás e passou por ali, o proprietário do bar possui exemplares dos livros de Paulo Bertran para mostrar, com orgulho, que ele também faz parte dessa história.

Mapa espanhol com cartografia para navegação e o destaque da linha de Tordesilhas.1634

Por anos, Olhos D’Água ficou conhecida pelo estereótipo de destino hippie e pela tradicional Feira do Troca. Com o passar do tempo, ganhou fama internacional quando seu rico artesanato, produzido pelos moradores da cidade, espalhou-se mundo afora — confirmando, mais uma vez, que, desde o Tratado de Tordesilhas, já estava predestinada à fama internacional.