Por: José Alexandre Felizola Diniz Filho, Thais Rodrigues Oliveira, Andreia Juliana Rodrigues, Ana Clara Diniz e Mariana Pires de Campos Telles – Especial para o Jornal “Opção”

Encerra-se neste domingo (21/06/2026) mais uma edição do “Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental”, o FICA 2026, que acontece há mais de duas décadas na cidade de Goiás. Ao longo dos vários dias do evento, inúmeras atividades e eventos chamaram atenção para os diversos problemas ambientais, e foi possível acompanhar e ver de perto o trabalho de diferentes pessoas que buscam entender esses problemas e, mais importante, propõem maneiras criativas de enfrentá-los. O tema do FICA 2026, “Água e Clima no Brasil das Nascentes”, alerta para as questões de segurança hídrica em um mundo em mudança, algo realmente importante para o futuro da nossa sociedade e, de fato, da Humanidade como um todo.

Analisando a programação do FICA 2026, vemos uma diversidade de eventos e atividades que congregam artistas, cientistas, jornalistas, ativistas, empresários e diversos outros setores da sociedade preocupados com a questão ambiental. Além da exibição e premiação dos filmes e documentários, shows artísticos e promoção de atividades culturais locais e regionais, o FICA tradicionalmente organiza mesas redondas, rodas de conversa e palestras sobre a temática ambiental, com um caráter científico. No caso dos nossos projetos na região do Araguaia, em 2025 foi lançado no FICA o documentário premiado “Expedição Araguaia”, retratando uma das expedições científicas que ocorreram nos últimos anos (veja aqui uma reportagem sobre os bastidores dessa produção, publicada anteriormente aqui no “Araguaia em Foco”. 

Nessa edição de 2026, aconteceram no FICA diversas exposições, mesas redondas e palestras apoiadas por uma associação de projetos, que incluem o “Araguaia Vivo” (TWRA/FAPEG), o “PPBio Araguaia” (PUC Goiás/CNP), o “Programa Ecológico de Longa Duração (PELD) Araguaia”, o INCT EECBio (UFG/CNPq), o “Mulheres Cientistas em Rede” (UEG/CNPq) e a Rede BioGenomas (PUC Goiás/CNPq), além dos Centro de Excelência da FAPEG em Genética e  Genômica (CEGGen da PUC Goiás/CNPq), e o Centro de Excelência em Recursos Hídricos (Cehidra Cerrado) da UEG

Promovemos em 2026 a segunda edição do sessão “Araguaia Vivo”, que incluiu a exibição do documentário “Mulheres da pesca no Araguaia”(Thais Oliveira, Mariana Telles, 16min, doc), a animação “O Mundo Aquático de Micra(Thais Oliveira, Fernanda Carneiro, 08min,ani) e o lançamento do novo documentário “Turismo de Natureza no Araguaia(Thais Oliveira, Mariana Telles, 25min, doc). Outro ponto de destaque foi a criação uma experiência imersiva em Cinema 360° (FullDome), intitulada “O Cerrado no Caminho das Águas“, um filme que leva o público a acompanhar o percurso das águas desde uma nascente do rio Araguaia até o mar, conhecendo paisagens, ecossistemas e comunidades conectadas por esse caminho. A iniciativa busca aproximar ciência e sociedade, promovendo a valorização e a conservação do Cerrado. 

A seção” Araguaia Vivo”2026 incluiu a exibição do documentário “Mulheres da pesca no Araguaia”, a animação “O Mundo Aquático de Micra” e o lançamento do novo documentário “Turismo de Natureza no Araguaia.

Nesse sentido, outra atividade extremamente importante e que ilustra o caráter científico do FICA foi um painel sobre “O futuro do Cerrado e o Futuro do Brasil: Perspectivas com o Instituto Nacional do Cerrado”. O Instituto Nacional do Cerrado (INC) é uma associação civil cuja criação foi promovida por dirigentes e pesquisadores de 19 instituições de ensino superior e pesquisa ligadas ao bioma, estando provisoriamente sediado na Universidade de Brasília (UnB). A partir de sua criação, o INC pleiteará sua qualificação como Organização Social (OS) e buscará sua vinculação ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), nos moldes de instituições e centros de pesquisa já consolidados por meio de parcerias semelhantes. Outro painel, promovido pelo INCT EECBio, discutiu os “Desafios para análises integradas da resposta da biodiversidade à mudança climática”.

Alguns dos debates e mesas-redondas científicas do Fórum “Horizontes” no FICA 2026, envolvendo a comunidade científica e representantes de diversas instituições, entre os quais diversos pesquisadores dos projetos consorciados associados ao Araguaia.

Essas diversas ações, sem dúvida, mostram a integração entre arte e ciência em torno de um objetivo comum, a discussão das questões ambientais, suas consequências e das soluções para enfrentar os muitos problemas. Mas, ao mesmo tempo, essas ações revelam diversos aspectos interessantes sobre como as definições de arte e da ciência e sobre como elas, no fundo, se retroalimentam em torno de diversos pontos de vista comuns.

Em um primeiro momento, a maior parte das pessoas vai entender arte e ciência como atividades muito distintas, visões de mundo diferentes, em algumas vezes diametralmente opostas. Isso pode ser exemplificado por algumas dicotomias, como “objetividade versus criatividade”, ou “razão versus emoção”. Mas essas são, de fato, falsas dicotomias, mas para entender isso precisamos fugir das visões mais simplistas tanto de arte quanto de ciência.

As diversas expressões artísticas, música, dança, teatro, pintura, escultura, procuram despertar nossas emoções e nos encantam. Mas, ao mesmo tempo, essas expressões procuram de diversas formas representar aspectos da realidade e do dia a dia das pessoas, ampliar a comunicação entre elas e chamar atenção para as questões e preocupações existentes em seu tempo. Sem dúvida, isso tem um enorme potencial de mudar os rumos da sociedade, ao gerar engajamento sobre os temas de interesse e criar referências, tanto pessoais quanto em termos de conhecimento, que subsidiam essas mudanças. Então, podemos pensar que um dos objetivos do FICA é utilizar o “instrumental” das artes e da cultura para chamar atenção da sociedade dos problemas ambientais, que por definição vai possuir um forte apelo emocional.

 A ciência, por sua vez, de forma simplificada, procura descrever e entender a realidade por meio de teorias e modelos matemáticos ou conceituais. A maior parte das pessoas possui uma visão estereotipada da ciência e do(a)s cientistas, como pessoas que percebem o mundo e seus objetos de pesquisa de forma extremamente “racional” e “objetiva”, independente de aspectos políticos, culturais e sociais. Embora esses princípios de racionalidade e objetividade sejam de fato importantes e valorizados na comunidade científica, na prática há várias nuances importantes aí. A ciência, para usar a expressão de Karl Popper, um dos mais influentes filósofos da ciência do século XX, possui um “compromisso com o real”. Mas embora o objetivo da ciência seja entender a realidade objetivamente, há muitas discussões sobre a nossa capacidade, como seres humanos, de conseguir efetivamente representar a complexidade da natureza e da sociedade, e sempre há diferentes perspectivas e pontos de vista alternativos. E aí aparece um aspecto da ciência que é pouco comentado e discutido, a questão da criatividade para identificar novos problemas e encontrar soluções, bem como o componente emocional dos cientistas que sempre se “encantam” com suas descobertas ou criações. As teorias científicas são um produto da mente humana, por mais que eles estejam ancorados na realidade. 

Vivemos em uma sociedade tecnológica onde, em última instância, todos os aspectos da nossa vida são guiados ou medianos pela ciência, em termos práticos. Assim, não é surpreendente que as pessoas tenham uma visão mais “utilitarista” da ciência, simplesmente uma maneira sofisticada de resolver vários problemas que enfrentamos diariamente. Mas há, paradoxalmente, diversas contradições nisso, pois em muitos casos as soluções dadas pela ciência são questionadas se vão em uma direção contrária a visões de mundo ou interesses econômicos e políticos. Pessoas com uma visão religiosa mais arraigada e fundamentalista não “acreditam” na teoria da evolução porque ela vai (aparentemente) contra algumas de suas crenças. Ao mesmo tempo, crescem diversos outros movimentos anticientíficos, como o movimento antivacina e o negacionismo climático e ambiental. Por baixo de todas essas visões contrárias à ciência há sempre interesses ligados à ampliação do poder político ou ambições financeiras com uma visão imediatista, em geral financiados por grandes grupos ou corporações. Por sua enorme influência e poder social e econômico, estas são capazes de influenciar multidões, um fenômeno que praticamente fugiu ao controle com o advento da internet e das redes sociais. 

Muitos não entendem como a pseudociência e o negacionismo ganharam força nos últimos anos, de forma realmente paradoxal, porque assumem que as pessoas, no início do século XXI, fazem escolhas racionais e com base na informação. Mas isso não é bem verdade, sabemos que há um forte componente emocional nas tomadas de decisão pessoal. Pensando bem, os movimentos de negacionismo e de desinformação sempre apelam para esses componentes emocionais e sensacionalistas, promovendo também as famosas “teorias da conspiração” que despertam paixões em torno dos temas polêmicos (que, em geral, não são de fato polêmicos…). Nesse sentido, as emoções podem ser a chave para guiar a sociedade, o que permite entender mais uma importante conexão entre ciência e arte. 

Não há dúvida de que temos atualmente sérios problemas ambientais e já há muitos anos os cientistas vêm alertando a sociedade e os tomadores de decisão sobre eles. Estamos próximos a diversos “pontos de não-retorno” e já podemos medir impactos concretos, em termos econômicos e sociais, desses problemas. Às vezes, por problemas de escala e percepção, as pessoas não percebem isso com clareza, o que abre espaço para que o negacionismo seja utilizado para justificar ações contra as questões ambientais por parte daqueles que possuem interesses políticos e econômicos de curto prazo. Tivemos, por exemplo, projetos de lei recentes aprovados no Congresso Nacional que enfraquecem toda a política ambiental no Brasil (que já é frágil…), que receberam duras críticas de pesquisadores em todo Brasil. Não se trata de ser contra o desenvolvimento econômico, é simplesmente uma questão de equilíbrio e de conscientização, compreendendo que é preciso conservar o ambiente e os recursos naturais para que possamos justamente continuar esse desenvolvimento. Nesse sentido, a palavra de ordem é “sustentabilidade”! Essa sustentabilidade, ao contrário do que muitos entendem, se refere ao desenvolvimento e não (apenas) à preservação ambiental. O documentário lançado no FICA sobre turismo no Araguaia ilustra muito bem essa ideia!

Como temos evidências científicas desses problemas, espaços como o FICA se tornam extremamente importantes porque trazem mais explicitamente uma bagagem emocional para apresentar as questões ambientais à sociedade. Por mais que se negue e ainda que haja muita incompreensão sobre as múltiplas dimensões do impacto da degradação do meio ambiente, no final estamos falando da nossa vida e do futuro dos nossos filhos, dos nossos netos e das gerações seguintes. Então, ainda que haja uma base factual sólida na identificação de tantos problemas ambientais e suas consequências, apenas a informação científica não é suficiente, e nesse sentido as artes podem passar a ser uma poderosa aliada para que a sociedade tenha uma compreensão mais realista desses problemas!

Cientistas e artistas, de modo geral, compartilham visões de mundo e atitudes diante da vida e da sociedade. Valorizam uma visão crítica da sociedade, defendem a justiça social, a liberdade de expressão e o livre pensamento. Não é à toa que, quando se instalam regimes totalitários ou de extrema direita, em todo o mundo, artistas e cientistas (especialmente aqueles trabalhando nas universidades) são imediatamente perseguidos, ridicularizados e desacreditados. Isso fica sempre muito claro no contexto ambiental, quando a posição de ecólogos, jornalistas e ativistas ambientais entra em confronto com grandes interesses comerciais que não entendem os conceitos de sustentabilidade e possuem uma visão retrógrada da economia e do desenvolvimento econômico e social. O mesmo acontece quando artistas se manifestam a favor dessas questões. 

A arte e a ciência fazem parte do nosso cotidiano e, mais do que isso, podem ser instrumentos importantes para definir o nosso futuro, guiando nossas ações. Visões conservadoras de curto prazo, bem como tecnocratas e fundamentalistas, colocam que “… não precisamos de artistas, mas sim de engenheiros e médicos”. A mesma crítica é feita a ativistas ambientais, jornalistas e a cientistas, especialmente àqueles que trabalham com conhecimento básico. Dizer que precisamos de médicos e engenheiros reforça a visão utilitarista e, em muitos aspectos, distorcida da maneira como a ciência funciona (esquecendo, por exemplo, que engenharia e medicina de alto nível dependem de boa pesquisa básica em biologia, química, física e matemática, dentre outras áreas). A ciência criativa e apaixonada se aproxima da arte, iluminando nossas vidas, ao contrário da visão imediatista, amarga e agressiva de muitos desses críticos. Temos muitos desafios para os próximos anos e devemos, com certeza, nos afastar dessas visões retrógradas. Parafraseando Zélia Duncan em seu poema “Vida em Branco”, podemos entoar em coro algo como “Você não precisa de artistas? Então, me devolve os momentos bons, os versos roubados de nós…Vai dormir com raiva, e acordar sem sonhos, sem nada… Nos deixe de fora desse mundo perverso, amargo, sem graça, sem alma”. 

Confira quem são as autoras do artigo

José Alexandre Felizola Diniz Filho – Professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenador do INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), coordenador científico do programa “Araguaia Vivo 2030” e pesquisador do PPBio Araguaia e PELD Araguaia. 

Thais Rodrigues Oliveira- Professora do curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e pesquisadora no “PPBio Araguaia” e no Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Andreia Juliana Rodrigues – Professora da UEG, coordenadora da atividade “Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030”, coordenadora do projeto “Mulheres Cientistas em Rede”, e pesquisadora responsável pela educação ambiental no PPBio Araguaia.

Ana Clara Diniz – Publicitária, MBA em “Marketing, Branding e Growth” e bolsista na atividade “de Mobilização, Sensibilização e Capacitação de Atores Locais” do Programa “Araguaia Vivo 2030”.

Mariana Pires de Campos Telles – Professora da PUC Goiás e da UFG, coordenadora geral do Programa “Araguaia Vivo 2030”, do PPBio Araguaia (PUC Goiás / CNPq) e do Centro de Excelência em Genética e Genômica (CEGGEN) da PUC Goiás.