Antes de Brasília, havia Goiás
18 setembro 2026 às 20h22

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Talvez seja preciso esquecer, por alguns minutos, a imagem que aprendemos a guardar de Brasília. Esqueça os palácios de Oscar Niemeyer, o traço monumental de Lucio Costa, os candangos, os caminhões levantando poeira no Cerrado e até Juscelino Kubitschek com seu sorriso largo e a promessa quase impossível de construir uma nova capital no coração do Brasil. Porque, quando JK chegou, o sonho já estava ali. E quem escreveu essa história, uma saga épica, foram os goianos.

É justamente essa Brasília anterior à Brasília que a arquiteta e pesquisadora Lenora de Castro Barbo passou anos perseguindo em documentos, mapas, expedições, personagens praticamente esquecidos e caminhos abertos pelo interior do Brasil. Um trabalho gigantesco, nascido de sua pesquisa acadêmica, que joga luz à uma história que o Brasil desconhece.

Parte desse universo está hoje dentro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, o IHGG, na exposição “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro”. E a tese que atravessa a mostra é provocadora: Brasília não começou com Juscelino.
A exposição e pesquisa de Lenora Barbo desmontam a ideia de que a capital federal nasceu do nada e reconstituem uma história que atravessa mapas coloniais, viajantes, cientistas, fazendeiros, engenheiros e políticos goianos — muito antes de JK chegar ao Planalto Centra.
Há uma versão confortável da história de Brasília. Ela começa com Juscelino Kubitschek, passa pelo risco de Lúcio Costa sobre o papel, ganha curvas nas mãos de Oscar Niemeyer e, em mil dias, desemboca naquela manhã de 21 de abril de 1960. É uma bela história. Só que essa não é a história inteira.
Porque, quando JK chegou, o território já havia sido procurado, medido, percorrido, descrito, desenhado, disputado, escolhido e, em grande parte, preparado. Havia mapas, estradas, fazendas, casas, famílias, interesses políticos, levantamentos científicos. E havia, sobretudo, uma longa participação de Goiás e de goianos numa operação que começou muito antes de alguém chamar aquele lugar de Brasília.
É justamente essa camada anterior — quase sempre comprimida pela monumentalidade da cidade que veio depois — que emerge no segundo andar do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás onde a exposição “Brasília: o alicerce goiano de um sonho brasileiro” está hospedada, até o próximo mês de outubro. Nas paredes, a história aparece como talvez devesse ter sido contada desde o início: através de mapas.


Mapas do território goiano, das expedições, das comissões, de propriedades. Mapas das alternativas para o Distrito Federal, do concurso para o Plano Piloto. Mapas de uma cidade ainda inexistente. E, por fim, a imagem de satélite do quadrilátero que deu formas ao Distrito Federal.
É como se, caminhando pela exposição, fosse possível assistir ao país aproximar a lente sobre um pedaço específico do Planalto Central. Até chegar ali.
Mas a primeira coisa que Lenora descobriu foi justamente que o ali nunca foi vazio. Sua dissertação recebeu um título que contém uma provocação: “Pré-existência de Brasília: reconstruir o território para construir a memória”.
A palavra decisiva é pré-existência. Porque existe uma espécie de mito fundador segundo o qual Brasília teria irrompido de uma extensão vazia do cerrado, produzida pela vontade política de JK e pelo talento de Lúcio Costa e Niemeyer. Lenora decidiu percorrer a direção contrária afim de desmistificar esse roteiro errôneo.
“Todo mundo fala assim: ‘Aqui não existia nada. Quando JK pisou, deu-se à luz’”, conta.
E então ela faz uma observação que desloca toda a narrativa:
“Se aqui não existia nada, então eu não existo, porque eu faço parte desse passado.”
É em busca desse passado que essa história começa. Não de Brasília, mas do território que a capital do Brasil apagou.
Os mapas do caminho
Para compreender o que havia antes, Lenora voltou aos séculos XVIII e XIX. Não começou pelos arquitetos, preferiu seguir os rastros deixados pelos viajantes.
Leu mais de cem relatos. Depois sistematizou dezesseis personagens que atravessaram ou registraram o território que, séculos depois, seria incorporado ao Distrito Federal. Procurou neles descrições de rios, caminhos, relevos, povoações, propriedades, serras. Foi a maneira quase arqueológica que encontrou para reconstruir uma paisagem desaparecida.
“Quem ia me contar essa história?”, ela se perguntou. Os viajantes.


Dos dezesseis selecionados, segundo a pesquisadora, provavelmente quatorze possuíam formação superior. Eram militares, administradores, cientistas, funcionários da Coroa, nobres em deslocamento para assumir postos em Vila Boa (antiga capital de Goiás) ou Mato Grosso. Gente que não atravessava simplesmente o sertão, mas também observava, media e registrava.
Entre eles surge Raymundo José da Cunha Matos. Português, militar, participou das disputas da Independência, percorreu Goiás no século XIX e deixou um inventário extraordinariamente detalhado do território. Lenora chama atenção para o grau de informação existente muito antes de qualquer discussão moderna sobre Brasília.
Mas ela voltou ainda mais no tempo. Goiás foi separado administrativamente da capitania de São Paulo em 1748. Já em 1750 surgiu o primeiro mapa da nova capitania da colônia portuguesa. De acordo com a pesquisa o traçado não seria de Tosi Colombina, como frequentemente se repete, mas de Ângelo dos Santos Cardoso. E o que parece uma discussão cartográfica especializada guarda uma descoberta ainda maior: o centro do Brasil não era desconhecido e vinha sendo observado havia séculos.
O sonho de colocar a capital no interior
A ideia de afastar a capital brasileira do litoral também não pertence a JK. Ela atravessa gerações. Passa pelas formulações associadas a Hipólito José da Costa e José Bonifácio, pelas discussões do Império, os estudos de Francisco Adolfo de Varnhagen e finalmente entra na ordem constitucional republicana. Em 1891, a Constituição determinou a reserva, no Planalto Central, de uma área destinada à futura capital federal. Porém, era preciso transformar uma frase constitucional em território. Do papel surgiu uma expedição que resultou num dos mapas mais importantes da história brasileira.
Em 1892, foi organizada a comissão chefiada pelo astrônomo belga naturalizado brasileiro Luiz Cruls. A Missão Cruls não foi um passeio pelo sertão, mas uma operação científica de enorme complexidade composta por uma equipe de astrônomos, geólogos, engenheiros, especialistas e militares carregados de instrumentos científicos transportados para uma região que era um imenso vazio, sem infraestrutura. “Havia inclusive um engenheiro mecânico encarregado dos equipamentos — porque, no meio do cerrado, se um instrumento quebrasse, não existia assistência técnica esperando na esquina”, conta Lenora.


Até Uberaba a viagem se fazia de trem, depois o país mudava. Era o sertão. A comissão avançou pelo Planalto Central medindo altitude, rios, clima, coordenadas, solo e condições naturais. O resultado seria materializado no famoso quadrilátero. E aquele quadrado desenhado no mapa começaria a ensinar sucessivas gerações de brasileiros a imaginar onde poderia ficar a futura capital do Brasil.
Lenora, que é goianiense, mas há décadas mora no quadrilátero, lembra que, já em 1893, mapas começaram a circular mostrando a área demarcada. Brasília ainda demoraria 67 anos. Mas alguma coisa já estava desenhada.
O Lago saiu do papel
Há um detalhe particularmente fascinante na exposição. Os concorrentes do concurso de 1957 para o Plano Piloto receberam um mapa topográfico do sítio da futura capital. Nele já aparecia o traçado do futuro lago. Ou seja:
O Lago Paranoá é anterior a Brasília. Não como aquífero, mas como ideia. O painel da exposição remete essa previsão a Auguste Glaziou, integrante da segunda comissão de Cruls, que ainda no fim do século XIX identificou as características naturais que permitiriam a formação de um lago artificial. Décadas antes das superquadras, do Congresso, do Palácio da Alvorada, de JK, já havia água desenhada no Planalto Central. Talvez seja esta uma das grandes forças da exposição: mostrar que Brasília não surgiu de um único gesto criador. Ela foi sendo acumulada por camadas. Uma informação sobre a outra. Um mapa sobre o outro. Uma comissão corrigindo a anterior. Uma geração deixando alguma coisa para a seguinte.
Obsessão Nacional
No centenário da Independência, em 1922, outro gesto transformou aquela abstração geográfica num símbolo. Em Planaltina, então território goiano, foi lançada a pedra fundamental da futura capital. Brasília ainda não existia. JK tinha 20 anos. Niemeyer, 14 e Lúcio Costa, 20. Goiás já realizava uma cerimônia para marcar fisicamente o lugar da capital que o Brasil prometera construir.

Esse é um ponto essencial. Porque a transferência da capital não foi uma invenção política repentina dos anos 1950. Foi uma obsessão nacional que atravessou Império, República, constituições, comissões científicas, governos e gerações. E Goiás estava no centro geográfico dessa obsessão.
Então veio a guerra
A Segunda Guerra Mundial acrescentaria uma dimensão que normalmente desaparece da narrativa monumental de Brasília: segurança nacional. A localização da sede do poder brasileiro no litoral passou a ser vista também como vulnerabilidade estratégica.
Lenora recupera nesse contexto a Expedição Roncador-Xingu que teve início em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas. Segundo ela, a operação estava ligada a uma preocupação geopolítica concreta: “penetrar e ocupar o interior afim de reconhecer um espaço que fosse capaz de oferecer proteção ao poder central em caso de ameaça externa.”

Quem teve papel importante na condução terrestre dessa operação foi Acary de Passos de Oliveira, personagem profundamente ligado a Goiás e que viveu durante anos em Goiânia.
Vargas e Eurico Gaspar Dutra chegaram a visitar a base instalada em Aragarças. Lenora resume a questão numa frase que muda completamente o sentido da mudança da capital:
“Não era mudar por uma questão cosmética, era geopolítica mesmo.”
É uma distinção fundamental. Brasília não era apenas urbanismo, mas estratégia de Estado, ocupação territorial, defesa e integração nacional. Tudo isso ao mesmo tempo.
A disputa que Goiás quase perdeu
Havia um adversário poderoso no caminho de Goiás: Minas Gerais. A localização da nova capital no território goiano não era inevitável. Muito pelo contrário. Segundo Lenora, a alternativa mineira — especialmente o Triângulo Mineiro — possuía defensores poderosos e estudos utilizados inclusive nas discussões da Constituinte de 1946. Uberaba. Uberlândia. A região do Pontal. Durante determinado período, a nova capital poderia perfeitamente ter ido parar ali. E aqui começa uma das partes mais importantes da pesquisa dessa pesquisa: Goiás precisou conquistar Brasília antes que Brasília existisse. A virada, para ela, ocorreu em 1955.
“Os goianos viraram isso em 1955”, afirma.

E é justamente nesse ponto que a exposição se torna especialmente reveladora. Porque 1955 antecede a posse de Juscelino. Lenora insiste numa data. Não 21 de abril de 1960, mas 15 de abril de 1955. Neste dia, a comissão presidida pelo marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, apoiada nos estudos técnicos do Relatório Belcher, escolhe o chamado Sítio Castanho. Até então havia uma intenção. Depois daquele dia havia um lugar. Para a pesquisadora, é essa a verdadeira data territorial da mudança. “Por isso eu sempre considero que o dia da mudança é 15 de abril.”

A partir dali desencadeia-se uma sequência impressionante. Era necessário demarcar. Desapropriar. Examinar títulos. Levantar propriedades. Avaliar benfeitorias. Negociar com fazendeiros. Impedir especulação imobiliária. Transferir terras. E fazer tudo isso antes que a máquina federal pudesse efetivamente construir a cidade. É nesse momento que os goianos entram de maneira decisiva.
Dois elos importantes no traçado que levou à Brasília
Há um momento nessa longa caminhada em direção à Brasília em que Goiás deixa de ser apenas o território sobre o qual os mapas desenhavam a futura capital. Os goianos começam a participar, de maneira mais direta, das condições que tornariam Brasília possível. Dois personagens são especialmente importantes nessa história e, curiosamente seus nomes hoje aparecem menos do que deveriam quando se conta a epopéia da construção da nova capital: Altamiro de Moura Pacheco e Emival Ramos Caiado.
Altamiro entra numa hora decisiva. Porque uma coisa era desenhar Brasília no mapa outra, completamente diferente, era regularizar e transferir as terras necessárias à implantação do Distrito Federal. Em 1955, quando a mudança da capital começava finalmente a deixar os documentos e caminhar para o mundo real, o governo de Goiás criou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal.
Para presidi-la foi escolhido o médico e pecuarista goiano Altamiro de Moura Pacheco. O trabalho da Comissão era gigantesco. Era preciso negociar, comprar e encaminhar a desapropriação das propriedades existentes dentro da área escolhida para o futuro DF. Brasília não estava sendo construída sobre um vazio.

Talvez nenhum documento da exposição explique tão bem essa participação quanto a Planta Índice Cadastral de Altamiro Pacheco e Joffre Parada, de 1958. O mapa é quase desconcertante porque onde a memória posterior costuma enxergar vazio, ele mostra propriedades, divisas, estradas, construções e fazendas. O território estava ocupado. Cada pequena construção foi registrada. “Cada casa, cada construção tinha um pontinho”, explica Lenora.
E aqueles pontos tinham consequências concretas. Era preciso indenizar, saber quem possuía o quê e transformar um território historicamente goiano em área federal sem simplesmente apagar quem vivia ali.
Altamiro Pacheco assumiu papel fundamental nesse processo. Ao seu lado estavam técnicos e homens de campo, entre eles Joffre Parada e Bernardo Sayão. A pesquisa descreve uma operação minuciosa: equipes percorrendo propriedades, verificando divisas, relacionando benfeitorias e cruzando o levantamento físico com o trabalho de escritórios jurídicos encarregados da documentação.
“Eles varreram o território”, diz.
Décadas depois, Lenora resolveu seguir aqueles pontos. Literalmente. Usou as coordenadas dos mapas de Altamiro e voltou ao território acompanhada de professores e alunos. Conseguiu localizar dez construções. Casas anteriores a Brasília. Vestígios físicos de uma história que o concreto monumental quase enterrou. De repente, o “vazio” tinha paredes.
Altamiro não foi apenas cartógrafo de propriedades. Era também interlocutor. Imagine o que significava chegar a uma fazenda do Planalto Central, em 1955, e dizer ao proprietário que aquele chão onde sua família vivera seria incorporado ao projeto da nova capital do Brasil. Alguns resistiam…desconfiavam. Outros percebiam que a própria expectativa da capital valorizaria as terras. Foi necessária uma negociação política quase artesanal.
Lenora reproduz a lógica usada nesse convencimento: “se o proprietário vendesse a parcela inserida no território demarcado e mantivesse terras ao redor, a chegada da capital valorizaria justamente o que permanecesse com ele. Não era simplesmente passar um trator sobre Goiás, mas convencer Goiás a ceder território para o Brasil. Altamiro ajudou a transformar uma área prevista nos mapas em território disponível para a construção da nova capital. É uma participação enorme e muito pouco lembrada.
Mas havia ainda outro obstáculo: transformar Brasília em lei.
A vez de Emival Ramos Caiado
Goiano, nascido na Cidade de Goiás, antiga capital do estado, Emival Ramos Caiado, advogado, jornalista e político, estava no Congresso Nacional justamente no momento em que a nova capital precisava deixar de ser apenas uma decisão política do governo federal para se tornar também um compromisso institucional e legal do Estado brasileiro.
Sua atuação parlamentar foi relevante na tramitação das medidas relacionadas à mudança da capital. Fontes do Senado atribuem a ele a autoria da iniciativa legislativa que fixou a data de transferência da Capital Federal para 21 de abril de 1960. Pode parecer uma data no calendário, mas não era. Ao estabelecer dia, mês e ano para a transferência, o Congresso colocou um prazo concreto sobre Brasília. A partir dali havia uma contagem regressiva. E prazo muda tudo.

Emival também participou das articulações parlamentares favoráveis à mudança da capital. Registros oficiais o identificam como presidente do Bloco Parlamentar Mudancista, grupo que reunia parlamentares defensores da transferência. Ele também foi o responsável pela legislação da Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil), o instrumento administrativo e empresarial encarregado de coordenar a construção de Brasília, por isso ele ficou conhecido como o “legislador da construção de Brasília”.
Lenora recupera um episódio decisivo
E aqui chegamos ao ponto mais provocador de toda essa reconstrução. Quando Juscelino Kubitschek assumiu a Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, uma parte fundamental daquilo que permitiria Brasília acontecer já estava encaminhado: O sítio tinha sido escolhido, os estudos científicos existiam, o processo fundiário estava em marcha, havia articulação política assim como recurso previsto.
Depois da definição do Sítio Castanho, José Pessoa procurou o governo Café Filho avançar a transferência. Diante da resistência federal, voltou-se para Goiás. O governador Juca Ludovico entrou no processo. Altamiro entrou em campo. E o senador goiano Jerônimo Coimbra Bueno conseguiu aprovar, em novembro de 1955, Cr$ 120 milhões de cruzeiros no orçamento de 1956 destinados à implantação da nova capital, segundo a reconstrução apresentada por Lenora.
Em 30 de dezembro, no Palácio das Esmeraldas, Juca Ludovico e Altamiro formalizaram a operação das terras. Lenora faz questão de uma precisão:
“Não foi uma desapropriação, foi uma compra amigável.”
As terras passaram para Goiás, que as colocou à disposição da União. E então vem a frase que desmonta a cronologia escolar:
“Quando assumiu, JK já tinha a terra, o dinheiro, já estava marcado, já estava definido, ele já tinha os estudos…”
Isso não diminui Juscelino. Ao contrário. Permite compreender exatamente o tamanho de sua realização. JK foi o homem que tomou uma aspiração de quase dois séculos, uma determinação constitucional de 65 anos, décadas de estudos científicos e uma articulação política e territorial já avançada — e teve a coragem de transformar tudo aquilo em cidade. Mas não começou do zero. Ninguém começa uma capital do zero.
A cidade finalmente encontra sua forma
Em 1957, o concurso nacional para o Plano Piloto chama arquitetos e urbanistas de todo o país. A exposição mostra algumas das propostas concorrentes. É extraordinário observá-las lado a lado. São futuros alternativos. Brasílias que poderiam ter existido. Brasílias que nunca existiram. Rino Levi e equipe. Vilanova Artigas e equipe. Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti. Cada proposta imaginava outra relação entre cidade, monumentalidade, habitação, circulação e paisagem. Então aparece o desenho vencedor: Lúcio Costa.


O gesto tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis do urbanismo do século XX. Mas mesmo o desenho de Costa não nasceu sobre uma folha completamente branca. Todos os concorrentes receberam informações topográficas do sítio e o traçado previsto para o lago. O território já condicionava a cidade. A história já condicionava o desenho.
Lúcio desenhou. Niemeyer levantou. Joaquim Cardozo colocou de pé
A narrativa tradicional gosta dos gênios solitários. Brasília não cabe nisso. Lúcio Costa concebeu a estrutura urbanística. Oscar Niemeyer recebeu a tarefa de dar arquitetura monumental à nova capital. Mas as formas de Niemeyer precisavam obedecer às leis da física. É aí que aparece outro personagem essencial nessa história: Joaquim Cardozo.

Engenheiro calculista, poeta, intelectual, Cardozo tornou possível estruturalmente boa parte da ousadia arquitetônica de Niemeyer. As colunas. Os grandes vãos. As curvas. As cascas de concreto. A aparente leveza. O concreto não flutua. Alguém precisava calcular para que parecesse flutuar. Brasília é também obra dos engenheiros que transformaram desenho em estrutura.
Israel Pinheiro: a máquina
Se Costa deu forma urbana e Niemeyer deu forma arquitetônica, era necessário alguém capaz de transformar tudo aquilo num canteiro de obras de escala nacional. Surge então a Novacap, Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil. E com ela, Israel Pinheiro.
A exposição o apresenta como peça central da máquina executiva que precisou administrar simultaneamente território, materiais, máquinas, estradas, contratos, mão de obra e prazos. O cerrado virou um canteiro que funcionava numa velocidade que hoje parece quase absurda. Brasília precisava estar pronta para a data prometida: 21 de abril de 1960. O calendário tornou-se instrumento de engenharia.
Bernardo Sayão abriu o caminho
E nenhuma capital poderia ser construída no interior se o interior continuasse isolado. É aqui que Bernardo Sayão cresce enormemente na história. Engenheiro, administrador, desbravador, vice-governador de Goiás e figura fundamental na implantação de Brasília, Sayão esteve ligado à abertura dos grandes eixos de integração. A Belém-Brasília não era uma obra lateral, mas parte fundamental do projeto nacional. Era a estrada que conectaria a nova capital ao Norte e ajudaria a transformar Brasília não apenas em sede administrativa, mas em centro efetivo de integração territorial.

Sayão morreria em 1959, atingido por uma árvore durante os trabalhos da rodovia. Não viu Brasília inaugurada. Mas uma das grandes artérias que davam sentido geopolítico à nova capital carregaria para sempre sua presença.
Mauro Borges e a conexão goiana
A exposição também coloca Mauro Borges nesse mosaico. Sua presença ajuda a perceber algo que a narrativa exclusivamente brasiliense muitas vezes dilui: Brasília não foi construída apenas em terras que pertenciam a Goiás. Ela foi construída em relação permanente com Goiás.
Estradas, abastecimento, administração, demarcação, logística, articulação política e conhecimento territorial dependiam dessa conexão. A própria Belém-Brasília, destacada na exposição junto a Mauro Borges, não pode ser vista apenas como uma estrada. Era uma artéria. Brasília precisava de uma cidade. Mas precisava também de um país chegando até ela. E por essa artéria chegaram os candangos.
Há, porém, um ponto em que todos os mapas terminam. O mapa pode definir o território. O arquiteto pode desenhar. O engenheiro calcular. O político assinar. A Novacap pode administrar. Mas alguém precisa carregar o ferro. Misturar cimento. Subir andaime. Abrir estrada. Erguer parede. Trabalhar noite adentro. Foram milhares. Vieram de Goiás, Minas, Nordeste e de muitas outras partes do Brasil: Os candangos.
A própria exposição reconhece essa dimensão visceral: foram eles que materializaram, “no barro vermelho”, aquilo que até então existia como utopia desenhada no papel. Em menos de mil dias, aquela massa humana ergueu uma cidade. E talvez nenhuma fotografia explique Brasília melhor do que aquelas imagens de homens pequenos diante de estruturas gigantescas. Porque ali desaparece por um instante a abstração do modernismo. O concreto volta a pesar.
Brasília não nasceu em 21 de abril
Em 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada. Naquela manhã apenas se tornou oficial uma cidade cuja história vinha sendo escrita havia muito tempo. Passara pelos mapas coloniais. Pelos viajantes. Por Varnhagen. Pela Constituição de 1891. Por Cruls. Pelo quadrilátero. Pela pedra fundamental de Planaltina. Pelas comissões republicanas. Pela geopolítica da Segunda Guerra. Pela Roncador-Xingu. Pelos estudos de Polli Coelho. Pelo Relatório Belcher. Por José Pessoa. Pela disputa com Minas Gerais e a decisão de 15 de abril de 1955. Por Juca Ludovico, Jerônimo Coimbra Bueno, Altamiro Pacheco, Joffre Parada, Bernardo Sayão e os proprietários que venderam suas terras.
Depois, sim, vieram JK, Lúcio Costa, Niemeyer, Joaquim Cardozo, Israel Pinheiro, a Novacap e os candangos.
Brasília não é menos extraordinária quando retiramos dela o mito do nascimento instantâneo. Ela fica ainda maior. Porque descobrimos que uma cidade pode levar menos de quatro anos para ser construída — e quase dois séculos para chegar ao lugar onde será construída.
E Lenora voltou aos mapas
Há ainda outra história escondida dentro dessa exposição. Muito menor que Brasília. E, talvez por isso, mais bonita. Durante anos, Lenora não percebeu exatamente de onde vinha sua obsessão pelos mapas. Arquiteta, interessava-se pela imagem, pela representação do território, pela cartografia.

Até que a memória começou a fazer conexões.
Seu pai, Manuel Demósthenes Barbo de Siqueira, engenheiro e auto de “Estudos sobre a Nova Capital do Brasil”, teve uma longa vida ligada ao serviço público e à engenharia. Participou da fundação da Escola de Engenharia que depois seria incorporada à Universidade Federal de Goiás, esteve ligado à Celg (Centrais Elétricas de Goiás), à Cachoeira Dourada, ao BEG (Banco do Estado de Goiás) e trabalhou durante anos na Codego (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás).
Em determinado período, era chefe da cartografia. Lenora fazia faculdade. Às vezes o pai telefonava: “Minha filha, passa aqui.” Ela ia. No andar da cartografia havia pranchetas. E sobre as pranchetas, mapas.
Depois saíam andando pela Avenida Goiás para almoçar. Às vezes iam ao Hotel Bandeirantes. Outras vezes, à livraria. Pai e filha tinham ainda um ritual: liam um mesmo livro e depois sentavam para conversar sobre ele.
Ela guardou essas cenas sem saber exatamente o que estava guardando. Décadas mais tarde, ao iniciar sua pesquisa, encontrou-se outra vez cercada por mapas.
“Bom, vamos começar pelo começo”, pensou.
E começou por Goiás. Talvez seja impossível separar completamente a pesquisadora da menina que ficava perto das pranchetas. Lenora percorreu mais de cem viajantes para encontrar dezesseis. Procurou mapas do século XVIII, XIX e XX. Seguiu coordenadas deixadas por Altamiro Pacheco. Entrou no cerrado procurando casas transformadas em pontos numa planta cadastral. Encontrou dez. Reconstruiu caminhos. Reuniu documentos. E, sem perceber de imediato, fazia também uma espécie de cartografia íntima. Procurava Goiás antes de Brasília. Mas procurava alguma coisa de si mesma naquele território.
Anos depois, Lenora entrou na Casa de Cultura Altamiro Pacheco. Já não era a menina que acompanhava o pai. Entrou sozinha. Mas não foi assim que se sentiu. “Eu me vi com o meu pai do lado”, contou ao Jornal Opção.
A casa devolveu cenas que pareciam perdidas: ela pequena, acompanhando os adultos, sentando discretamente num canto, quase invisível, ouvindo. Lenora encontrou uma definição belíssima para aquele papel que atravessou sua vida:
“Foi um papel, ao longo da vida inteira, de receber informações.”
Talvez tenha sido isso. Durante décadas ela recebeu informações. Dos viajantes, engenheiros, cientistas, dos documentos, fazendeiros, das casas esquecidas, do cerrado, do pai. Depois passou a vida tentando descobrir onde colocá-las. E a resposta estava diante dela desde menina: os mapas.

As grandes folhas abertas sobre as pranchetas da cartografia da Codego. O pai inclinado sobre elas. A menina olhando sem saber que um dia voltaria àqueles mesmos territórios, procurando aquilo que Brasília quase apagou. Os mapas ficaram. Talvez nunca tenham sido guardados.
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