A Catedral de Goiânia foi construída de costas para a Praça Cívica; Entenda o porquê
09 setembro 2026 às 19h27

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Em Goiânia, um templo religioso não havia sido previsto em seu projeto original. Na capital de Goiás, sua principal igreja não só ficou de fora da Praça Cívica como foi erguida de costas para ela.
A santa, a cidade e uma Catedral de costas
Na suíte de Pedro Ludovico Teixeira e Gercina Borges, no sobrado da Rua 26 que hoje guarda a memória do casal, há uma santa num nicho especialmente feito para ela: Nossa Senhora Auxiliadora. Os dois, afinal, eram católicos.Não é uma imagem qualquer.
A escultura, de feição surpreendentemente moderna, afinada com a linguagem estética daqueles primeiros anos de Goiânia Art Déco, permanece ao lado da cama de Dona Gercina como ela a deixou, há 50 anos, desde o seu falecimento.
E talvez seja justamente ali, dentro do quarto do homem que comandou a construção da nova capital, que começa uma das histórias mais incríveis que marca os primeiros anos de vida dessa cidade.



Gercina era devota de Nossa Senhora Auxiliadora. A própria Arquidiocese registra que partiu dela o desejo de colocar a cidade nascente sob a proteção da santa. É ela que nos obriga a começar essa reportagem por uma pergunta que ainda não tem resposta: seria aquela Nossa Senhora Auxiliadora, preservada no sobrado da Rua 26, a mesma imagem relacionada aos primeiros cultos da Matriz de Goiânia?
Não se sabe. A documentação localizada até agora não estabelece a procedência da escultura do museu nem permite ligá-la à imagem benzida nos primeiros anos da igreja.
Há ainda outra complicação: a imagem hoje venerada na Catedral tem outra história — veio de São Paulo nos anos 1940, por empréstimo da Igreja do Bom Retiro, para as celebrações da nova capital e acabou permanecendo em Goiânia.

Mas a pergunta sobre a santa do quarto de Gercina permanece. E ela contém uma ironia extraordinária. Porque, se algum dia a documentação demonstrar essa ligação, a igreja que a memória goianiense diz ter sido colocada de costas para o Palácio das Esmeraldas terá começado, simbolicamente, dentro da própria casa de Pedro Ludovico, pelas mãos de sua mulher.
Mas antes da Catedral houve uma briga pela própria Goiânia.Para entender as costas da Catedral é preciso voltar a um tempo em que não existiam nem Catedral, nem Goiânia.
A disputa começa com a transferência da capital. Fato marcante que contou com o auxílio da Igreja já que a Comissão de Estudos Para a Localização da Futura Capital do Estado de Goiás, criada por decreto em dezembro de 1932, teve como presidente o arcebispo de Goiás, Dom Emanuel Gomes de Oliveira, uma das figuras intelectuais mais poderosas do Estado.
A escolha da região de Campinas contrariou sua preferência que era pela região de Bonfim (Silvânia) e isso criou uma fissura na relação com Pedro Ludovico que atravessaria os anos seguintes.
É nesse contexto que as ausências de Dom Emanuel das primeiras solenidades da nova capital ganharam significado político. A primeira missa no território da futura Goiânia foi celebrada sem o religioso. Tratou-se de uma missa campal onde hoje está a Praça do Bandeirante. Dom Emanuel não compareceu, nem enviou representante.
No dia 24 de outubro de 1933, no lançamento da primeira pedra fundamental da nova capital celebrou-se uma missa de Ação de Graças e mais uma vez D. Emanuel não estava presente. Mandou dizer ao interventor que viajou para o Rio de Janeiro.

Essas celebrações foram conduzidas pelos padres redentoristas da paróquia de Campinas. Eles tinham péssima relação com o arcebispo — que era da congregação salesiana.
Com a mudança da capital, o arcebispo ficou magoado com os redentoristas porque eles apoiaram Pedro Ludovico e haviam “trabalhado” a favor de Campinas como local onde Goiânia deveria ser erguida.
Mas Igreja e governo não poderiam simplesmente passar as décadas seguintes fingindo que o outro não existia. Pedro Ludovico estava construindo uma capital. Dom Emanuel comandava a Igreja Católica em um Estado esmagadoramente católico. Eles precisavam um do outro. E só havia uma pessoa capaz de fazer essa ponte: Gercina.

Em 24 de maio de 1935 — não por acaso, dia de Nossa Senhora Auxiliadora — aconteceu uma cerimônia fundamental dessa história. Num altar improvisado sob uma árvore do Cerrado, havia um pequeno quadro de Nossa Senhora Auxiliadora.
A missa foi celebrada por Abel Ribeiro Camelo. Gercina foi paraninfa. Era intenção dela colocar Goiânia sob a proteção da Virgem Auxiliadora. Dom Emanuel, salesiano, portanto profundamente ligado à devoção de Dom Bosco, acolheu a escolha com entusiasmo.
Era mais do que uma cerimônia religiosa, mas uma espécie de costura. Pedro, Gercina, Dom Emanuel, Abel e a cidade que ainda saía do chão começavam a dividir o mesmo espaço.

No Setor Sul houve pedra e cruz, menos Catedral
No plano urbanístico de Armando de Godoy, em 1936, o Setor Sul ganharia um centro de caráter religioso. A Catedral seria construída no grande espaço que acabaria conhecido como a Praça do Cruzeiro, tendo ao lado, nas quadras onde hoje se situam o Colégio Maria Auxiliadora e a Paróquia São José, o Palácio Arquiepiscopal e a Cúria Arquidiocesana.
A própria documentação posterior da urbanização registra, em 1947, uma “Praça da Catedral” no Setor Sul. A área destinada à Igreja era enorme: alcançava terrenos próximos da atual Praça do Cruzeiro, do Colégio Maria Auxiliadora e áreas que posteriormente integrariam o complexo da Universidade Católica (PUC).
A destinação das terras para a Igreja na nova capital, aparentemente, indicava uma reaproximação entre o interventor e o arcebispo. Mas isso ainda levou algum tempo.
No entanto, em 5 de julho de 1942, no Batismo Cultural de Goiânia, considerado por muitos a data de nascimento da cidade, às 6 da manhã, o cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra conduziu a cerimônia de lançamento da Pedra Fundamental da Catedral de Goiânia, no Setor Sul, onde hoje está cruz da Praça do Cruzeiro.
Se aquilo tivesse se mantido, Goiânia, em seus primórdios, teria dois polos: a Praça Cívica e a Praça do Cruzeiro.

Como o Setor Sul levou um tempo para ser habitado, Dom Emanuel achava que a Catedral estaria deslocada da cidade que crescia em outras direções.
Assim, resolveu construir uma Catedral provisória na quadra situada entre as ruas 10, 14, 19 e 20, que já pertencia a Igreja desde 1933, ao lado da Praça Cívica.
Essas terras remetem a outro personagem indispensável nessa história: Andrelino Rodrigues de Moraes. Ele e sua mulher, Bárbara, doaram para o Estado as terras das fazendas Botafogo, Macambira e Vaca Brava para a construção de Goiânia.
A documentação histórica atribui também a Andrelino a doação de aproximadamente dois alqueires destinados a obras religiosas.
É neste ponto que a Catedral se aproxima da Praça Cívica e a suposta ideia de erguer o principal templo religioso de Goiânia voltado de costas para o centro do poder estadual se torna possível.
O Natal de 1937
Quatro anos desde que a pedra fundamental de Goiânia foi lançada na matriz de Campinas, Goiânia ainda precisava de uma igreja de verdade, pois sua grande Catedral continuava pertencendo ao futuro.
Em 22 de dezembro de 1937, a Cúria criou oficialmente a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora. O cônego Abel Ribeiro foi nomeado primeiro vigário; Francisco de Sales Peclat, coadjutor.
Dois dias depois, em 24 de dezembro, antes da missa do Galo, a primeira Matriz recebeu sua bênção. E Gercina reaparece presidindo a comissão organizadora dos festejos. A informação consta da própria história oficial da Catedral.
Décadas depois, essa igreja seria demolida. Dom Abel lamentaria sua perda. Curiosamente, no mesmo lugar, foi erguido o edifício Dom Abel.


Isso é fundamental para compreendermos o que viria depois. A relação Pedro-Dom Emanuel nunca pode ser escrita como uma guerra permanente e linear. Havia atritos, havia divergências profundas, mas havia igualmente pontes, acomodações e interesses comuns. E Gercina era uma dessas pontes.
A pequena Matriz resolvia o presente. A Catedral continuava esperando.
1947: Coimbra Bueno
A história muda de configuração. Porque surge um terceiro homem: Jerônimo Coimbra Bueno. E talvez seja impossível compreender a posição definitiva da Catedral sem colocá-lo no centro desta reportagem.
A eleição de 1947 produziu uma aproximação política explícita entre Dom Emanuel e Jerônimo. Dom Emanuel publicou uma carta aberta conclamando o apoio dos católicos a Jerônimo Coimbra Bueno contra José Ludovico de Almeida, candidato do grupo de Pedro Ludovico.
A justificativa central era a aproximação da coligação adversária com o Partido Comunista. Uma dissertação de mestrado da UEG, apoiada em documentação do IPEHBC, reproduz a manifestação e descreve o governo Coimbra Bueno como o momento de maior cooperação entre Igreja e Estado naquele período.
Portanto, quando Jerônimo chegou ao governo, passa a se ter uma configuração completamente diferente. Dom Emanuel e Pedro carregavam uma velha divergência.
Agora, Dom Emanuel tinha no Palácio um aliado. E Pedro estava do outro lado

Dois meses depois, começa a Catedral. Em 18 de maio de 1947, Dom Emanuel constitui a Pro Erigenda Ecclesia “Para a Construção da Igreja” — comissão que assumiria a tarefa de angariar fundos para a obra. E quem ele escolhe para presidir a Comissão? Ambrosina Coimbra Bueno, mulher do governador
Jerônimo Coimbra Bueno. Dom Abel também participa da reunião. Observe a simetria quase literária dessa história:
1937: Gercina Borges Teixeira, mulher de Pedro Ludovico, preside os festejos da primeira Matriz;
1947: Ambrosina Coimbra Bueno, mulher de Jerônimo Coimbra Bueno, preside a comissão destinada a levantar fundos para erguer a Catedral.
Dez anos. Duas primeiras-damas.Dois grupos políticos de lados diferentes e a mesma Igreja entre eles.
É aqui que a história da Catedral de costas deixa de ser apenas uma anedota saborosa contada pelos antigos de Goiânia. Porque Jerônimo entra também na arquitetura.
Mas antes saber quem virou a Catedral de costas para a Praça Cívica é preciso entender sua arquitetura e o tempo que ela levou para ser erguida.

A igreja que virou Catedral
Ela nasceu matriz e tornou-se Catedral antes mesmo de ficar pronta. Levou 20 anos até alcançar a forma de grande templo da nova capital.
A planta escolhida por Dom Emanuel veio das mãos do padre-arquiteto salesiano Paulo Consolini. O projeto tinha sido concebido para a igreja de São João Bosco, em São João del-Rei, Minas Gerais, e acabou executado, com diferenças, nas duas igrejas-irmãs para cidades diferentes.

A catedral foi erguida lentamente, em fases, com bispos e reformas que acompanharam a própria transformação de Goiânia.
Sua arquitetura eclética, com influências neorromânicas e neogóticas, mistura à simbologia o olhar modernista da cidade. Sua torre geométrica sugere muito mais do que ornamento — aponta para leituras que dialogam com a Goiânia moderna. O topo da igreja conecta-se às tradições cristãs mais antigas, com sua forma octogonal que remete ao Oriente.
Por dentro, a cruz organiza oespaço como anatomia simbólica: cabeça na abside, braços no transepto e pés na entrada. Quem entra percorre, simbolicamente, o corpo de Cristo. Mas isso deve ser tratado como tradição e não como intenção provada do arquiteto.
A construção, lenta e descontínua, começa em 1947 e passa por fases distintas, inclusive com a morte de Dom Emanuel, em 1955, deixando a obra inacabada.
A recém-criada Arquidiocese precisava de uma Catedral e a igreja inacabada acabou cumprindo esse papel ao ser inaugurada em 1956. A sagração definitiva só viria em 1966.

O edifício guarda, ainda, camadas do tempo, reformas, mudanças de vitrais,intervenções na iluminação e a restauração mais recente concluída em 2026.
Mas uma planta arquitetônica não decide sozinha onde um prédio será colocado numa cidade. E aí acontece alguma coisa extraordinariamente importante.
Segundo a narrativa histórica utilizada inclusive pela historiografia da Catedral, Dom Emanuel queria colocar a igreja na ponta da quadra, voltada para a Rua 20. Havia uma razão prática: preservar os lotes voltados para a Rua 19.
Jerônimo Coimbra Bueno discordou. E convenceu Dom Emanuel a colocar a Catedral no centro da quadra, para que tivesse maior destaque em relaçãoàs construções vizinhas.
Coimbra Bueno interferiu na implantação da Catedral. Isso não é lenda. É fato histórico. O que não sabemos — e aqui está o limite documental da investigação — é se ele interferiu também na orientação da fachada. Uma coisa é deslocar o edifício. Outra é girá-lo.
Não há nenhuma ata, carta, planta anotada ou depoimento contemporâneo dizendo que Jerônimo, Dom Emanuel ou Consolini determinaram que a igreja deveria dar as costas à Praça Cívica como afronta a Pedro Ludovico.
No entanto, há uma coincidência histórica grande demais para ser desprezada: quando a implantação definitiva foi decidida.
— Dom Emanuel é adversário histórico de Pedro.
— O religioso apoiara Jerônimo contra o candidato de Pedro.
— Jerônimo acabara de chegar ao governo.
— Ambrosina Coimbra Bueno comandava a comissão de arrecadação.
— E Jerônimo participa pessoalmente da decisão de implantação do edifício.
É neste momento — e não nos anos 1930 — que a pergunta sobre as costas da Catedral se torna realmente fascinante.
Quem virou a Catedral?
Talvez seja uma pergunta sem resposta. Porque não há honestidade em transformar uma excelente hipótese em documento que ainda não apareceu.
O que se conseguiu estabelecer é algo diferente e, talvez, mais interessante. A Catedral definitiva nasceu dentro de uma nova correlação de forças.
A velha rusga Pedro-Dom Emanuel encontrou, em 1947,outra disputa: Pedro–Jerônimo. E Dom Emanuel e Jerônimo estavam naquele momento do mesmo lado. Portanto, é perfeitamente legítimo perguntar:
As costas da Catedral guardam apenas uma velha divergência entre a Igreja e o Estado ou também carregam a disputa política entre Jerônimo Coimbra Bueno e Pedro Ludovico?
Ainda não há documento para responder afirmativamente.Mas já há documentos suficientes para fazer essa pergunta.
As costas
As cidades fazem isso quando seus documentos não dão conta de explicar seus símbolos. Elas inventam uma frase: “Dom Emanuel mandou construir a Catedral de costas para Pedro Ludovico”.
Trata-se de um enredo perfeito. Ou quase… Tem personagem, vingança, Igreja, poder e arquitetura. Com tais elementos se faz a história…Só lhe falta, até hoje, a prova definitiva.
A realidade que conseguimos encontrar é menos simples e muito mais rica. A Catedral passou pela devoção de Gercina, pelo projeto de uma cidade que ainda não existia, pela Praça do Cruzeiro, pelas terras destinadas à Igreja, pela primeira Matriz de 1937, pela velha disputa de Dom Emanuel com Pedro, pela eleição de 1947, pela aliança de Dom Emanuel com Jerônimo Coimbra Bueno, pela comissão presidida por Ambrosina, pela intervenção do próprio Jerônimo na implantação do templo, pela planta de Consolini, pela falta de dinheiro, pela morte de Dom Emanuel e pela persistência de Dom Abel.
Talvez, portanto, tenhamos passado décadas fazendo a pergunta errada. Não é apenas: “Por que Dom Emanuel virou a Catedral de costas para o Palácio das Esmeraldas?”
Primeiro, precisamos provar que foi Dom Emanuel quem a virou. Depois, descobrir se alguém realmente decidiu “virá-la”. E só então saber por quê.
Porque existe uma possibilidade muito mais interessante: as costas da Catedral podem não ser o resultado de uma única vingança, mas a cicatriz arquitetônica de várias disputas acumuladas.

Pedro contra Dom Emanuel; Pedro contra Jerônimo; Igreja versus Estado; Projeto x Cidade real; Praça do Cruzeiro e Praça Cívica; Gercina e Ambrosina. Cada uma em seu momento, costurando mundos diferentes em torno do mesmo personagem: a Catedral Metropolitana de Goiânia.
E aí voltamos ao quarto no sobrado da Rua 26. Àquela Nossa Senhora Auxiliadora junto à cama de Gercina. Não sabemos ainda se a pequena imagem esteve na igreja em 1937.
Não sabemos quem determinou definitivamente a orientação da Catedral. Mas há alguma coisa extraordinariamente goianiense nessa cena: Pedro Ludovico dormia ao lado de uma Nossa Senhora Auxiliadora. Sua mulher ajudou a dar à nova cidade essa devoção. Dez anos depois, o adversário político de Pedro participaria da decisão sobre a implantação da Catedral dessa mesma Nossa Senhora. E ela acabaria sendo construída a poucos metros do Palácio das Esmeraldas. Ao lado do poder (simbolizado pelo Palácio das Esmeraldas), mas de costas pra ele.
Talvez aquelas paredes ainda estejam contando uma história que os arquivos não terminaram de contar. Depois de quase 90 anos, a pergunta permanece diante de Goiânia: quantas disputas foram necessárias para que aquela Catedral terminasse exatamente daquele jeito?



