Uma placa de “vende-se” ameaça apagar a memória de uma parte importante da História de Goiás
02 setembro 2026 às 19h57

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A casa da Praça do Chafariz não é apenas um endereço ilustre. Ela se confunde com a história da formação das elites políticas e culturais de Goiás. Há casas que pertencem a uma família, e há casas que, depois de algum tempo, deixam de ser apenas de seus donos e passam a ser da memória do povo.
Na Praça do Chafariz, na Cidade de Goiás, existe uma dessas casas. Quem passa hoje por ali, talvez veja apenas mais uma construção antiga da antiga capital do estado que foi colocada à venda. No entanto, este é um desses lugares onde a história de Goiás, com G maiúsculo, passou pela porta, sentou-se à mesa, ouviu música e traçou rumos.

Ali, cruzaram política, literatura e música, mas não como abstrações. Ela ainda guarda nomes, vozes e rostos de uma família que não apenas frequentaram a história, mas ajudaram a escrevê-la. Esta é a casa de José Leopoldo de Bulhões Jardim.
Leopoldo de Bulhões não foi apenas um político goiano que deu certo no Rio de Janeiro (capital do Império e da República até 1960). Ele nasceu na Cidade de Goiás em 1856, filho de Inácio Soares de Bulhões e Antônia Emília de Bulhões Jardim que já vinham de uma linhagem política. O avô materno, José Rodrigues Martins, foi presidente da província (como os estados eram chamados) de Goiás e senador do Império.

Leopoldo cresceu ouvindo política como quem ouve conversa de almoço de família, e foi um homem que cultivava amizades com escritores como o português Eça de Queiroz, trocava cartas, visitava e participava de um mundo intelectual que poucos associam àquela Goiás provinciana. Ele não foi apenas um senador da República ou técnico das finanças. Era, digamos, um estadista, um homem do mundo, um cosmopolita.
Bulhões nasceu na casa da Praça do Chafariz, formou-se em Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, e isso também é simbólico porque coloca um jovem da antiga Vila Boa em contato com o centro intelectual e político do país.

Assim que voltou para Goiás, filiou-se ao Partido Liberal,foi eleito deputado geral, em 1882, e logo em seguida se assume abolicionista. Isso precisa ser dito claramente. O advogado defendeu o fim da escravidão cinco anos antes da Lei Áurea. Defendeu liberdade de culto e casamento civil. Ou seja, estava do lado das pautas modernizantes num Brasil ainda monárquico e conservador.


Eleito senador, participou da Constituinte republicana, foi ministro da Fazenda no governo do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), presidente do Banco do Brasil, mas mantinha ali, naquela casa, um pé fincado na terra goiana.



Ao lado dele estava o irmão, Antônio Félix de Bulhões Jardim, jornalista, poeta, abolicionista, fundador de jornais. Nessa família, política, imprensa, literatura e música não estavam em caixas separadas. Félix de Bulhões, assim como o irmão, também cursou Direito em São Paulo. Ao voltar para Goiás, atuou como promotor, juiz e desembargador, mas é na imprensa e na literatura que ele se agiganta.

Num Goiás escravista do século XIX, isso não era pouca coisa. Defender a abolição, era comprar briga com a base econômica e social da província. E Félix de Bulhões fez isso através de versos e artigos. Publicou poemas e fundou jornais como “Monitor Goiano”, “Província de Goiás”,“Tribuna Livre” e “Goiás”. Félix usava a imprensa como trincheira para suas ideias liberais.

Núcleo intelectual coeso
Enquanto Leopoldo de Bulhões atuava no Parlamento, Félix de Bulhões atuava na escrita. Os dois se encontravam no mesmo projeto de modernização. Em 1884, eles fundam o jornal “Goiás”. Félix morreu em 1887. A parceria entre irmãos mostra que havia ali um núcleo intelectual muito coeso que tinha endereço: a casa da família Bulhões na Praça do Chafariz. Uma casa erguida numa cidade isolada pela geografia, mas não pelas ideias. Lá dentro se discutia abolição, República, escrevia-se para jornais, se tocava piano e todos cantavam.
Era, a rigor, um centro cultural e, claro, político. Era, por assim dizer, uma Atenas no Cerrado, uma casa que carrega nas paredes caiadas um símbolo intenso. Preservá-la também significa manter viva a memória de Leopoldo de Leopoldo e Félix de Bulhões.
Antes de ser desembargador, juiz, promotor, Félix de Bulhões foi uma voz que escreveu, no meio de um país escravista, a palavra perigosa: liberdade. Para isso, ele não só usou argumentos jurídicos, mas ousou nos versos.
Títulos como “Os Sexagenários”, “Hino Abolicionista” e “Hino Libertador” não deixam dúvidas que o poeta escrevia para ser lido e, claro, ouvido. Queria influenciar, “Hino” é uma palavra que pede música, voz e coro. Ao citar “quebrar os grilhões de uma raça infeliz” ele sabia que estava usando uma linguagem de ruptura. E quando descreve uma queimada no Cerrado, o fumo, o sol atravessando a fumaça, o fogo correndo pelos morros, ele também se refere à devastação e renascimento. Félix de Bulhões olhava para Goiás, mas pensava no Brasil. Seguia a máxima de Púchkin ecoada por Liev Tolstói: para entender o universal fale (e entenda) primeiro de sua aldeia.
Então, a casa da Praça do Chafariz é quase um personagem da história. Não era só residência, era ponto de encontro de políticos, intelectuais e músicos. Num tempo sem avião, rádio, televisão e internet, essa família mantinha conexão com Rio de Janeiro, São Paulo e até Europa, trazendo partituras e repertórios novos para serem tocados ali pelas irmãs de Leopoldo, que liam e executavam aquelas músicas. É quase uma cena de filme. Houve um belle époque em Goiás? É muito provável.
A casa onde as mulheres davam o tom
Tudo isso já colocaria os nomes de Leopoldo de Bulhões e Félix de Bulhões nos livros de história, mas há um outro José Leopoldo quase desconhecido: o homem de uma casa onde a música era forma de linguagem, e quem dava o tom por ali eram as mulheres. O que revela outro modernismo: o comportamental.
Antes da política, havia a mãe, Antônia Emília. Depois vieram as irmãs de Leopoldo: Josephina, Ângela, Maria Nazaré, Adelaide e Leonor. Mulheres que cantavam, tocavam, ensinavam, dirigiam coros, organizavam saraus e faziam a música circular quando Goiás era distante de tudo. Nunca foi passatempo social, era formação cultural profunda.


Nascida em 1860, Ângela Bulhões Natal foi pianista, soprano e passou a viver no Rio de Janeiro depois de casada. Segundo registros, ela chegou a se apresentar no Teatro Colón, em Buenos Aires — um dos belos e amplos do mundo — e se envolveu com obras como Stabat Mater de Rossini e músicas sacras de padre José Maurício.

Veja que espantoso isso: uma mulher nascida em Vila Boa,cantando no circuito internacional, num dos maiores teatros da América do Sul e do mundo. Isso não é um detalhe ou apenas brilho individual, mas um indicativo que diz muito sobre a densidade cultural que vinha daquela casa. Havia um ambiente doméstico em que as partituras chegavam de longe, até da Europa, eram estudadas, executadas e ensinadas às gerações seguintes.
Adelaide Bulhões foi professora de harmônio (instrumento que consiste num conjunto de palhetas de cobre com entradas e saídas de ar e um teclado, com timbre semelhante a uma gaita de fole), piano, canto e foi diretora, durante anos, do coro na Igreja da Boa Morte. Josephina Bulhões e Maria Nazaré também tinham talento musical.


Dessa linhagem nasce Eurydice Natal e Silva, filha de Ângela Bulhões, pianista. Em 1904, Eurydice fundou e presidiu a Academia de Letras de Goiás, um feito pioneiro no Brasil. Enquanto a Academia Brasileira de Letras (ABL) só admitiria uma mulher em 1977, uma jovem de 19 anos, no interior do Brasil, já estava à frente de uma Academia de Letras, numa sociedade que sequer dava voz pública às mulheres.

Quando mudou-se para a nova capital, Eurydice Natal e Silva levou com ela a tradição dos saraus. O sobrado azul da Alameda dos Buritis, em Goiânia, acaba se tornando um novo ponto de encontro de músicos e intelectuais.

A mulher que alfabetizou e formou os primeiros estudos do filho, dentro daquele sobrado, plantou, sem saber, uma semente que décadas depois virou uma universidade.
O filho é Colemar Natal e Silva, que vai liderar o movimento pela criação da Universidade Federal de Goiás. A história da UFG também passa pela sala da casa na Praça do Chafariz, que em Colemar gerou mundo. Percebe o arco? De Vila Boa de Goiás à fundação da Universidade Federal de Goiás, passando por Ministério da Fazenda, Senado, abolicionismo, imprensa, música e saraus. E no centro disso tudo, uma casa que funciona como uma rede de memória, formação e sensibilidade. Esse lar nunca foi lugar isolado no tempo, ao contrário, sob aquele teto há linhagem de pensamento, de arte e de intervenção na vida pública que atravessou gerações.

É bem verdade que a casa já foi maior e um dia teve passarelas, jardins, rego d’água, uma sala de banquetes com uma mesa para vinte e quatro cadeiras, instrumentos musicais e muito mais. Essa imagem fala por si: gente chegando, conversa correndo solta, ideias circulando, música acontecendo. O mundo dentro de uma casa sempre como sintonizada ao universo das artes (e política) de qualidade.
Não se trata de nostalgia vazia. É memória concreta de como Goiás se civilizou, se modernizou . A pergunta sobre o destino dessa casa não é burocrática e nem assunto de mercado imobiliário. É uma decisão sobre que memória Goiás quer manter viva. Por isso, quando se fala hoje em transformar esse local histórico num Palácio da Música, o objetivo é devolvê-la à sua vocação original: um lugar que, no fundo, sempre foi um espaço de criação, encontro e música.
E se essa casa já foi um centro musical e cultural vivo, faz todo sentido que ela volte à sua origem. Ao deixá-la se apagar no mercado imobiliário, desaparecendo atrás de uma placa de vende- se, Goiás perde muito mais do que paredes. Cala também a sua própria voz, rasgando uma página inteira da história do estado e do Brasil.


