Por: Josana de Castro Peixoto, Estevão Martins Maciel, Julia Pádua Gouveia, Barbara Lucas Pereira, Grasielly Queiroz Pereira Salgado, Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski e Andreia Juliana Rodrigues Caldeira – Especial para o Jornal “Opção”

O rio Araguaia não representa apenas uma das maiores riquezas hídricas do Brasil Central, é também território de memória, ancestralidade, biodiversidade e resistência cultural. Em Aruanã, cidade marcada pela presença histórica de comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais, o Araguaia emerge como eixo estruturante de uma complexa rede de sociobiodiversidade que integra modos de vida, saberes populares, práticas de cuidado e relações sustentáveis com o Cerrado.

Ao longo das últimas décadas, tornou-se cada vez mais evidente que os povos originários e as comunidades tradicionais não apenas habitam o território, eles o conservam, o interpretam e o transformam em patrimônio biocultural. A dinâmica social existente às margens do Araguaia revela uma profunda interação entre cultura e natureza, evidenciando que a conservação ambiental depende diretamente da valorização das populações que historicamente protegem esses ecossistemas.

Nesse contexto, Aruanã ocupa posição estratégica para o fortalecimento de políticas voltadas à sociobiodiversidade, especialmente diante do potencial existente para o desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis associadas à flora medicinal do Cerrado. O debate contemporâneo sobre sustentabilidade socioambiental já não pode ser dissociado da valorização dos conhecimentos tradicionais, da bioprospecção ética e da inovação tecnológica socialmente comprometida.

O Cerrado como domínio morfoclimático e bioma-território

Frequentemente reduzido a uma paisagem de árvores tortuosas e clima seco, o Cerrado constitui um dos biomas mais biodiversos do planeta. Entretanto, compreendê-lo apenas por sua dimensão ecológica é insuficiente. O Cerrado é também território de vida, espiritualidade, alimentação, cura e pertencimento.

Em Aruanã e em toda a região do Vale do Araguaia, o Cerrado manifesta-se como espaço de coexistência entre diferentes povos e saberes. As comunidades indígenas da etnia Inỹ Karajá da aldeia Buridina e ribeirinhas mantêm relações históricas com espécies vegetais utilizadas para fins medicinais, alimentares, ritualísticos e terapêuticos. Essas práticas foram construídas ao longo de gerações e representam verdadeiros sistemas tradicionais de etnoconhecimento.

Plantas medicinais popularmente conhecidas como barbatimão, sucupira, jatobá, mangaba, arnica-do-cerrado, pacari e copaíba fazem parte do cotidiano dessas populações, sendo utilizadas no tratamento de inflamações, dores, problemas respiratórios, infecções e enfermidades diversas o que confirma que os povos tradicionais já dominavam formas complexas de manejo sustentável e utilização terapêutica da flora nativa.

A noção de bioma-território amplia o entendimento de que a biodiversidade não pode ser separada das relações humanas que a sustentam. A conservação do Cerrado significa também garantir os direitos territoriais, culturais e sociais das populações que vivem nele. Dessa forma, discutir sociobiodiversidade no Araguaia implica reconhecer que os conhecimentos tradicionais possuem valor científico, econômico e civilizatório.

Comunidades indígenas e ribeirinhas como guardiãs da sociobiodiversidade

As comunidades indígenas da etnia Inỹ Karajá da aldeia Buridina e a comunidade ribeirinha do Vale do Araguaia desempenham papel fundamental na proteção dos recursos naturais e na manutenção da diversidade biológica regional. Seus modos de vida tradicionalmente estabelecem limites sustentáveis de uso da terra, reconhecendo os ciclos ecológicos, períodos de coleta e práticas de manejo que mitigam e protegem o território.  

Da mesma forma, as populações ribeirinhas desenvolveram profunda conexão com os ciclos do rio, compreendendo as dinâmicas das cheias, da pesca, das espécies vegetais e das formas de ocupação do território. Essa interação contínua entre cultura e ambiente constitui um patrimônio imaterial de enorme relevância para o Cerrado goiano.

Em um cenário global marcado pelas mudanças climáticas, pelo avanço do desmatamento e pela perda acelerada de biodiversidade, essas comunidades têm assumido papel estratégico na conservação ambiental. Mais do que agentes de conservação, essas comunidades são produtoras de conhecimento e seus saberes sobre plantas medicinais, sementes, alimentos nativos e técnicas sustentáveis de manejo possuem potencial para contribuir de forma representativa com pesquisas científicas, desenvolvimento de cosméticos naturais, fitoterápicos e tecnologias sociais.

O reconhecimento da contribuição dos povos tradicionais para a conservação da biodiversidade e para a construção de conhecimentos sobre o Cerrado amplia as possibilidades de compreensão dos sistemas socioecológicos. Nessa perspectiva, o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes tradicionais configura-se como uma abordagem complementar, capaz de fortalecer pesquisas, subsidiar políticas públicas e promover estratégias de conservação e uso sustentável dos recursos naturais, respeitando os princípios éticos e legais que regem o acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado.

Em fevereiro de 2026, a equipe responsável pelas atividades de “Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do programa “Araguaia Vivo” (TWRA/FAPEG), associada também aos projetos “PPBio Araguaia” (PUC Goiás/CNP), e ao “Programa Ecológico de Longa Duração (PELD) Araguaia”, realizou pesquisas de campo em comunidades indígenas e ribeirinhas do Rio Araguaia, com o objetivo de documentar saberes locais relacionados à medicina tradicional e ao uso de plantas medicinais. Além da coleta de informações, essas atividades possibilitaram o reconhecimento das especificidades territoriais, das formas de ocupação e manejo do ambiente e das relações estabelecidas entre as comunidades e a biodiversidade do Cerrado. Estudos dessa natureza são essenciais para compreender a dinâmica dos territórios tradicionais, valorizar o etnoconhecimento associado aos recursos naturais e subsidiar estratégias de conservação da sociobiodiversidade, fortalecimento das comunidades locais e desenvolvimento de iniciativas de inovação fundamentadas no Conhecimento Tradicional Associado (CTA), em consonância com a legislação brasileira.

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Equipe do Araguaia Vivo 2030 em trabalho de campo na aldeia Buridina da etnia Inỹ Karajá em Aruanã, Goiás

Flora medicinal e potencial para cadeias produtivas sustentáveis

O Cerrado brasileiro possui enorme potencial farmacológico e biotecnológico ainda pouco explorado de forma sustentável. Em Aruanã, a riqueza florística associada aos conhecimentos tradicionais oferece oportunidades relevantes para a construção de cadeias produtivas voltadas ao desenvolvimento regional.

A bioprospecção, entendida como a pesquisa de recursos biológicos com potencial econômico e científico, surge como importante ferramenta para o fortalecimento da sociobiodiversidade. A construção de uma cadeia produtiva baseada em plantas medicinais do Cerrado pode envolver diferentes etapas: identificação e catalogação das espécies; registro dos conhecimentos tradicionais associados; cultivo sustentável; manejo ecológico; pesquisa fitoquímica; desenvolvimento de fitoterápicos; produção de cosméticos naturais; geração de cooperativas comunitárias; inserção em mercados sustentáveis. Esse modelo permite integrar conservação ambiental, inclusão social, inovação tecnológica e desenvolvimento econômico local, e as diversas universidades, institutos de pesquisa, laboratórios públicos e iniciativas privadas podem atuar conjuntamente com as comunidades tradicionais para estruturar programas de pesquisa e desenvolvimento voltados ao aproveitamento sustentável da biodiversidade regional.

O conhecimento sobre o uso medicinal das plantas constitui um dos elementos centrais dessa cadeia de inovação. Muitas espécies do Cerrado já demonstram propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e cicatrizantes, despertando interesse da indústria farmacêutica e cosmética. Entretanto, ainda existem desafios relacionados à regulamentação, proteção intelectual, repartição de benefícios e incentivo à pesquisa nacional.

Em Aruanã, Goiás, a equipe visitou os quintais das comunidades ribeirinhas e urbanas e perceberam que esses locais constituem importantes espaços de conservação da agrobiodiversidade e de manutenção do etnoconhecimento relacionado às plantas medicinais. Esses ambientes domésticos reúnem espécies nativas do Cerrado e plantas introduzidas formando sistemas diversificados que atendem às necessidades de cuidado com a saúde, alimentação e bem-estar das famílias. Além de seu valor prático, os quintais representam espaços de transmissão intergeracional de conhecimentos, nos quais técnicas de cultivo, formas de preparo e indicações terapêuticas são compartilhadas entre diferentes gerações.

Nas comunidades ribeirinhas, a proximidade com o Rio Araguaia e com os remanescentes de vegetação do Cerrado favorece a integração entre espécies cultivadas e aquelas coletadas em ambientes naturais, ampliando a diversidade de recursos utilizados na medicina tradicional. Já nas áreas urbanas de Aruanã, os quintais desempenham papel relevante na conservação de espécies medicinais, especialmente diante das transformações no uso do solo e da crescente urbanização. Em ambos os contextos, esses espaços contribuem para a preservação do patrimônio biocultural local, fortalecem a autonomia das comunidades no uso de recursos terapêuticos e evidenciam a importância dos conhecimentos tradicionais para a conservação da sociobiodiversidade.

O reconhecimento da riqueza florística e cultural desses quintais também oferece oportunidades para pesquisas em etnoconhecimento, etnofarmacologia, conservação da biodiversidade e inovação baseada na natureza. Dessa forma, os quintais podem ser compreendidos como laboratórios vivos de interação entre sociedade e ambiente, nos quais o manejo sustentável das plantas medicinais favorece tanto a valorização do Conhecimento Tradicional Associado (CTA) quanto o desenvolvimento de ações de educação ambiental, saúde coletiva e uso sustentável da biodiversidade do Cerrado.

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Visitação e coleta de espécimes e saberes locais em quintais urbanos em Aruanã, Goiás

A sociobiodiversidade do Cerrado nas comunidades do Rio Araguaia, em Aruanã, Goiás, evidencia que a conservação da biodiversidade está intrinsecamente vinculada à valorização dos povos originários e das comunidades ribeirinhas e de seus sistemas de etnoconhecimento. Muito além de constituírem um conjunto de práticas sobre o uso de plantas e demais recursos naturais, esses saberes representam formas de compreender, manejar e conservar o território, construídas ao longo de gerações por meio da observação, da experiência e da transmissão intergeracional.

 Nesse contexto, os estudos territoriais assumem papel estratégico ao revelar as múltiplas relações entre ambiente, cultura e identidade, permitindo reconhecer o Cerrado não apenas como um reservatório de biodiversidade, mas como um patrimônio biocultural que abriga conhecimentos essenciais para a conservação, a segurança alimentar, a saúde coletiva e a inovação baseada na natureza. A Atividade 4 (Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais) fortalece essa perspectiva ao promover o diálogo entre comunidades, pesquisadores e instituições, ampliando a participação social, valorizando os conhecimentos locais e consolidando processos colaborativos voltados ao desenvolvimento sustentável do território.

Sob essa perspectiva, o Cerrado resguarda um patrimônio material e imaterial cuja proteção depende da articulação entre ciência, políticas públicas e reconhecimento dos direitos das comunidades detentoras desses saberes. O Conhecimento Tradicional Associado (CTA), compreendido como o conjunto de saberes e práticas de povos indígenas e comunidades tradicionais relacionados às propriedades da biodiversidade e dos recursos genéticos, constitui elemento central para pesquisas dessa natureza que estão sendo realizadas pela equipe em bioprospecção, desenvolvimento de medicamentos, cosméticos e outras soluções inovadoras de base biológica, uma vez que no Brasil, esse patrimônio é protegido pela Lei nº 13.123/2015, que estabelece mecanismos para o acesso ao patrimônio genético e ao CTA, assegurando a repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes de sua utilização.

Assim, iniciativas de mobilização e ações formativas desenvolvidas junto às comunidades do Rio Araguaia contribuem não apenas para a preservação dos conhecimentos tradicionais, mas também para sua valorização ética e legal, fortalecendo a autonomia dos povos originários e comunidades ribeirinhas promovendo a inovação social e tecnológica e reafirmando o Cerrado como um território de saberes, memória, diversidade e futuro.

Confira quem são os autores do artigo

Josana de Castro Peixoto – Professora da Universidade Estadual de Goiás e da Universidade Evangélica de Goiás e vice-coordenadora das atividades de “Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030” e pesquisadora colaboradora pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”. Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”, do PPBio Araguaia, do INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio) e do Projeto “Condefé tem cagaita e gabiroba no Cerrado”.

Estevão Martins Maciel – Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Goiás e mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Territórios e Expressões Culturais do Cerrado (PPG TECCER/UEG). Pesquisador do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Julia Pádua Gouveia– Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e pesquisador do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Barbara Lucas Pereira – Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Grasielly Queiroz Pereira Salgado– Graduanda em Farmácia pela Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski – Professora da Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”. Integrante do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do “PPBio Araguaia”.

Andreia Juliana Rodrigues Caldeira – Professora da Universidade Estadual de Goiás e coordenadora das atividades de “Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030”. Pesquisadora responsável pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”, no INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), no PELD Araguaia e CEHIDRA CERRADO. Coordenadora do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”.