O período de estiagem em Goiás tem intensificado os riscos de queimadas, que já provocaram prejuízos estimados em R$ 710 milhões para o agronegócio e a economia do Estado. A vegetação seca, a baixa umidade do ar, as altas temperaturas e os ventos criam condições favoráveis para que pequenos focos de fogo se transformem em grandes incêndios, atingindo áreas produtivas, propriedades rurais, vegetação nativa e reservas ambientais.

Ao Jornal Opção, o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (Aeago), Fernando Barnabé, destacou, nesta quinta-feira, 20, que os impactos são sentidos em diferentes setores. “O ano passado [2025] nós tivemos aí tanto a pecuária, várias pastagens que foram queimadas, várias matas, reserva, porque o fogo, você perde o controle dele, também afetou as matas, as reservas, as APPs [Áreas de Preservação Permanente]. E tivemos também palhadas de soja, milho. Tivemos vários também incêndios e isso diminui muito o poder de potencial de produção”, disse.

Segundo levantamento do Instituto Mauro Borges (IMB), entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 60% das áreas atingidas eram produtivas, o equivalente a quase 102 mil hectares. O estudo apontou ainda crescimento de 40% nas queimadas em áreas produtivas na comparação com o mesmo período de 2023. Já a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) registrou 448.956 hectares atingidos pelo fogo em todo o ano de 2024, sendo 51,7% relacionados a atividades agropecuárias.

Diante desse cenário, Barnabé chamou a atenção para a necessidade de reforçar as medidas preventivas. “Por parte dos produtores, a recomendação é ficar atento, usar aceiros nas propriedades, manter todos os funcionários em alerta e ter o cuidado de não queimar lixo no quintal. Em relação à população, as pessoas devem evitar jogar cigarro nas estradas rurais. E também que os batalhões de Polícia Florestal, toda polícia, toda a comunidade fiquem atentas em relação ao fogo criminoso”, explicou.

Fernando Barnabé: “o produtor precisa entender que prevenção é planejamento” | Foto: Acervo pessoal 

Sobre a queima controlada, o presidente da Aeago explicou que a prática só é permitida em situações específicas e mediante autorização dos órgãos competentes. “Tem algumas situações que a legislação permite a queima, como na cana-de-açúcar, dependendo do lugar. Mas é bom ressaltar que você precisa contratar um engenheiro agrônomo e esse engenheiro agrônomo entrar com um projeto nos órgãos ambientais. Só pode mediante licença do Estado. Existe um rigor da lei”, afirmou.

Impactos vão além das lavouras

Segundo Barnabé, as queimadas também afetam diretamente o Cerrado e a biodiversidade, além de trazer consequências para a saúde da população, inclusive nas áreas urbanas. “A fuligem que é soltada pelo fogo dá problema respiratório na população. Muitas pessoas, principalmente quem sofre de asma, são acarretadas problema seríssimo. O fogo aumenta mais a temperatura, então é um problema de saúde”, apontou.

A recuperação das áreas atingidas representa outro desafio, especialmente pelos custos e pelo tempo necessário para recompor a vegetação. “Os desafios são os custos. Você tem que comprar muda de árvores, adubo, fazer isolamento das áreas. O custo do reflorestamento é altíssimo. O tempo também, nós gastamos aproximadamente 20 anos para que o que foi reflorestado comece a dar resultado”, disse.

Ele ressaltou que, mesmo quando o incêndio tem origem criminosa, os prejuízos acabam recaindo sobre o proprietário da área atingida. “Esse custo, mesmo este incêndio vindo criminoso, recai todo sobre o produtor”, afirmou.

El Niño pode ampliar risco

O fenômeno climático El Niño também pode contribuir para o aumento do risco de queimadas ao favorecer temperaturas mais elevadas e períodos prolongados de estiagem. “O fenômeno, com chuvas concentradas e maiores períodos de seca, passa a ser mais propício a incêndios. O El Niño já traz temperaturas maiores. Nós já temos a questão do Cerrado, que é seco, uma savana. Isso influencia com aumento de temperatura. Aumentou a temperatura, o fogo passa a ser um ambiente de predisposição”, disse.

Por fim, Fernando Barnabé reforçou o alerta para que produtores rurais e a população redobrem os cuidados durante o período de estiagem. “Nós, da Associação dos Engenheiros Agrônomos, alertamos toda a população em geral, toda a sociedade, as pessoas que quando vão sair da cidade, viajar nos fins de semana, tenham muito cuidado com cigarro e com o fogo”, afirmou.

“Que as pessoas que têm costume de fazer esses incêndios criminosos revisem, porque estão contra a humanidade, contra eles próprios. E também aos produtores, que aumentem o cuidado, fiquem atentos, avisem seus funcionários, seus colaboradores, para que tenham cuidado até mesmo com queimar um lixo no quintal e ficar em alerta nesse período”, finalizou.

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