Péter Magyar, líder da oposição húngara, venceu o primeiro-ministro Viktor Orbán nas eleições deste domingo, 12. A vitória põe fim ao regime de 16 anos coordenado pelo líder de extrema direita em um pleito marcado pela alta participação popular. Magyar é um ex-integrante do partido Fidesz, que rompeu com o governo e cresceu com um discurso anticorrupção, restauração institucional e de reaproximação com a União Europeia.

Segundo a autoridade eleitoral húngara, o Tisza teve 53,06% dos votos de lista, contra 38,43% da aliança Fidesz-KDNP.

Péter chamou o resultado de uma grande vitória durante discurso aos apoiadores na Praça Batthyány, na capital Budapeste. “Recebemos um mandato para construir uma pátria funcional e humana para todos os húngaros”, disse. Presidente do Partido Tisza, Péter disse ainda que luta pela paz e unificação nacional e que o governo representará a todos “porque é esse o dever do governo húngaro”.

Péter pediu para Orban que não tome decisões que possam afetar o funcionamento do próximo governo e que o presidente da República, Tamás Sulyok, para formar um governo em que ele fosse o líder da lista e renunciasse. Ele também convocou a renúncia dos chefes do judiciário, procurador-geral.

“A partir de agora, não seremos um país sem consequências; aqueles que roubaram o país devem assumir a responsabilidade”, disse ao prometer o reestabelecimento do Escritório Nacional de Recuperação de Ativos.

Vitória democrática

Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás, Geisa Cunha Franco, a eleição tem peso que ultrapassa a política doméstica húngara e representa um freio a um processo de deterioração democrática observado em outros países nos últimos anos.

“A eleição de Péter Magyar é muito importante porque a Hungria vinha vivenciando um processo descrito por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as Democracias Morrem: o de erosão das democracias por dentro, a partir da chegada de líderes autoritários ao poder”, afirma. Segundo ela, esse enfraquecimento institucional se manifesta quando governos passam a minar, gradualmente, pilares como a independência do Judiciário, a liberdade de imprensa e a atuação autônoma do Legislativo.

Na avaliação da especialista, o caso húngaro também se conecta a uma articulação internacional da extrema direita, com aproximações políticas e ideológicas entre lideranças como Orbán, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Vladimir Putin e Javier Milei. “O Viktor Orbán já estava no poder havia 16 anos e, se vencesse de novo, chegaria a 20 anos ou mais. Era um processo de corrosão da democracia que vinha sendo acompanhado com preocupação dentro e fora da Europa”, diz.

Geisa observa que, embora Magyar também seja um político de direita, sua ascensão foi lida como uma possibilidade de recomposição institucional. “Ele é um sopro de esperança porque, pelo menos, propõe reorganizar a democracia, que foi bastante afetada pela atuação de Orbán, que foi mudando as regras do jogo durante o jogo”, afirma.

Para a professora, a principal expectativa é que o novo governo recoloque a Hungria “dentro dos trilhos e das exigências da União Europeia”, sobretudo no que se refere à chamada cláusula democrática, que condiciona a permanência plena no bloco ao respeito a requisitos políticos, jurídicos e de direitos fundamentais.

Orbán reconhece derrota

Após o resultado, Orbán reconheceu a derrota e disse que “o resultado da eleição é doloroso para nós, mas compreensível”. Ele parabenizou o partido Tisza e afirmou que servirá ao país “mesmo na oposição.” “O peso da governança não pesa sobre nossos ombros no momento, e por isso é importante que também fortaleçamos nossas comunidades. E precisamos enviar uma mensagem a 2,5 milhões de eleitores de que não os decepcionaremos, declarou.

O primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán | Foto: Departamento de Comunicação do Primeiro-Ministro

Orbán é do partido Fidesz, fundado em 1988 como um partido anticomunista, liberal e pró-integração europeia, sendo um dos rostos da geração antissoviética desde o fim dos anos 1980. A partir de 2010, o primeiro-ministro construiu o que ele chamou de “democracia iliberal”, visto por adversários e instituições europeias como uma erosão sistemática do Estado de Direito.

Com maioria de dois terços, o Fidesz aprovou uma nova Constituição em 2011, alterando centenas de leis, redesenhou regras eleitorais, antecipou aposentadorias de juízes, ampliou a presença de leais em instituições-chaves e fortaleceu o domínio governista sobre o sistema de mídia. Desde 2022, Orbán governou com frequência por decretos amparados em estado de emergência.

No plano ideológico, combinou nacionalismo, agenda anti-imigração, defesa de “valores cristãos” e confronto com pautas LGBTQ+, além de uma política externa de “abertura ao Leste”, com laços mais próximos de Rússia e China.

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