Em um passeio por certas ruas da capital goiana é possível perceber o motivo dela ser considerada uma cidade verde, afinal é a 2º capital do Brasil com mais parques. Entretanto, se o passeio se estender para além das áreas nobres e caminhar para determinadas localidades urbanas a vista começa a ser tomada por tons de marrom e de cinza.

Essa percepção levanta algumas perguntas: como são definidas as localidades dos parques e das praças? Até onde a presença de condomínios privados interfere nas construções públicas? Bairros nobres contam com mais preservação urbana de órgãos públicos do que bairros periféricos?

Na busca de responder estas perguntas o Jornal Opção realizou um levantamento da quantidade de praças por bairro da cidade e entrevistou os arquitetos Igor Romano e Renato Rocha.

Renato explica que a localização dos parques é definida por onde se encontram nascentes reservas nativas e matas remanescentes da vegetação local “porque os parques de Goiânia, do projeto inicial do Attilio, que é o Bosque dos Buritis, o Lago das Rosas, o Mutirama ali com Botafogo, eram todos parques originais do projeto, inclusive o próprio Areião que era o local de captação de água. Então, esses parques, assim, já existiam, vamos dizer, naturalmente”.

Mesmo os parques contruídos posteriormente seguem essa lógica. “Então, os parques, para entender nessa lógica direito, um parque não faz parte do projeto de loteamento. Ele vem com a cidade”, diz Renato. Ele conta sobre o nascimento da cidade de Goiânia e com foram sendo definidos os locais com parques “No começo, a cidade de Goiânia era tudo aberto, você não tinha condomínio fechado. Então, você projetou a cidade entre as matas, entre os parques”.

Parque Lago das Rosas. Foto: Prefeitura

O arquiteto explica ainda como é o projeto de preservação dos parques. “As calçadas, iluminação, mobiliário urbano. Dá condições para ser um parque. O parque não pode ser um local jogado ou perigoso. A administração pública é responsável pelo parque”. No entanto, segundo ele, nem sempre a prefeitura tem o dinheiro necessário para criar e manter essas estruturas e, assim, surgem as parcerias público-privadas.

Dessa forma, as regiões com menos iniciativas privadas ficam com menos áreas de lazer, como praças e parques. Igor comenta essa diferenciação: “A distribuição não é homogênea. As regiões mais consolidadas e com alta concentração de renda são as mais beneficiadas. Os bairros periféricos carecem de, principalmente, equipamentos esportivos e de lazer”.

“Os bairros com maior concentração de renda geralmente possuem parques mais estruturados e com maior qualidade de manutenção. Ao meu ver, isso acontece pela presença das incorporadoras que criam uma boa relação de parceria público privada, e investem na manutenção desses espaços”, detalha.

Entretanto, ele faz uma ressalva em relação às expectativas futuras. “Há um crescimento de excelentes estruturas próximas aos bairros com menor concentração de renda e a tendência é que isso melhore, pois Goiânia tem diversos espaços verdes que ainda carecem de investimentos”.

Confira o gráfico que ilustra como acontece a concentração de áreas de lazer em determinados bairros, em que há apenas um bairro com 29 áreas, enquanto existem 193 bairros com apenas 1:

Os onze bairros com 10 ou mais áreas de lazer são:

  • Setor Central – 29 áreas
  • Jardim Novo Mundo – 20 áreas
  • Setor Aeroporto – 18 áreas
  • Setor Novo Horizonte – 16 áreas
  • Setor Jaó – 15 áreas
  • Vila Redenção – 14 áreas
  • Vila Jardim Pompéia – 12 áreas
  • Jardim Vila Boa – 11 áreas
  • Setor Oeste – 11 áreas
  • Jardim América – 10 áreas
  • Setor Bueno – 10 áreas

Dentre os 193 bairros com apenas uma área lazer estão a Vila Finsocial, o Residencial Recanto do Bosque e o Residencial Estrela Dalva. Também há bairros considerados nobres, como o Alto da Glória, mas há de se considerar a extensão geográfica dessa localidades.

Para efeito de comparação, o Jornal Opção também levantou o número de bairros com o metro quadrado mais caro e o mais barato da cidade. Veja a lista com a quantidade de áreas de lazer de cada um:

BairroValor médio m² (R$)
Setor Marista – 7 áreas13.300
Jardim Goiás – 9 áreas12.900
Setor Bueno – 10 áreas12.800
Setor Oeste – 11 áreas12.650
Nova Suíça – 5 áreas12.400
Setor Sul – 7 áreas11.900
Setor Pedro Ludovico – 4 áreas11.700
Setor Bela Vista – 1 área11.500
Setor Universitário – 7 áreas11.300
Alto da Glória – 1 área11.100

Confira também a tabela com alguns dos bairros com o valores do metro quadrado mais baixos registrados em Goiânia:

BairroValor médio m²
Residencial Recanto das Garças – 1 áreaR$ 3.300
Residencial Recanto do Bosque – 1 áreaR$ 700 (valor do lote)
Residencial Ytapuã – 1 áreaR$ 3.000
Setor Cândida de Morais – 1 áreaR$ 5.500
Setor Castelo Branco – 1 áreaR$ 6.000
Setor Centro Oeste – 1 áreaR$ 5.000

Com a definição dos parques sendo pré-definida por estruturas naturais tais como nascentes e matas remanescentes, torna-se essencial um sistema de transporte público que integre as diferentes regiões da cidade para populaçãoes de bairros periféricos que ficam afastados das regiõe siniciais da cidade possem viver esses espaçoes de convivência, sobre isso, Igor comentou “Para mim a questão do transporte público é um dos maiores desafios de nossa capital. Nossa cidade não é verdadeiramente inclusiva no sentido de transporte público”.

Renato Rocha apresenta uma perspectiva diferente, ele afirma que os principais parques estão bem interligados a transportes público, com exceção do Flamboyant, que ainda assim, diz ele, pode ser facilmente acessado de parque.

“Os parques de Goiânia de originais estão muito bem integrados ao sistema de transporte. O zooógico , Lago das Rosas está na Anhanguera, o Bosque dos Buritis está também, o Areião está na 90 que é um grande eixo do transporte, o Vaca Brava também está na T-10”, diz.

Ele continua: “Há uma grande dificuldade de deslocamento, pois ao meu ver temos poucas opções de transporte público. Há uma necessidade de maiores investimentos em calçadas por exemplo, melhorando a acessibilidade para pedestres. Mais ciclovias e espações destinados a patinetes elétricos”.

A presença de praças apresenta uma capilaridade maior que a dos parques e elas ainda contam com papéis essenciais no dia-a-dia da população. Igor afirma que “áreas verdes ajudam na drenagem e melhoram a qualidade de vida dos habitantes”. “Há diversos estudos concretos que mostram uma relação de diminuição do nível de stress com a presença desses ambientes”.

Renato afirma que parques e praças desempenham funções distintas na dinâmica urbana, embora ambos sejam fundamentais para a qualidade de vida nas cidades. Segundo o especialista, os parques costumam ser locais de permanência, onde as pessoas passam mais tempo realizando atividades de lazer, exercícios físicos ou convivência social. “Geralmente as pessoas vão e ficam um tempo lá”, explica. Ele observa que a presença de equipamentos como academias ao ar livre, parques infantis e estruturas de apoio torna esses espaços ainda mais atrativos para os moradores.

Além do papel recreativo, Renato ressalta a importância ambiental dos parques. Para ele, esses espaços funcionam como verdadeiros “pulmões verdes” das cidades. Por concentrarem áreas arborizadas e remanescentes de vegetação, contribuem para a melhoria da qualidade do ar e para o equilíbrio ambiental urbano. “Eles fazem essa dinâmica da própria limpeza do ar, dessa cidade mais limpa”, afirma.

As praças, por outro lado, possuem características mais variadas. Embora também possam servir para o lazer e a convivência, muitas vezes exercem uma função de circulação e conexão entre diferentes pontos da cidade. O arquiteto cita como exemplo a Praça Universitária, em Goiânia, utilizada diariamente por estudantes e moradores como área de passagem entre instituições de ensino e outros espaços urbanos.

O especialista observa que as praças não dependem necessariamente da presença de grandes áreas verdes para cumprir sua função. Em alguns casos, elas são concebidas com propostas arquitetônicas diferentes, priorizando espaços abertos e usos específicos. No entanto, no contexto brasileiro, a arborização costuma ser um elemento importante devido às condições climáticas e à necessidade de oferecer sombra aos usuários.

Renato também chama atenção para o papel social das praças, especialmente nos bairros periféricos. Nesses locais, é comum encontrar equipamentos voltados ao esporte e ao lazer, como quadras, pistas de skate e campos de futebol. Para ele, esses elementos ampliam a capacidade de atração dos espaços públicos e fortalecem seu papel como pontos de encontro da comunidade.

Ao mesmo tempo, ele alerta que nem todas as praças oferecem condições adequadas de uso. Segundo o arquiteto, algumas apresentam infraestrutura precária e mobiliário urbano pouco confortável. “Tem aquelas praças que, realmente, se você for pensar em termos de qualidade, têm pouca qualidade”, comenta. Entre os aspectos que merecem atenção está a instalação de bancos adequados para estimular a permanência e a convivência entre os frequentadores.

Na avaliação do arquiteto, tanto parques quanto praças são essenciais para a vida urbana, mas cumprem papéis complementares. Enquanto os parques se destacam pela permanência, pelo lazer e pela preservação ambiental, as praças funcionam como espaços de convivência cotidiana, circulação e integração social dentro da cidade.

Ambos arquitetos concordam que a presença de parques e praças aumentam o valor médio das residenciais próximas, Igor disse “, a presença de um parque alavanca a economia da região. Empreendimentos próximos a parques apresentam valorização superior a média de outras regiões”. Renato falou “Logisticamente, quando você faz um edifício em frente a uma praça, você tem mais valor mesmo, porque a pessoa desceu, tem onde passear, passear com seu cachorro, fazer, né, fazer uma volta”.

Renato afirma que vê como benficente essa relação entre o público e o privado, ele explica “Então, a iniciativa privada investir dinheiro em espaço público em troca de algo que ela vai ter um lucro, é lógico. Mas ela vai estar trazendo a qualidade para a cidade, que a praça, na verdade, é de todo mundo, não é só de quem mora em frente ao prédio, ela é pública”.

Goiânia, Cidade Verde?

Os arquitetos demonstram as suas respectivas opiniões sobre se Goiânia ainda pode ser consideradas uma cidade verde e o que deve ser feito para que esse título continue sendo justo à capital de Goiás.

Para Igor, o principal desafio está em conciliar o avanço do mercado imobiliário com a preservação ambiental. Segundo ele, o crescimento acelerado da cidade exige ações que garantam a proteção das áreas verdes estratégicas e a recuperação dos cursos d’água que atravessam Goiânia. “Temos o grande desafio de melhorar a mobilidade e o trânsito, mas sem ferir as ilhas verdes”, afirma. Na avaliação do arquiteto, o futuro da cidade depende de administrações capazes de integrar crescimento imobiliário, mobilidade urbana e qualidade de vida.

Renato concorda que Goiânia ainda se destaca no cenário nacional pela abundância de áreas verdes. Para ele, poucas cidades brasileiras conseguem manter características semelhantes. O arquiteto cita Curitiba como principal referência comparável e lembra que Brasília também possui grande potencial ambiental, embora sua configuração urbana muitas vezes faça com que isso passe despercebido. “Como metrópole mesmo, Goiânia e Curitiba superam qualquer uma”, afirma.

Apesar desse diferencial, Renato ressalta que conservar essa identidade não é uma tarefa simples. Ele observa que a prefeitura vem realizando ações de reposição de árvores e considera fundamental que esse trabalho tenha continuidade. “Ela consiga sempre manter esse trabalho na prefeitura, estar sempre repondo, colocando as árvores corretas, que dão sombra, que não prejudicam o trânsito”, defende. Para ele, a arborização urbana precisa ser acompanhada por cuidados constantes com praças, parques, jardins e canteiros.

O arquiteto também chama atenção para o aspecto cultural da relação dos goianienses com a natureza. Segundo ele, a valorização das árvores faz parte do cotidiano da população e contribui para diferenciar a cidade de outros importantes centros urbanos brasileiros. “É uma cultura local. As pessoas gostam de plantar, isso é fantástico”, destaca.

Em conjunto, as avaliações dos dois especialistas indicam que a manutenção do título de cidade verde dependerá tanto de investimentos públicos quanto de planejamento urbano de longo prazo. Preservar áreas verdes, recuperar recursos hídricos, promover uma mobilidade mais eficiente e manter programas permanentes de arborização aparecem como medidas essenciais para que Goiânia continue sendo reconhecida por sua qualidade ambiental nas próximas gerações.

Lista completa de quantidade de áreas verde em cada bairro de Goiânia

Confira uma lista com todos os bairros de Goiânia e quantidade de áreas verdes (praças e parques) que há em cada um, conforme divulgado pela Prefeitura de Goiânia. São 912 localidades que se estendem mais de 7 mil metros quadrados:

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