Dívida, juros e custos: especialista detalha avanço das recuperações judiciais no agro em Goiás
05 maio 2026 às 17h24

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O agronegócio brasileiro vive um momento delicado, marcado por uma onda crescente de pedidos de recuperação judicial. Em entrevista ao Jornal Opção, o advogado especialista em recuperação judicial, Eliseu Silveira, detalhou, nesta terça-feira, 5, os fatores que têm levado produtores rurais a recorrerem cada vez mais a esse mecanismo jurídico.

“Já temos 30 casos novos de recuperação judicial em Goiás em 2026. Esse número mostra a gravidade da situação”, apontou o especialista.
Segundo ele, o primeiro ponto foi a facilidade de acesso ao crédito durante a pandemia, quando a taxa Selic chegou a 2%.
“O produtor se alavancou bastante. Pegava crédito subsidiado a 8% ao ano, somava mais 2%, ficava em 10%. Era muito fácil acessar recursos”, explicou.
Com a alta dos juros nos anos seguintes, muitas dívidas se tornaram impagáveis diante da capacidade de pagamento dos produtores. “Um produtor que fatura 3 milhões no ano, com custo operacional de 2,5 milhões, lucrava 500 mil. Mas se assumia uma parcela de 500 mil por ano, a conta não fechava”, exemplificou.
A solução encontrada por muitos foi alongar dívidas, mas isso gerou um ciclo de renegociações sucessivas. “Ele não conseguia operar a fazenda, comprar gado ou plantar soja. Então buscava novo crédito em outra instituição para alongar a dívida anterior”, disse.
Além disso, a alta dos insumos agrícolas agravou a situação. “A guerra entre os EUA e o Irã trouxe um aumento nos fertilizantes e insumos. Fenômenos naturais como o El Niño também pesaram. E não só insumos agrícolas, um produtor médio gasta 2 milhões de diesel por ano. Com acréscimo de 35% a 40%, esse custo saltou para 3 milhões”, destacou.
O especialista também comentou sobre a questão geográfica. “Goiás e Mato Grosso têm muitos produtores. Onde há mais produtores, há mais pedidos de RJ. Em São Paulo, predominam recuperações de indústrias. Aqui, é no agro porque é o que sabemos fazer bem”, afirmou.
Sobre a recente redução da taxa de juros, Eliseu apontou que acredita que seja uma redução artificial. “Essa redução é artificial. De 15% para 14,75% não muda nada na prática. É apenas manobra política. Na próxima rodada pode voltar para 15,25%. Dentro da média, continua nos mesmos 15%”, disse.
Ele também relacionou os custos elevados ao impacto no consumidor final. “O problema do Brasil é o Estado brasileiro. Não é só juro. Nós custamos muito caro para a nossa ineficiência. Temos 60% dos municípios que não conseguem pagar sequer a folha de vereadores. É um país pobre, mas com um Estado que só cresce e gasta mal”, criticou.
Na avaliação de Eliseu, governos podem facilitar ou dificultar a eficiência do Estado. “Tem governo que deixa o Estado mais enxuto, roda mais liso, gasta certo. Mesmo grande, tenta ser eficiente. Outros gastam mal, como o atual. Correios, por exemplo, tiveram prejuízos bilionários e está tudo bem para eles. Mas sai do meu bolso e do seu bolso”, disse.
Ele também destacou a relação dívida-PIB como fator que pressiona os juros. “É o gastar mal que faz subir o preço dos juros também”, afirmou.
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