Como governos antidemocráticos utilizam o esporte como mecanismo de sportswashing e soft power
25 junho 2026 às 08h00

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Isadora Metsavaht
A Copa do Mundo de futebol é um momento de competição esportiva, mas também é uma oportunidade de promover a celebração e a união entre as nações mundiais de todos os continentes. De início, tudo parece muito festivo e colorido: milhões de pessoas torcendo por seus países e tendo a chance de conhecer novas culturas que são muito distantes da nossa realidade.
Contudo, por trás do espetáculo esportivo e da atmosfera festiva, os campeonatos esportivos podem, muitas vezes, mascarar situações políticas internas dos países, o que abre espaço para governos antidemocráticos e que violam os direitos humanos lavarem suas imagens internacionais por meio de distrações apaixonantes, como o esporte.
O sportswashing é um termo que junta as palavras sport (esporte) e wash (lavagem). Foi criado por organizações internacionais de direitos humanos a fim de denominar o esporte como um mecanismo que apaga ações que os governos não querem que sejam propagadas pelo mundo.
Em 2022, a Copa ocorreu no Catar e, em 2034, a Arábia Saudita será a sede. Ambos os países são conhecidos por serem religiosamente restritos, possuindo ideais ultraconservadores, além de perseguir opositores políticos e aplicar medidas de censura e que ferem os direitos das mulheres e dos imigrantes.
Nessa ótica, os governos buscam promover grandes eventos esportivos para atrair a atenção da comunidade internacional e fazer com que ela se concentre muito mais nos estádios modernos e nas cerimônias grandiosas do que nos problemas sociais profundamente enraizados.
A Arábia Saudita anunciou, em 2016, o projeto Visão 2030, o qual visa transformar a economia e a sociedade local, que é muito dependente do petróleo, ao diversificar sua fonte de riqueza, por meio do alto investimento em turismo e entretenimento.
Após dez anos do início dessa política, podemos concluir que ela está cumprindo com o seu objetivo, já que, além de ser a sede do mundial de 2034, o país comprou um clube da liga inglesa e conseguiu o direito de sediar eventos como a Fórmula 1, competições de golfe, tênis e luta livre.
Dentro dessa perspectiva, é possível afirmar que não se trata apenas de diversificação econômica ou incentivo ao turismo. Trata-se também de uma tentativa deliberada de reposicionar a imagem do país perante o mundo.
O esporte, nesse cenário, torna-se uma ferramenta política muito relevante para a persuasão da sociedade internacional. Todavia, já está ocorrendo boicotes e cortes nos financiamentos sauditas em alguns campeonatos mundiais devido à maior divulgação, compreensão e problematização dessa medida de sportswashing.
Seguindo essa lógica de utilizar o esporte como ferramenta política, deve-se também pontuar que a Turquia — a qual é denunciada amplamente pela Nações Unidas e por organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, por estar vivenciando uma fase de retrocesso nas liberdades civis e políticas — tem firmado a estratégia de transformar a prática esportiva e os seus campeonatos como uma arma do soft power.
O soft power é um termo que se refere à capacidade dos países de exercerem influências sociais no cenário internacional através da atração e da persuasão sem o uso da força bruta e da coerção.
Sob esse viés, é possível traçar que os altos investimentos na liga de voleibol turca feminina, que hoje é uma das mais prestigiadas globalmente, e a presença do país como sede da Volleyball Nations League (em português, Liga das Nações de Voleibol) em mais uma edição da competição neste ano, são sim maneiras de aplicar o soft power sobre a população.
A partir disso, o governo turco consegue atrair os melhores jogadores de voleibol e milhares de torcedores nos fortes campeonatos que ocorrem dentro do país ao aumentar seu prestígio internacional com a visibilidade do esporte— sendo, desse modo, uma forma de soft power.
Entretanto, é preciso destacar que o caso da Turquia não se configura como sportswashing, porque o governo não desenvolveu planos de investimentos fortes em outras modalidades esportivas e por já possuir uma base cultural esportiva dentro de sua população, o que não acontece no caso da Arábia Saudita.
Por essa razão, colocar a Turquia e a Arábia Saudita na mesma categoria seria uma simplificação equivocada. Enquanto o governo saudita utiliza o esporte para reformular uma imagem internacional desgastada, o caso turco está ligado à valorização de uma tradição esportiva já consolidada. Logo, o sportswashing busca esconder problemas e o soft power busca ampliar a influência com meios culturais já existentes, exportando a identidade local para a sociedade global.
Diante disso, é necessário afirmar que o esporte é e deve ser uma maneira de aproximar povos e promover intercâmbios culturais, mas não pode servir como uma arma para silenciar debates sobre democracia, direitos humanos e liberdade. Portanto, o brilho dos estádios não pode se tornar mais importante do que a realidade fora deles. Caso contrário, o espetáculo dos esportes deixa de ser apenas entretenimento e passa a cumprir uma função política bastante conveniente para os governos antidemocráticos.
Isadora Metsavaht é acadêmica do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás



