Por Euler de França Belém
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Na guerra, como na política (guerra sem armas, ou melhor, as armas são as palavras e as ideias), é preciso definir o adversário com o máximo de clareza para que o combate seja de fato eficaz. No momento, há ruídos, de certa intensidade na base política do governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB. Frise-se, desde já, que as partes em confronto não desafiam diretamente a autoridade e a liderança do tucano-chefe. Mas é preciso ter olhos para as árvores, os integrantes individuais da base aliada, e para a floresta, a aliança heterogênea, de centro-esquerda, sem excluir membros mais próximos da direita. O jornalismo que só percebe as árvores não compreende a variegada realidade da floresta. Aquele que só percebe a floresta perde a capacidade de entendimento do que é individual.
Na semana passada, as colunas de notas foram úteis para disseminar a fofoca política, priorizando as árvores e esquecendo a floresta. Quem leu os jornais e sites ficou com impressão que o problema principal da base aliada é o fato de o PSD do ex-deputado federal Vilmar Rocha e do deputado federal Thiago Peixoto — um dos mais promissores políticos goianos, porque tem conteúdo e é homem de projetos — ter se desgarrado e ter lançado candidato a prefeito de Goiânia, o deputado estadual Francisco Júnior. Uma pessoa oriunda de São Paulo ou do Nordeste, convidada a visitar Goiás e examinar o quadro político, certamente perguntaria sobre as pesquisas de intenção de voto. Ao saber que Francisco Júnior aparece com menos de 5%, em todas as pesquisas, diria: “Não tem peso político-eleitoral e, portanto, é carta fora do baralho”. Ao menos no momento, estaria certa. Se as pesquisas estiverem corretas, o postulante do pessedismo não é nenhuma ameaça, nem mesmo para Vanderlan Cardoso, o candidato do PSB e apontado como, mesmo recalcitrante, “o candidato da base governista”. Por governismo entenda-se o governo do Estado e os integrantes da base aliada.
Porém, se estivesse apoiando Vanderlan Cardoso, atendendo aos rogos da base aliada, Francisco Júnior estaria acrescentando o quê? O deputado é um político que conhece Goiânia como poucos, pois, além de ter sido secretário da primeira gestão de Iris Rezende, entre 2005 e 2008, é um estudioso de seus problemas e, por isso, sabe como encaminhar algumas soluções. Mas convém lembrar que, em 2012, aceitou ser vice de Jovair Arantes, então o candidato da base governista a prefeito, e não foi decisivo. Pode-se sugerir que cada eleição é singular, portanto o quadro de agora seria diferente. Pode ser. O fato, porém, é que Francisco Júnior, Thiago Peixoto e Vilmar Rocha são árvores e cabe agora, rapidamente, verificar a floresta.
Embora cada eleição tenha sua face, um jogo que é só seu, é possível dizer que as facções políticas estão armando seus jogos, a partir da preliminar — a disputa das prefeituras —, para estabelecer táticas e estratégias para o jogo principal, a disputa do governo do Estado, de duas vagas para senador e das 17 vagas para deputado federal, em 2018. Se as árvores isoladas são os rebeldes do PSD — os rebeldes do PR (como Magda Mofatto) e do PSB não são apontados —, a floresta é, de fato, a disputa de 2018.
Os políticos, mesmo quando não racionalizam com apuro, costumam ter um instinto poderoso, que alguns chamam de feeling, potencializado nos dias atuais pelas pesquisas. Pois, em 2018, não se terá Marconi Perillo no páreo, como candidato a governador, e a base aliada terá completado 20 anos de poder ininterrupto. Não há dúvida: é muito tempo. Quem nasceu em 1998, quando Marconi ganhou sua primeira eleição para o governo, terá 20 anos em 2018. É uma geração. Com percepção aguçada, Marconi sabe que precisa rearticular sua base política, ampliando-a — inclusive aproximando-se de setores do PMDB —, mas há os que não têm a mesma percepção. Por isso não percebem que, na falta de um candidato natural — todos apreciam José Eliton, mas sabem que, eleitoralmente, é uma incógnita —, muitos vão se apresentar e, com certa sutileza, vão questionar o nome (ou nomes) apontado(s). Os rebeldes de 2016, e muito menos os do PSD, querem o poder em 2018. Por isso vão buscar inclusive composições heterodoxas. Aos que aconselham o tucano-chefe a promover um expurgo convém lembrar que Iris Rezende perdeu o poder quando passou a raciocinar e agir a partir de picuinhas palacianas, inclusive, talvez sobretudo, promovidas por parentes.
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Em 2018, daqui a dois anos, quatro meses e alguns dias, o PMDB vai completar 20 anos fora do poder. O partido continua forte, mas com perspectivas de poder cada vez mais reduzidas, sobretudo por falta de renovação na cúpula. Hoje, há o nome de seu presidente, Daniel Vilela, mas ainda relativamente inexperiente. Tanto que há a dúvida: afinal, Daniel Vilela vai mesmo disputar o governo de Goiás em 2018 ou está criando uma cortina de fumaça para preparar, no final, a área para seu pai, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, disputar a eleição? Por que, se Daniel Vilela é o novo, bancar Maguito Vilela, mesmo depois de este ter perdido duas eleições para governador, uma para Marconi Perillo, do PSDB, e outra para Alcides Rodrigues, então (2006) no PP? A tese é que, por ser experiente, o prefeito agrega mais e seria uma resposta à altura ao senador Ronaldo Caiado, do DEM.
O fato é que, com certa sutileza e ainda de maneira titubeante, os jogos estão sendo montados. Na prática, sem que se diga claramente, o PMDB começa a ser disputado tanto pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, quanto por Ronaldo Caiado. O líder do partido Democratas sabe que, embora possa até sair na frente nas pesquisas, precisa da estrutura política do PMDB, espraiada por todo o Estado e influente nas grandes cidades, como Goiânia, Aparecida de Goiânia e Jataí, para citar apenas três, para consolidar-se e tornar sua candidatura consistente e palatável. Sozinho, esbarrará no seu tradicional teto, pouco mais de 30% dos votos, talvez, e não se elegerá. Em busca do governo, Ronaldo Caiado pode oferecer a vice e duas vagas no Senado para o PMDB. Parece muito, mas num país em que o Executivo é hipertrofiado, é visto como pouco. Todos querem o governo, o poder de mando. Isto significa que o PMDB, apesar de ter apreço pelo senador, vai buscar lançar seu próprio candidato e, mesmo, vai trabalhar para obter o apoio do democrata.
Está é uma face da questão. Há outro polo, articulado por um político que é uma verdadeira águia, Marconi Perillo. O tucano-chefe percebe, pelos dados e pela luta de suas várias disputas, que está cada vez mais difícil eleger o governador pela base aliada. Mesmo bons governantes, depois de certo tempo, podem perder eleições. Dotado de rara perspicácia, e sempre munido de pesquisas qualitativas e quantitativas, que examina com percuciência, entendeu que é preciso interferir no jogo, e agora. Não vai esperar 2018. Por isso tende a disputar o PMDB com Ronaldo Caiado, para reformatar não apenas sua base, mas a política do Estado. Aproximou-se de Maguito Vilela, com quem mantém um diálogo respeitoso, e tentou se aproximar de Iris Rezende. É uma operação política para o presente, mas jogando o futuro — 2018. Observe-se que o prefeito de Jataí, Humberto Machado, pode ser atraído tanto para o governo quanto para o PSDB. É parte da remontagem da base. Vanderlan Cardoso, na base, é um fato novo. Mas o objeto do desejo é mesmo o PMDB... Sem o PMDB, Ronaldo Caiado praticamente fica fora do jogo. Já, com o PMDB, Marconi amplia a possibilidade de seu grupo ficar mais tempo no poder. É uma tentativa, inteligente, de garantir a continuidade no poder. O político longevo, em termos de poder, pensa para além da circunstância.
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O senador Ronaldo Caiado (DEM) só não disputa eleição para governador de Goiás, em 2018, se Iris Rezende, se eleito prefeito de Goiânia, disser que não será candidato. O peemedebista acredita que, com Marconi Perillo fora do páreo, porque já foi reeleito, tem condições de ser eleito governador. Iris não pertence à Academia Goiana de Letras, mas se julga imortal.
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Juraci Martins: prefeito de Rio Verde | Arquivo[/caption]
As notícias sobre um suposto desdobramento da Operação Hígia, do Ministério Público de Goiás, tira o sono de vereadores, secretários, ex-secretários e servidores da Prefeitura de Rio Verde, além do próprio prefeito Juraci Martins (PPS).
Durante a semana, discussões acaloradas tomaram conta da Câmara Municipal de Rio Verde, com troca de acusações entre aliados e adversários do prefeito Juraci Martins. Uma reunião de emergência com o alto comando político da prefeitura, incluindo o deputado Lissauer Vieira (PSB), teria sido convocada para o final de semana para discutir o assunto.
Deflagrada em janeiro deste ano, a Operação Hígia investiga suposta fraude na Secretaria de Saúde de Rio Verde: uma empresa farmacêutica foi contratada para fornecer materiais hospitalares ao município, mas, no entanto, não fez a entrega integral dos produtos.
O fato novo, que deve vir a tona em nova fase da operação, tem a ver com a suspeita de que o dinheiro desviado teria sido usado na compra de apoios políticos, envolvendo gente graúda ligada à Prefeitura. Este é apenas mais um capítulo do triste fim da gestão Juraci Martins em Rio Verde. (Hígia, na mitologia, é a deusa da saúde.)
O que mais se comenta em Anápolis é que o candidato do DEM, Pedro Canedo, estaria prestes a jogar a toalha. O postulante democrata, segundo um aliado, teme que sua honra seja enxovalhada durante a campanha. Sua passagem pela Iquego é vista “como nebulosa”. Há pelo menos dois dossiês sobre a atuação do ex-deputado.
Detalhe: em termos políticos, Pedro Canedo ficou isolado, sem nenhum apoio político substancial. Se fizer um comício, terá de contratar pessoas para subir em seu palanque, para fingir que são aliados. Nem mesmo o PMDB de Eli Rosa quis ficar com o candidato do DEM, alegando que não pode navegar em canoa fura. Eli Rosa está na chapa do prefeito João Gomes, do PT, como vice.
Por que mexer em time que está ganhando? Para ganhar mais ainda. O governador Marconi Perillo pensa em promover uma reforma no seu secretariado, com o objetivo de tornar algumas áreas mais produtivas. Pode ser também que faça remanejamentos. O PTB tem pressionado menos, mas espera ser contemplado no primeiro escalão do governo. A secretaria mais cobiçada, no momento, é a de Desenvolvimento Econômico, que, desde a saída de Thiago Peixoto, está sem titular. Há quem, no PSDB, queira indicar Giuseppe Vecci. O PTB também cobiça a pasta.
É praticamente certo que o prefeito de Jataí, Humberto Machado, vai ocupar um cargo importante no governo de Marconi Perillo. A partir de janeiro de 2017. O que ainda não está certo é se vai trocar o PMDB pelo PSDB. Humberto Machado está chateado com a cúpula do PMDB, notadamente com Maguito Vilela, que impôs a aliança do partido com o candidato a prefeito pelo DEM, Victor Priori. Os dois não se dão bem. O prefeito está insatisfeitíssimo com o partido e, por isso, tende a se aproximar, cada vez mais, do tucano Marconi Perillo.
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Do ponto de vista do marketing político, o deputado Waldir Delegado Soares, candidato do PR a prefeito de Goiânia, é uma prata a ser trabalhada. Ele tem méritos, como a firmeza na exposição de suas ideias e a rara capacidade de não deixar as pessoas que o ouvem indiferentes. Mas há problemas também.
Ou Waldir Soares está mal orientado, sem controle, ou aceita as orientações daqueles que trabalham em sua equipe. Ressalte-se que Lula da Silva só ganhou eleição para presidente quando decidiu ouvir com atenção as orientações de profissionais de várias áreas, principalmente o marqueteiro Duda Mendonça, que sugeriu um visual mais clean, inclusive com a barba mais bem aparada e ternos sóbrios (os ternos do petista eram amarfanhados; ora parecia que o “defundo” era menor e ora que era maior).
Com quase dois anos na Câmara dos Deputados — já poderia ter apresentado e conseguido a aprovação de projetos para melhorar a segurança pública do país —, e até por sua experiência como delegado, Waldir Soares não tem nada de bobo. Mas, além de dizer coisas que podem torná-lo persona non grata para a classe média, decidiu não participar dos debates, exceto quando Iris Rezende participar. Quer dizer, ele não pauta a si próprio — é pautado pelo candidato Iris Rezende. Teme, na ausência do peemedebista, que o “foto inimigo” se concentre nele — no que, possivelmente, está certo. Mas um candidato precisa enfrentar tudo, sobretudo as críticas, de frente; não pode se esconder de maneira alguma. O delegado é um político presente, firme, que não tergiversa — por isso precisa aparecer.
Candidato oposicionista é o que mais ganha com os debates. O público quer vê-lo e ouvi-lo. Waldir Soares, como os demais candidatos, está sendo observado. Mas, se não aparece, como vai ser avaliado. As pessoas querem saber se tem mesmo preparo para administrar Goiânia. Os debates são oportunidades para que exponha suas projetos para melhor Goiânia. Acrescente-se que o tempo, nesta eleição, é curto e é preciso aproveitar todos os espaços para se comunicar com os eleitores.
De um tucano histórico: “O governador Marconi Perillo pode apoiar um candidato da base para sua sucessão, que pode ser José Eliton (PSDB), e pode apostar num candidato de fora da base, que pode ser Maguito Vilela (PMDB)”. Há quem aposte que PSDB e PMDB vão caminhar juntos em 2018. Contra quem? Contra Ronaldo Caiado e aliados, talvez Iris Rezende e Iris Araújo (na vice).
Um deputado afirma que o maior adversário do prefeito de Luziânia, Cristóvão Tormin (PSD), não é o tucano Marcelo Melo. É o próprio Tormin. Suas trapalhadas ante a Justiça Eleitoral têm sido criticadas pelos próprios aliados. O prefeito foi eleito com uma base política imensa, mas agora está com uma base mais reduzida. O motivo é que não agrega. Marcelo Melo é o favorito na disputa pela prefeitura do maior município do Entorno de Brasília. Ressalve-se que, mesmo atrapalhado, Tormin controla o caixa da máquina pública. Mas o Ministério Público e a Justiça Eleitoral estão de olho no uso da máquina e dos recursos do Erário.
O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha garante que não fará delação premiada. Porque, se o fizer, a República cai. Porém, quando ameaça fazer delação, para não ser abandonado pelos aliados, cerca de cinco deputados federais de Goiás ficam ao menos duas noites sem dormir. O problema da delação premiada de Eduardo Cunha é que, se for feita, vai prejudicar é o próprio deputado do PMDB.
De um vereador dos mais experimentados: “A maioria dos candidatos a vereador em Goiânia está matando cachorro a grito. Os candidatos a prefeito estão informando que não têm como bancá-los e mesmo ajudá-los com poucos recursos. É provável que alguns abandonem o barco logo depois das candidaturas registradas”. Os candidatos a prefeito estão fugindo dos candidatos a vereador assim como, supostamente, o diabo foge da cruz. Iris Rezende (PMDB), por exemplo, prefere dialogar com o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), do que conversar com postulantes ao Legislativo de Goiânia. Falta dinheiro no mercado político.
O empresário Jorcelino Braga será marqueteiro das oposições em Goiânia, com Iris Rezende; em Catalão, com Adib Elias; em Anápolis, com Pedro Canedo, e em Itumbiara, com Álvaro Guimarães. Porém, não terá, desta vez, o apoio do redator Alberto Araújo. Alberto Araújo é apontado como o cérebro que fazia a produtora de Jorcelino Braga funcionar. Até hoje, desde que o ex-aliado bandeou-se para o lado da base governista, o empresário não conseguiu um substituto à altura.
O governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB, e o economista e deputado federal Thiago Peixoto, do PSD, conversaram, pessoalmente (acompanhado do candidato do partido a prefeito de Goiânia, Francisco Júnior) e por telefone, na semana passada. Os dois, bem-humorados, falaram sobre a sucessão em Goiânia e concluíram que não há aresta a aparar pelo fato de o PSD ter lançado candidato a prefeito da capital. O tucano-chefe gostaria de ter ampliado a aliança político-eleitoral em torno do candidato do PSB a prefeito, Vanderlan Cardoso. Mas admitiu que o PSD tem direito de lançar candidato e, sobretudo, que a eleição de Goiânia terá, possivelmente, segundo turno. Marconi Perillo e Thiago Peixoto se consideram “hermanos” políticos. Os dois têm uma identidade rara em política.
O empresário Vanderlan Cardoso, do PSB, é mesmo o candidato da base aliada a prefeito de Goiânia. É e não é. A base aliada quer apoiá-lo, mas desconfia de sua lealdade futura, sobretudo devido aos ataques duros que fez, entre 2010 e 2014, ao governador Marconi Perillo, do PSDB. O fato é que líderes e militantes da base aliada esperam, até com certa ansiedade, um sinal de que Vanderlan Cardoso quer mesmo vê-la engajados na campanha. Sem um gesto de carinho, sem afagos generosos, ninguém vai se engajar de corpo e alma, como um exército acostumado a grandes embates, na batalha pela conquista da Prefeitura de Goiânia. Vanderlan Cardoso é visto como “muito frio”. Mesmo sabendo que se trata de realpolitik, a base também não “fica contente” quando o postulante do PSB arrota que é independente do governo do Estado. Ora, como autônomo se o vice é Thiago Albernaz, do PSDB?!

