A ONG Instituto Conhecer Brasil, investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais irregulares para justificar despesas de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de wi-fi gratuito em comunidades da capital. A entidade é presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, também dona da produtora responsável pelo filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Levantamento revelou o uso de notas fiscais canceladas, recibos sem valor fiscal e até documentos emitidos pela própria ONG para justificar gastos milionários entre 2024 e 2025. Em um dos casos, a entidade apresentou quatro faturas sem validade fiscal para comprovar despesas de R$ 8,5 milhões com locação de equipamentos eletrônicos.

Outra irregularidade envolve notas fiscais canceladas de empresas prestadoras de serviço. Uma delas, emitida pela Complexsys Soluções Integradas Ltda., no valor de R$ 2 milhões, foi cancelada no mesmo dia da emissão, mas ainda assim apareceu na prestação de contas entregue à prefeitura. Também foram identificadas notas canceladas da empresa JR Feijão Ltda., somando mais de R$ 406 mil.

A própria Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia apontou irregularidades nas prestações de contas da ONG. Em parecer técnico, a pasta afirmou que o instituto emitiu notas fiscais para si mesmo e declarou pagamentos em duplicidade. O documento também aponta que a entidade não devolveu integralmente valores considerados irregulares dentro do prazo previsto. Apesar disso, a prefeitura aprovou as contas com ressalvas após a devolução de cerca de R$ 930 mil aos cofres municipais.

O contrato também é alvo de investigação por possíveis falhas no processo de contratação e sucessivos aditivos assinados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes. O acordo previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025, mas apenas 3.200 foram implantados até o momento.

Karina Ferreira da Gama afirmou desconhecer o cancelamento de notas por fornecedores e disse que as inconsistências apontadas estão sendo corrigidas nas novas prestações de contas. Já a Prefeitura de São Paulo declarou que o contrato é monitorado rigorosamente e negou qualquer relação entre o convênio e a produção do filme sobre Bolsonaro.

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