O prédio que Goiânia esqueceu
19 agosto 2026 às 14h11

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Há cidades que escondem seus tesouros à luz do dia. No centro de Goiânia existe um deles. Na paisagem urbana, poucos prédios carregam um peso simbólico e arquitetônico tão marcante quanto o edifício 28 de Agosto. Todos os dias, milhares de pessoas passam por ele, a pé ou de carro ou até mesmo quem mora ali, todos ou quase todos desconhecem sua importância porque ninguém olha pra cima e talvez seja esse o maior pecado que cometemos com a nossa cidade.
Na rua 4, centro de Goiânia, próximo à importantes eixos como as avenidas Anhanguera, Goiás e Tocantins, há quase 70 anos, um dos maiores arquitetos brasileiros deixou para a cidade um prédio moderno, elegante e absolutamente extraordinário. Há tempos que ele está lá, silencioso, e poucos sabem que estão diante de uma obra-prima assinada por Sérgio Bernardes. Um gênio da arquitetura moderna brasileira.
O edifício 28 de Agosto, completa 70 anos em 2027. Já está ali há sete décadas, observando Goiânia crescer, mudar, mas, ironicamente, a cidade deixou de percebê-lo há tempos.

Inaugurado no fim dos anos 50 e financiado pelo antigo IAPB, Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários ( Criado em 1934, o Instituto funcionava como uma caixa de previdência voltada exclusivamente para os trabalhadores da categoria bancária antes do sistema ser unificado ao atual INSS), o prédio introduziu em Goiânia um novo padrão de habitação vertical.
Muito mais que um simples edifício de apartamentos, ele foi a representação de um pensamento moderno que valorizava funcionalidade, ventilação, iluminação natural e, principalmente, a integração entre moradia e a cidade.

Quando ficou pronto, em 1957, morar no 28 de Agosto era sinônimo de status em Goiânia. O endereço passou a ser disputado pela classe média alta e bancários que buscavam modernidade e prestígio no mesmo lugar.

Na esquina da rua 4 com a 23 não está apenas um prédio, mas uma aula de arquitetura moderna plantada no coração de Goiânia. Sérgio Bernardes era o inventor do futuro. Enquanto Niemeyer desenhava curvas escultóricas, Bernardes pensava leveza, técnica, ventilação e luz. Experimentava como poucos e projetava como quem enxerga décadas à frente. De repente, esse gênio aparece em Goiânia nos anos 50, quando a cidade começa a chamar atenção como símbolo de modernidade.

Sérgio Bernardes projetou o edifício 28 de Agosto a convite do IAPB, durante a expansão da habitação coletiva oficial do centro de Goiânia, na década de 1950. Os Institutos de Aposentadoria e Pensões financiaram e produziram arquitetura moderna urbana em várias capitais brasileiras para abrigar a classe trabalhadora sindicalizada. O 28 de Agosto foi um dos primeiros prédios residenciais do país a integrar uma galeria comercial no térreo num espécie de rua interna, tornando-se um marco da modernidade arquitetônica.


O IAPB queria um prédio moderno e representativo. Chamaram o arquiteto mais inventivo do país para fazê-lo. A vinda de Sérgio Bernardes à capital goiana deu-se pela pela forte expansão da arquitetura moderna na região central do Brasil durante o processo de interiorização e consolidação urbana da época.E o resultado está ali, fachada pensada para o sol escaldante do Cerrado, proporções precisas, elegância sem excesso. O 28 de Agosto é um prédio que não grita. Na verdade, ele conversa baixinho com quem presta atenção.
Talvez seja por isso que passou tanto tempo despercebido. Como pode um ícone moderno conviver com uma cidade que mal sabe que ele existe?

É curioso que um dos prédios mais importantes da moderna Goiânia tenha sido tão pouco lembrado ou praticamente esquecido. O 28 de Agosto ajudou a redesenhar a paisagem da cidade, mas com o tempo foi saindo do foco quando, a partir dos anos 70 e 80, muitas famílias e serviços deixaram o centro. Goiânia cresceu pra várias direções, os olhares se voltaram para os prédios mais novos e os prédios pioneiros passaram a ser vistos como velhos, e não como históricos.
Além disso, a cidade preservou e celebrou muito mais a arquitetura Art Déco, ligada a sua fundação, deixando de lado o modernismo dos anos 50 e 60. Soma-se a isso o fato de que o 28 de Agosto nunca foi amplamente divulgado como obra de Sérgio Bernardes. Em outras cidades, um prédio com essa assinatura seria automaticamente tratado como patrimônio.

Mas os tempos mudaram. O centro de Goiânia começa a ser redescoberto e Bolha tem um papel fundamental nesse processo: ensinar a olhar de novo. Porque uma cidade só preserva aquilo que aprende a amar e não há como gostar daquilo que se desconhece. E é isso que Bolha faz agora.
Redescobre, aponta e chama atenção. Esse prédio é uma joia. E é nosso. Esperamos que, a partir de agora, toda vez que você for ao centro da cidade e passar pela rua 4, levante os olhos e sorria, porque já sabe que um gênio da arquitetura moderna sempre esteve ali, à espera desse encontro.
Sérgio Bernardes, o inventor de mundos.

Sérgio Bernardes é um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira ao lado de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Era dezessete anos mais novo que Lúcio e 12 anos mais jovem que Oscar, destacando-se como o melhor arquiteto da segunda geração de modernistas cariocas. O jovem arquiteto desenvolveu uma linguagem absolutamente pessoal misturando influências até então consideradas antagônicas.
Das muitas casas que projetou nos anos 40 e 50 para famílias abastadas da elite carioca continuam intactas, o que demonstra a qualidade do seu trabalho e o interesse dessas famílias em ter uma casa projetada por ele. Longe do pensamento comum dos arquitetos da época Sérgio criou imóveis com paredes de pedra, metal, telhas de fibrocimento, concreto aparente e muito vidro. A casa Lota, em Petrópolis,no Rio de Janeiro, construída em 1951, é o melhor exemplo e a mais célebre das residências arejadas criadas pelo arquiteto.

A casa está localizada em terreno rochoso com declives acentuados. A vegetação nativa e um riacho formam o ecossistema da residência. Bernardes configura uma casa aérea, longitudinal, com circulação alongada e ampla, deixando claro que buscou inspiração nas casas californianas, adaptando soluções arquitetônicas ao clima carioca como o uso de estruturas metálicas soldadas entre si para formar as vigas do telhado, algo inédito no Brasil da época. O arquiteto associou ao metal e vidro ,materiais não convencionais e rústicos como pedra e tijolo para formar as paredes. A Casa Lota foi pioneira na utilização de estruturas metálicas no país.

No final dos anos de 1960, João Pessoa, capital da Paraíba, enfrentava uma lacuna: faltavam hotéis de padrão internacional na cidade. O governo via no turismo uma oportunidade de integração nacional e convidou Sérgio Bernardes para criar essa obra. Então, ele projeta o Hotel Tambaú.

O “inventor de mundos” queria que todos os quarto tivessem vista para o mar da praia de Tambaú, por isso, criou uma grade planta circular e colocou todos os 120 apartamentos localizados num só perímetro do prédio. No centro, as áreas comuns do hotel, como piscina e jardins internos além de rampas panorâmicas e pátios abertos. O edifício parece que está camuflado junto à paisagem e, parte dele, é, diariamente, atingido pelas ondas do mar.
Foram três anos de obras até que, em 1971, o Tropical Hotel Tambaú ficou pronto, tornando-se um símbolo da modernidade paraibana. Durante décadas, o Hotel foi cartão-postal da capital paraibana, hoje, após anos de abandono, a estrutura é alvo de debates ecológicos e urbanísticos que criticam a localização, baseado na Lei Ambiental. No ano passado, ele foi arrematado num leilão e, após uma longa reforma e restauração, deverá reabrir as portas ainda em 2026
Sérgio Bernardes criou uma arquitetura própria, ao mesmo tempo orgânica e racional, tornando ineficaz a divisão simplista para o entendimento da produção arquitetônica. Além das residências icônicas e o hotel que até hoje é referência, ele projetou pavilhões internacionais, centros administrativos e apresentou propostas urbanísticas que influenciaram gerações. Recebeu prêmios nacionais e internacionais, teve diversos projetos publicados no exterior mostrando que a arquitetura moderna brasileira ia muito além dos nomes famosos.
Poucas cidades brasileiras podem dizer que guardam duas obras de Sérgio Bernardes. Goiânia pode. Primeiro veio o edifício do IAPB, racional, elegante, preciso. Depois, em 1962, vem o Clube Jaó, mais leve, mais experimental. Duas assinaturas de um mestre, num momento em que a cidade ousou sonhar grande. Um tempo em que Goiânia esteve lado a lado com a vanguarda arquitetônica do país.

Existe uma mudança silenciosa acontecendo na capital de Goiás, e ela não aparece em números oficiais, não vira obra inaugurada, não tem placa. Simplesmente acontece a partir do olhar. Durante muito tempo, atravessamos a cidade sem realmente olhar pra ela. Bolha nasceu a partir desse incômodo. Quando contamos histórias como do Parthenon Center que estava esquecido no centro da cidade, não falamos apenas de um edifício, mas sobre memória. Sobre entender que modernidade também é patrimônio.
Agora, Bolha lança luz sobre o edifício 28 de Agosto e seguimos no mesmo gesto: apontamos e dizemos, veja, isso também é parte de quem somos. Bolha não está apenas redescobrindo prédios abandonados ao ostracismo, está ajudando Goiânia a se reencontrar, devolvendo consciência, orgulho e pertencimento à cidade e seus habitantes.






