No Brasil, há um curioso fenômeno conhecido como o “católico de IBGE”. É aquele que se diz católico em pesquisas, mas, na realisade, não tem uma vida religiosa lá muito ativa. É quase um “me considero, mas não pratico”. Wilder Morais, senador e candidato ao governo de Goiás, pode ser classificado como um “bolsonarista de IBGE”.

Explico. Faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições, só agora Wilder parece ter decidido colar sua imagem na de Flávio Bolsonaro (PL), que concorre ao Palácio do Planalto com a missão de levar adiante o legado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (que hoje cumpre prisão domiciliar).

Isso porque, até aqui, com 20 dias de campanha nas ruas (sem contar a longa pré-campanha), o “bolsonarista” pouco fez campanha com o título reivindicado por muitos que levam o número “22”. Participou de sabatinas, fez visitas esporádicas a entidades, convidou-se para o lançamento de candidatos ao Legislativo aqui e ali e, novidade, surgiu como um quase autointitulado guardião da biografia de Iris Rezende, o histórico líder do MDB cuja filha hoje integra a chapa majoritária do PL.

Contudo, as pautas da direita, o discurso combativo contra o PT e a esquerda, enfim, o que ficou conhecido como ‘bolsonarismo raiz’, Wilder tem, digamos, um pouco mais de dificuldade de encampar. Toma-se como exemplo o debate da PUC TV, realizado em 30 de agosto. Ao longo do enfrentamento, o senador bateu bola com o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), seu antigo chefe e também postulante ao governo, e fez uma dobradinha com o tucano em vez de combater Luís César Bueno – candidato do PT que passou horas defendendo Lula sem ser sequer incomodado.

Empresário (“veio de baixo”, como gosta de destacar), Wilder deu seus primeiros passos na política em 2010, quando foi escolhido suplente do então senador Demóstenes Torres, candidato à reeleição.

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No ano seguinte, em 2011, eleito suplente, Wilder Morais assumiu o comando da Secretaria de Infraestrutura na gestão de Marconi. Mas foi em 2012 que a carreira política de Wilder decolou. A Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelou uma ligação entre Demóstenes e o contraventor Carlinhos Cachoeira. E o resultado foi: Demóstenes foi cassado e Wilder assumiu um mandato quase inteiro.

Em 2018, ano em que Jair Bolsonaro se elegeu presidente da República, Wilder tentou se manter no Senado, mas foi derrotado. Na época, simplesmente ele não era um bolsonarista. Dois anos depois, em 2020, foi candidato a vice-prefeito de Goiânia (na chapa com Vanderlan Cardoso, que hoje tenta se reeleger senador), mas sem sucesso. O empresário, de novo, fez campanha sem proximidade alguma com o então presidente.

Mas foi em 2022, na tentativa de manter viva sua carreira política, sem alternativa competitiva em Goiás, Wilder abraçou o bolsonarismo, liderado em Goiás pelos deputados Gustavo Gayer e Major Vitor Hugo, respectivamente candidados a senador e deputado federal. A mudança, aparentemente, surtiu efeito: Wilder se reergueu e foi eleito senador.

Para todos os efeitos, Wilder é, sim, um “bolsonarista de IBGE”. Na prática, não parecer colocar a mão na massa, a menos que lhe seja bastante conveniente. Agora, mesmo inerte, espera que o bolsonarismo o coloque no Palácio das Esmeraldas, missão bem complicada.