Brechó: o acaso vai ao encontro
12 setembro 2026 às 11h00

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Camila Nunes
Há algo de paradoxal em procurar novidades entre objetos que já pertenceram a outra pessoa. Mas é justamente isso que leva centenas de pessoas ao Centro de Goiânia à vasculhar araras sem a garantia de que vão encontrar o modelo desejado e, curiosamente, fazer dessa imprevisibilidade parte do prazer de consumir. Em uma sociedade que transformou o novo em imperativo e tornou o consumo cada vez mais rápido, previsível e abundante, cresce o interesse justamente pelo que já existia: a peça garimpada, singular e eventualmente marcada pelo tempo.
A lógica do consumo atual funciona assim: produzimos e compramos em tamanha quantidade que abastecemos um mercado inteiro com o excedente dos nossos próprios armários. Depois, retornamos a esse excedente em busca justamente daquilo que a produção em massa tem dificuldade de oferecer: singularidade. O brechó, portanto, desafia a cultura do descarte ao mesmo tempo em que é, em alguma medida, alimentado por ela. Existe porque prolongamos a vida das coisas, mas também porque temos coisas demais.

É nesse terreno ambíguo que o Encontro de Brechós de Goiânia já é a feira de moda circular mais interessante do país. Criada em 2016, por iniciativa de Thaís Moreira, dona do Empório Armário, o evento nasceu quando comprar em brechó ainda exigia vencer uma resistência. Thaís percebia dificuldade na formação de público e preconceito em relação ao segmento; reunir brechós foi uma maneira de fortalecer uma rede que ainda precisava convencer o consumidor de que havia valor naquilo que já pertenceu a alguém.
Dez anos depois, o que precisava ser legitimado passou a ser desejado.

Há alguma coisa acontecendo na maneira como atribuímos valor às coisas e como elas são usadas. É claro que sustentabilidade, expressão em voga, e até preços mais em conta também são motivos para o sucesso dos brechós.
É justamente aí que uma tarde entre araras, cabides, provadores improvisados e muita roupa deixou de ser banal.

Talvez a parte mais reveladora dessa história seja o momento em que uma peça muda de mãos. Uma roupa pode ter sido necessidade para quem a vestiu primeiro, excesso para quem decidiu se desfazer dela e objeto de desejo para quem acaba de encontrá-la. Pode atravessar épocas em que vestir roupa de segunda mão era algo a ser omitido e reaparecer, anos depois, como sinal de consciência, personalidade ou repertório. O tecido pouco explica essa transformação. Entre o constrangimento de usar o que já foi de alguém e o orgulho contemporâneo de dizer “é de brechó”, o que mudou não foi a roupa: fomos nós.
Para o coordenador do curso de Economia da PUC Goiás, Gesmar Vieira, a expansão da moda circular pode ser compreendida a partir da forma como as pessoas atribuem valor aos bens que consomem. Segundo ele, o preço representa a quantificação monetária de um produto; já o valor está relacionado à importância que cada pessoa atribui ao produto.

Uma modelagem que deixou de ser produzida, uma etiqueta de determinada época, um tecido de qualidade, uma marca encontrada por acaso, uma memória ou simplesmente a improbabilidade de cruzar novamente com aquela peça podem alterar completamente a percepção sobre ela. O que a indústria chamaria de estoque limitado, o brechó transformou em exclusividade.

A indústria da moda trabalha para reduzir a frustração da escolha: oferece tamanhos, cores, modelos e reposição. O brechó faz quase o contrário. Há uma peça, naquele tamanho, naquele estado, naquele momento. Se serviu, ótimo. Se não serviu, não há muito o que fazer. E se você hesitar, alguém pode levá-la antes.
Nesse sentido, “garimpar” descreve melhor a experiência do brechó do que simplesmente “comprar”. Porque garimpar exige tempo, atenção e alguma intimidade com o acaso, afinal, às vezes, em nos brechós você também pode encontrar o que menos espera.

No Encontro de Brechós, essa diferença é visível. As pessoas nem sempre chegam procurando alguma coisa específica. Elas circulam, mexem nas araras, tocam tecidos, conferem etiquetas, experimentam, devolvem, voltam, negociam. O consumo acaba virando um “rolê”.

As voltas que a roupa dá
A trajetória de Valquíria Resende parece condensar, em uma única vida, boa parte dessa transformação. Criada pela avó, ela cresceu usando roupas que já haviam pertencido a parentes. “Eu nunca tive coisas novas”, conta. Naquele contexto, vestir o que vinha de outros armários não era uma escolha estética, tampouco uma declaração de consciência ambiental. Era a resposta possível a uma realidade em que o novo não estava ao alcance dela. Anos mais tarde, porém, sua relação com as roupas mudaria completamente: Valquíria passou a acumular roupas no armário que ela nem usava, até que o excesso passou a incomodar.

Com o fim da pandemia, Valquíria começou a vender as próprias peças de roupa em casa. Foi assim que nasceu o “Val Shop Brechó”, hoje localizado na região central de Goiânia. E não foi só isso, “Val”, como é chamada pelos clientes, afirma que desde que começou a participar do “Encontro de Brechós” passou a ter mais visibilidade e ainda aumentou a clientela.
A Lídia pintou e bordou
Há brechós em que uma peça resgatada pode virar um outro business. Foi assim no “Gato Freud”, um brechó online de moda vintage onde a seleção do que vai para as araras faz parte do negócio. Lídia Keila, que tem experiência como designer e estilista, faz a curadoria das peças de forma bem definida, sempre com intervenção autoral. No Encontro, o “Gato Freud” tem lugar cativo e público fiel.

Bordados e customizações, inclusive upcycling, podem aparecer justamente onde a lógica convencional enxergaria razões para descartar. Manchas, furos, desgastes ou peças aparentemente comuns tornam-se matéria-prima para transformação. No upcycling, o desgaste acumulado durante anos de uso é que provoca a procura por peças reformadas.

Lídia explica que pega peças que estariam “condenadas”, interfere nelas e procura ressignificá-las, dando-lhes outra história. Nesse ponto, a ideia de segunda vida deixa de ser apenas uma metáfora simpática para sustentabilidade. A peça pode, de fato, ganhar uma segunda identidade.
Se no Gato Freud essa transformação acontece sobre a própria peça, isso também se repete em outro ponto de Goiânia.
Garimpando em área nobre
O “Peça Rara Brechó” está localizado na avenida mais cara da cidade e, novamente, aqui se reproduz a imagem reveladora do consumo contemporâneo: a peça tem um passado; o que mudou foi o status do consumidor.

E isso não quer dizer que o brechó “subiu de classe”, mas que o “usado” se multiplicou tanto que não há mais fronteiras para comprar aquela “pecinha” que a gente tanto quer, mesmo que ela seja de segunda mão. E isso não é uma inversão de valores, pelo contrário, é um retrato de que a maneira como consumimos já está agregando desejos que estão sendo reorganizados.

Depois de tudo isso, se te bateu aquela vontade de garimpar também, Bolha te conta que neste domingo, 13 de setembro, acontece mais um Encontro de Brechós, dessa vez na Rua 15, no setor Central. Dá um pulo por lá. Certeza que você não vai voltar pra casa de mãos vazias! Bom garimpo!

