Quase dez anos depois de uma delação que colocou a JBS e a família Batista no centro da maior crise política vivida pelo país naquele período, Wesley Batista decidiu falar publicamente sobre o episódio. Em entrevista à Revista Piauí, o empresário relembrou pela primeira vez em detalhes o acordo de colaboração firmado com a Lava Jato, a prisão em 2017 e as consequências da exposição para os familiares.

A conversa ganha um peso ainda maior porque a trajetória empresarial dos Batista começou em Goiás. Foi em Anápolis que José Batista Sobrinho, pai de Wesley e Joesley, abriu um pequeno açougue em 1953. Anos depois, a família chegou a Formosa, onde instalou um frigorífico e passou a usar a marca Friboi. O negócio cresceu até se transformar na JBS, hoje uma companhia de atuação global.

Na entrevista à jornalista Consuelo Dieguez, Wesley, de 56 anos, voltou justamente ao momento em que essa trajetória empresarial foi atravessada pela Lava Jato. O acordo de delação dos irmãos Batista, tornado público em 2017, atingiu diretamente o então presidente Michel Temer e provocou uma crise política em Brasília.

Wesley relembra prisão e sofrimento da família

Wesley e Joesley Batista foram presos em 2017 sob acusação de insider trading, prática relacionada ao uso de informação privilegiada, e manipulação de mercado.

Mais tarde, os dois foram absolvidos dessas acusações. Ao ser questionado sobre aquele período, Wesley reconheceu que a experiência provocou sofrimento dentro e fora da empresa. Segundo ele, a repercussão atingiu também os pais e os irmãos. “Logicamente, tudo aquilo que aconteceu não foi uma coisa de que a gente se orgulha. Aquilo trouxe muito sofrimento, muito”, disse.

O empresário afirmou que os familiares acompanharam de perto o momento vivido pelos irmãos e acabaram enfrentando parte das consequências da exposição provocada pelo caso. “As pessoas, a família, meus irmãos, meus pais, sentiram junto conosco, sofreram junto toda aquela tempestade”, afirmou.

Apesar do sofrimento, Wesley disse que a crise também deixou uma percepção positiva sobre a união entre os familiares. “Apesar do sofrimento, e apesar de não nos orgulharmos daquilo, de algumas coisas temos orgulho”, afirmou.

Em seguida, completou: “Nossa família, que a vida inteira foi unida, ficou ainda mais unida.”

A prisão dos irmãos ocorreu meses depois de o acordo de colaboração firmado com o Ministério Público Federal ter provocado uma das maiores crises políticas do governo Michel Temer. As informações apresentadas pelos empresários atingiram diretamente o então presidente e provocaram forte repercussão em Brasília. O episódio também colocou a J&F, holding que reúne os negócios da família Batista, sob intensa pressão.

Wesley contou à Piauí que descobriu que o conteúdo da delação havia se tornado público pela televisão, enquanto estava no escritório. A notícia, segundo ele, também pegou funcionários da companhia de surpresa. A partir daquele momento, a crise deixou de ser apenas empresarial e passou a atingir diretamente a rotina da família.

Da crise ao retorno aos negócios

Depois da prisão, Wesley e Joesley ficaram afastados dos cargos de comando da JBS. Durante os anos seguintes, outros integrantes da família assumiram funções na condução dos negócios, enquanto os irmãos permaneceram longe dos holofotes.

A empresa, no entanto, continuou crescendo e ampliando sua presença internacional. Os irmãos Batista só voltaram ao conselho de administração da JBS em 2024, sete anos depois de terem deixado os cargos.

Na entrevista, Wesley avaliou que o período deixou lições pessoais e profissionais, apesar das consequências provocadas pela crise. A retomada da exposição pública dos irmãos também ocorre depois de anos em que os dois evitaram falar sobre o episódio que os transformou em personagens centrais da política brasileira.

Na entrevista, Wesley também foi questionado sobre a relação da JBS com governos e políticos. O empresário negou que a companhia tenha recebido favorecimento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Que ajuda? Me mostra que ajuda eu tive”, respondeu.

Wesley também falou sobre a presença de autoridades em eventos ligados à empresa e afirmou que esse tipo de contato faz parte da relação institucional entre grandes companhias e o poder público.

A declaração ocorre em um momento em que os irmãos Batista voltam a ocupar espaço público e a falar sobre os negócios da família.

História começou em Goiás

Antes de chegarem ao comando de uma multinacional, os irmãos Batista cresceram acompanhando os negócios iniciados pelo pai em Goiás.

Foi em Anápolis que José Batista Sobrinho abriu, em 1953, um pequeno açougue. Anos depois, a família chegou a Formosa, onde instalou um frigorífico e adotou a marca Friboi.

Wesley começou a trabalhar cedo nos negócios da família e posteriormente assumiu funções importantes na expansão da empresa.

A origem goiana é um dos pontos resgatados pelo podcast O Berro do Boi, produzido pela Trovão Mídia em parceria com a revista Piauí. A série reconstrói a trajetória dos irmãos desde os primeiros negócios no estado até a expansão internacional da JBS.