Ao menos quatro estados dos Estados Unidos aprovaram medidas para impedir que sistemas de inteligência artificial tenham os mesmos direitos atribuídos a pessoas em casamentos. O levantamento foi feito pela revista Wired, que identificou iniciativas em Idaho, Dakota do Norte, Utah e Tennessee.

Os quatro estados são governados por republicanos e também têm maioria do Partido Republicano no Legislativo. Desde 2022, foram apresentados pelo menos 23 projetos de lei em diferentes estados americanos com o objetivo de impedir ou limitar a possibilidade de uniões entre humanos e chatbots.

Apesar da movimentação política, casamentos entre pessoas e sistemas de inteligência artificial não têm validade legal nos Estados Unidos. Ainda assim, já existem serviços voltados a pessoas que desenvolveram vínculos afetivos com chatbots e desejam realizar algum tipo de cerimônia simbólica.

Alguns aplicativos oferecem alianças criadas por inteligência artificial, certificados de compromisso e até serviços para organizar cerimônias. A proposta não produz efeitos jurídicos, mas permite que os usuários formalizem simbolicamente a relação com o chatbot.

Mulher planeja casamento com chatbot

A discussão ganhou um exemplo concreto na Califórnia. Segundo a Wired, uma mulher procurou um celebrante de uma capela em Las Vegas para pedir que fosse realizada uma cerimônia de casamento entre ela e um chatbot.

O celebrante Kevin Breen, que costuma realizar cerimônias consideradas incomuns, contou à revista que conversou por telefone com a mulher e que ela parecia estar consciente de que a situação era fora do comum. A cerimônia, no entanto, ainda não havia sido realizada.

A possibilidade de relações afetivas com sistemas de inteligência artificial também acompanha uma expansão do uso dos chatbots para companhia e conversas pessoais.

Um estudo da Harvard Business Review, que analisou mais de 12,6 mil casos de uso de inteligência artificial entre março de 2025 e fevereiro de 2026, apontou companhia e terapia entre as aplicações mais frequentes dos chatbots.

Outro levantamento, citado pela Wired e realizado pelo Institute for Family Studies, indicou que um quarto dos jovens adultos acredita que a inteligência artificial poderá, no futuro, substituir completamente os relacionamentos amorosos entre seres humanos

Yurina Noguchi realizou cerimônia simbólica com parceiro virtual criado pelo ChatGPT, usando realidade aumentada e votos lidos por celebrante | Foto: Reprodução/Youtube

Projetos citam família e religião

Parte dos argumentos utilizados pelos parlamentares americanos para defender as restrições recorre à religião e à defesa da chamada família tradicional.

Um dos defensores desse tipo de legislação é o senador estadual Joe Nicola, do Missouri, que também atua como líder religioso. Segundo a Wired, algumas justificativas apresentadas nos projetos guardam semelhanças com argumentos já utilizados em debates sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

As propostas, porém, surgem em um cenário diferente: enquanto casamentos entre humanos são reconhecidos juridicamente nos Estados Unidos, uma união com uma inteligência artificial envolve uma entidade que não possui personalidade jurídica ou direitos constitucionais próprios.

O avanço dessas iniciativas mostra como a popularização de relações afetivas com chatbots começa a chegar ao campo legislativo. O debate envolve não apenas os limites do uso da inteligência artificial, mas também questões sobre autonomia, vínculos emocionais e até onde a tecnologia pode ocupar espaços tradicionalmente associados às relações humanas.

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