Mais do que ornamentos, os bustos de bronze dos ilustres cidadãos goianienses formam um álbum oficial e incompleto das memórias públicas da cidade. Juntos, eles não só revelam quem foi lembrado, mas, principalmente, quem ficou de fora.

Ao observar cada busto como documento, torna-se claro que a escolha dos símbolos no espaço público nunca é neutra: ela é construída, aprovada, financiada e, com o tempo, posta à prova pelo esquecimento.

Se caminharmos pelas praças, vemos rostos parados no tempo. Alguns foram pensados para frente de prédios importantes, outros removidos com reforma urbana, e há aqueles que simplesmente desapareceram, sem placa e sem cerimônia.

Busto abandonado no centro da Goiânia: personagem esquecido

Mas como esses monumentos foram definidos? Quem decidiu que eles virariam memória? E sobretudo, o que essa escolha diz sobre a cidade? Afinal, esses bustos revelam tanto sobre quem foi homenageado quanto quem teve o poder de homenagear.

Entre o cimento e o esquecimento, há uma linha tênue que separa a memória do descaso. O busto do Andrelino Moraes, por exemplo, observa a cidade com a descrição dos esquecidos. Andrelino, que foi prefeito de Campinas e doador das terras que deram origem às de Goiânia. Seu monumento revela um paradoxo, foi fundamental, mas não necessariamente celebrado.

Andrelino Moraes, pioneiro de Goiânia.

Ilustres Desconhecidos

Diante desses homens de bronze, nós, os vivos, às vezes não sabemos nem seus nomes. É uma composição de decisões, silêncios e preferências, que ao longo do tempo foi dizendo quem deveria permanecer.

Como o do General Joaquim Xavier Curado, cuja imagem ainda marca um ponto da cidade, embora poucos saibam sobre sua história. Há também o monumento do Coronel Joaquim da Veiga Jardim, instalado em uma praça de trânsito rápido, onde o ruído dos carros quase engole a voz da homenagem. E o busto discreto do doutor Antônio Fidélis, tão relevante que virou uma estátua de bronze, mas poucos o relacionam à trajetória brilhante que ele trilhou na saúde pública local.

Busto do General Joaquim Xavier Curado.
Busto do Coronel Joaqquim da Veiga Jardim

Já o caso de Colemar Natal e Silva é especialmente interessante. Há mais de um em Goiânia, o que já diz muito sobre a reafirmação da sua importância. Um deles está no campus da UFG que leva seu nome, próximo da Casa do Estudante. Outro, nos jardins do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, junto à Praça Cívica. Esse foi inaugurado em 24 de agosto de 2006, nas comemorações que antecederam o centenário de Colemar. Foi concebido pela arquiteta Maria Narcisa de Abreu Cordeiro, e o busto em bronze foi executado pelo escultor Angelos Katenas.

Esta, é uma história à parte. Katenas nasceu na Grécia, se estabeleceu em Goiânia, tornou-se professor da UFG e um dos grandes escultores de bustos do estado. Mais de  170 rostos esculpidos  entre 1966 e 2004, espalhados por Goiânia, Brasília e dezenas de cidades goianas. Algo impressionante. Um único homem deu formas a inúmeros personagens que Goiás escolheu para representar sua memória.

Angelos Katenas/escultor

Pedro onipresente

Mesmo ignorados, de certo modo, eles nos observam de perto e de longe, como Pedro Ludovico Teixeira montado em seu cavalo. O fundador da capital de Goiás é quase onipresente. Seu nome está na praça, no palácio, no museu, em fotografias, em livros. E houve a intenção de engrandecê-lo ainda mais com uma estátua equestre gigantesca. Pedro a cavalo, no alto da Serrinha, para que pudesse contemplar uma bela vista de Goiânia. Mas por motivos ecológicos proibiram sua presença no morro.

A obra chegou a sete metros em gesso e ferro, mas não foi concluída em bronze. Em 2003, teve que ser paralisada. No ano seguinte, morreu a artista responsável: Neusa Moraes. Pedro Ludovico, o homem que construiu uma capital, não conseguiu chegar ao alto da Serrinha a cavalo. Um sinal que até os monumentos fracassam. Hoje, está escondido num canto da Praça Cívica.

Estátua de Pedro Ludovico Teixeira a cavalo, na Praça Cívica

Mas quando falamos de Gercina Borges Teixeira, não estamos diante apenas da mulher de Pedro Ludovico, mas diante de uma das raras figuras femininas que conseguiram atravessar a longa fileira de homens de bronze na cidade. Seu nome sobrevive ligado ao trabalho social e à atenção às crianças e famílias carentes.

Busto de Dona Gercina Borges Teixeira

Cada busto é uma pergunta

Quem foi? Quem decidiu homenagear? Quando? Por quê? Quem fez a escultura?  O busto sempre esteve naquele lugar ou não? A placa é original?

Quando fazemos essas perguntas, descobrimos que o homenageado possui duas biografias. A do homem ou mulher representados e a do próprio monumento. Às vezes, a segunda é tão extraordinária quanto a primeira.

Honestino Guimarães muda o tom. Aqui não estamos diante apenas de mais um monumento, mas de histórias políticas, imprensa, universidade, memória e até de ausências, talvez seja o mais doloroso. Estudante, liderança política e desaparecido durante a ditadura, seu busto ocupa o lugar do corpo que nunca voltou.

Honestino Guimarães, desaparecido durante a ditadura militar no Brasil

Alfredo Nasser é político e imprensa. Germano Roriz, o comendador, evoca o tempo anterior a Goiânia. Mostra a Campinas que foi absorvida pela nova capital. Os bustos dos antigos campineiros funcionam como testemunhas de uma cidade anterior à atual. Dizem: “havia gente aqui antes”. Juntos, esses rostos formam menos uma galeria de estátuas e mais uma interpretação de Goiás. Porque talvez a cidade conte sua história também por quem nunca foi colocado sobre um pedestal.

Busto de Alfredo Nasser

E não podemos deixar de lado Isidória Barbosa, cujo nome poucos conhecem. Mas se tem um busto, é porque houve gente que quis lembrá-la. Nascida em Barreirinhas, na Bahia, ela se mudou para Goiânia no início dos anos de 1940 e foi morar no Setor Pedro Ludovico. Isidória foi a primeira moradora do bairro. Na década de 1970, o pioneirismo lhe rendeu uma homenagem e seu nome foi dado à praça principal do setor. Ela ainda ganhou um busto e placa que contavam sua história.Em 2022, a praça foi substituída pelo novo Terminal Isidória. O busto desapareceu, mas Bolha descobriu que ele está guardado no depósito da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e, em breve, deverá ser devolvido ao local de origem.

Busto Isidória Barbosa: abandono

Parece que cada monumento possui duas vidas, a do homenageado e a do próprio busto. Às vezes, essa segunda vida é mais acidentada do que parece. Placas trocadas, pedestais mudados, restaurações, abandonos. Ou seja, os bustos também envelhecem e, às vezes, desaparecem.

No final, tudo seguirá exatamente no mesmo lugar: carros, comércios, buzinas, tudo igual. E eles também continuarão ali; Pedro Ludovico, Dona Gercina, Andrelino, Colemar, Alfredo Nasser, Honestino e tantos outros. Famosos e esquecidos, mas sempre por ali. Nenhum deles pode reclamar de abandono, nem corrigir a própria biografia ou explicar por que mereceu aquele lugar enquanto tantos outros goianos desapareceram sem ter sequer uma fotografia na praça. Essa é a tarefa que fica para nós: voltar a esses nomes, um por um, encará-los e ouvir o que eles ainda têm a nos dizer.