Demóstenes Torres

Quando o pernambucano Nelson Rodrigues morreu, em 21 de dezembro de 1980, o potiguar Oscar Schmidt já havia levado o Brasil ao bronze na Copa do Mundo de basquete nas Filipinas, em 1978, e a duas medalhas no Sul-Americano, ouro no Chile em 1977 e prata na Argentina em 1979, quando venceu também o mundial interclubes, com o Sírio.

Mas ainda não era um dos maiores seres da espécie, que no país só encontra par nos também esportistas Ayrton Senna e Pelé, no imperador Pedro 2º, nos compositores Heitor Villa-Lobos e Carlos Gomes, além dos cientistas Carlos Chagas, Oswaldo Cruz e Vital Brazil. A Capela Sistina de Oscar foi pintada no Pan-americano de 1987, ao implodir décadas de invencibilidade dos Estados Unidos. Ali, atingiu o teto. Não precisou morrer para chegar ao céu. Levou uma nação à catarse e provou-se maior que o mundo.

Daria uma crônica inesquecível de Nelson, que cunhou a expressão “complexo de vira-lata” num ano como este, de Copa do Mundo, a de 1950, ao prostrar-se de 1 a 2 para o Uruguai diante de mais de 200 mil torcedores no Maracanã, que agora cabe ⅓ disso. Pouco depois, em 1958, viria a antítese do vira-latismo –nascia Oscar e o Brasil, finalmente, ganhou a Copa e um insubstituível.

Oscar triunfou numa modalidade pouco praticada no país do futebol, do futsal, da pescaria, das voltas em torno de parques urbanos. Menor até que vôlei e handebol. Menino não tem dentes ainda e já está matriculado na natação. O mais recente espasmo de popularidade foi o UFC, com público superior ao do NBB, o Brasileirão do basquete.

É o sistema nacional de perda de geração. Jogamos fora os frutos da geração de Oscar, Hortência e Magic Paula, assim como desperdiçamos o pós-Guga, só agora revelando João Fonseca e não porque uma política pública de tênis abriu quadras nos bairros e o revelou. Inspirada em Daiane dos Santos, surgiu Rebeca Andrade, a deusa dos movimentos perfeitos, 7 irmãos, filha de uma faxineira mãe solo. Jamais chegaria a estrela se aguardasse investimento em popularização da ginástica.

Assim como nas artes, a ação dos governos para os esportes não é formar cidadãos ou atletas, mas distribuir verba pública para atravessadores de eventos e produções. Volte-se para Oscar, exemplo não só como atleta, como gente. Era o retrato da dedicação, da persistência, do culto à saúde e ao bem-estar. Ou seja, um modelo para a juventude tão ilhada por aparelhamentos ideológicos.

Continue lendo para saber que, se Oscar tivesse chegado ao Congresso, emendas seriam usadas para fazer espaços adequados, comprar material e remunerar os treinadores –o dinheiro cairia na conta do professor vindo direto do Ministério do Esporte sem passar pelo cofre de nenhum bandido no meio do caminho.

Como não existe seriedade, só resta torcer. Torcer para que João Fonseca vire um Guga cujos resultados ultrapassem os rankings e cheguem às escolas. Para que o NBB revele outro Oscar, já que só surge 1 por milênio e o do Schmidt foi o anterior. Para que Endrick, uma luz na França, seja só o 1º de muitos criados nas cidades goianas do Entorno do Distrito Federal (a dele era Valparaíso de Goiás).

Para que ocorra o mesmo na educação, nas ciências, na tecnologia. Eduardo Saverin ajudou a criar o Facebook. Que ecossistema a maior carga tributária do planeta está sustentando para criar um novo Oscar, Guga, Endrick, Saverin? Nenhum.

Ao longo da história, atiramos no lixo não reciclável as chances de transformar essa vergonha em orgulho. Oscar, Hortência e Paula atuaram na mesma época, assim como Carlos Chagas (1879-1934), Oswaldo Cruz (1872-1917) e Vital Brazil (1865-1950) –e nada de vir a nova safra de cientistas.

Guardadas as proporções, ocorreu igual na Itália com Michelangelo (1475-1564), Da Vinci (1452-1519), Botticelli (1445-1510) e Rafael (1483-1520). Quem considera a comparação um exagero não viu Hortência e Paula contra as cubanas no auge, Oscar enfrentando os norte-americanos invencíveis, Carlos Chagas derrotando a malária, Oswaldo Cruz eliminando a febre amarela, a peste bubônica e a varíola.

Por isso, aderi à mania das listas e elegi esses 9 maiores do Brasil. Você tem todo o direito de discordar e certamente está aí elaborando a sua. Cada qual tem uma.

Em 2012, o SBT pediu aos espectadores que escolhessem no site “O maior brasileiro de todos os tempos”, um programa validado pela BBC de Londres. Oscar Schmidt sequer ficou entre os 100 –o único Oscar da lista, que teve Chico Xavier em 1º e Santos Dumont em 2º, foi o arquiteto Niemeyer, o 7º, mas não vale porque Tom Jobim (89º) perdeu para Luan Santana (42º) e Tiririca (48º) superou Vital Brazil (98º). O rol vira rolo quando se vê Lula (11º) à frente de Irmã Dulce (12ª) e Dilma Rousseff (33ª), superando Machado de Assis (41º), Mauá (45º), Monteiro Lobato (57º) e Carlos Chagas (57º).

Em 2007, a Folha de S.Paulo fez a mesma pergunta para 200 “especialistas” e ouviu 70 nomes. Novamente, o único Oscar foi o comunista. Dos meus colegas de advocacia, Ruy Barbosa foi lembrado no SBT/BBC (22º) e na da Folha (4º), que tem menos bizarrices e os votantes são identificados: ACM, o original, votou em JK; Ana Moser, ex-ministra de Lula, preferiu Pelé, assim como Oscar, o que não foi votado. E Pelé? Votou em Tiradentes.

Sabe quem votou em Oscar? Quase 6 milhões de paulistas. Foi candidato a senador em 1998 e sofreu com campanha das esquerdas contra a sua honra. Lula, que fingiu ter ficado triste com sua morte, em 17 de abril, à época, acionou o gabinete do ódio contra o ídolo de multidões em todo o planeta.

O mínimo que o sapo barbudo soltou de veneno foi chamando Oscar de sabonete, um produto qualquer da mídia. Tem de mandar Sidônio convencer disso os gênios do país do basquete, pois eles o colocam em altares como os halls e calçadas da fama. O senador sabonete teria limpado o Congresso.

Por pouco, então, Oscar não foi meu colega no Senado. Da lista de “eleitores” da FSP, alguns poderiam ter sido contemporâneos seus, além de ACM e deste articulista. O Brasil perdeu com a derrota de Oscar. Seria um brilhante político para acabar com a farra das emendas, legislar, fiscalizar, impingir nos Três Poderes o respeito à vocação do país para a vitória. A terra que um dia criou tanta gente boa não merece eleger tanta praga ruim quanto a peste bubônica e a varíola.

Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.

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