Certa vez em 2010 ou 2011, ainda no ensino médio, talvez no segundo ano do ensino médio, eu comecei a sentir dores no pé estômago, logo depois de comer o x-salada completo, com bastante maionese verde, refrigerante, e eu acho que até um creme. Naquela época ainda tinha estômago para tomar tudo isso e um copão de creme no final. Era uma plena segunda-feira. Já na terça, a dor era insuportável, não consegui ir pra escola. Enquanto a dor aumentava, eu não conseguia comer.

Não lembro exatamente de como era a dor nessa semana, no começo dessa semana. Doía e eu não conseguia comer nada. Me levaram ao médico e eu passei de terça para quarta-feira internado tomando soro na veia para tratar uma suposta intoxicação alimentar. Não comi praticamente nada até quarta-feira. Meu pai irritado e preocupado, uma vez, amassou uma banana pra que eu conseguisse comer alguma coisa. Cuspi pela janela na hora que ele virou as costas. Ele viu no outro dia e se chateou.

Na quarta continuei mal, acho que mais um dia de soro. Chegou quinta à noite e a dor era tão grande eu andava embocado, corcunda, sem conseguir me esticar.

As suspeitas de intoxicação alimentar seguiram até a sexta-feira. Estava magro, pálido, sem forças e com o olhar fundo, quase sem vida. Pela manhã, passamos no postinho de saúde do setor ao lado do meu, em Trindade. Foi pedido, finalmente, um raio-x do estomago para assim entender o que estava acontecendo. Fui levado ao antigo Hutrin, no centro da cidade, e o exame foi feito.

Voltei ao postinho de saúde onde eu me consulto e a médica pediu para ver minha barriga antes de ver o raio-x. Ela se aproximou e levantou minha blusa, não sem triscar na minha barriga. “Aí”, gritei por causa do toque. Foi o suficiente, ela falou que era apendicite. Abriu o exame de raio-x e constatou que era apendicite. “E tá grave, corre pro Hugo, seu pedido de cirurgia está aqui”.

Eu cheguei ao hospital já quase no final do dia, estava sei lá, próximo das quatro ou cinco horas. E foi assim que eu entrei na faca.

Meu pai estava exausto, estressado e nervoso. Sendo extremamente sanguíneo que é, mais inclusive do que eu, mal conseguia raciocinar. Desespero puro. Um amigo da nossa família e pai dos meus dois melhores amigos de infância, o Barrião foi quem me levou para o hospital. Meus pais chegaram um pouco depois, com algumas mudas de roupa e coisas pessoais. Fui direto para uma espécie de guichê, tudo muito rápido. Entreguei o exame, o pedido de cirurgia e já fui enviado para a mesa de cirurgia.

Tiraram minha roupa, botaram aquele vestidinho hospitalar e fui encaminhado pra sala de cirurgia. Os braços e as veias dos braços estavam arrebentadas, principalmente do lado esquerdo. Pelo avanço da infecção, eu não fui completamente sedado. Me deram aquela mesma sedação em gestantes, feita na coluna, com uma agulha comprida.

E eu nem senti.

Não senti dor nenhuma nesse momento. Mas um pouco antes, quando ele, ele no caso, o anestesista, foi colocar um acesso na minha veia, pra um soro ou alguma coisa que auxiliasse na sedação, eu senti muita dor, porque os braços estavam arrebentados de tanto soro que eu tomei.

E aí foi assim. Começa a cirurgia. O médico ficava conversando comigo, perguntando coisas aleatórias sobre minha vida. Não faço a menor ideia de quem seja ele. Eu acho que a cirurgia foi rápida, até rápida. Talvez um hora ou duas.

Abriram a minha barriga, mas um pano azul tampava a minha visão. As luzes da sala de cirurgia estavam muito forte e eu não conseguia olhar pra cima. E eu tocava a minha perna, às vezes, e era como se eu tivesse pegando em algo muito estranho, cru. A sensação de se tocar em algo anestesiado é completamente alheio ao que a nossa cabeça consegue entender, porque tá ali, você sabe o que tá tocando e aquilo não demonstra nenhuma reação.

Lembro do médico me perguntar se eu jogava bola. E enquanto faziam a cirurgia, naquela correria na sala de um lado pro outro, eu sentia alguns repuxões na minha barriga. E o cirurgiã me perguntava se eu jogava bola.

Jogava. Ainda jogava bola aquela época.

Eu era volante, ou meio de campo. Talvez até um terceiro zagueiro, ou um ponta. Mas já joguei de goleiro também. E era dos bons. Era desatento, às vezes sentava no chão do campo, conversava com quem estava atrás do gol enquanto o jogo corria lá na frente. Enquanto isso, a cirurgia se desenrolava.

Em um dado momento, eu queria muito olhar como é que estava a minha barriga. Queria vê-la aberta, queria ver o que que estava acontecendo. Porque aquele pano não me dava acesso. Eu não conseguia muito bem movimentar meu pescoço, mas eu conseguia ver o rosto do médico, conseguia ver o rosto dos enfermeiros. Estava numa posição alta, a maca era bem alta.

Eu tive curiosidade de ver o meu apêndice.

O médico obviamente não deixou. Disse que eu iria vomitar caso eu visse a minha barriga aberta, o meu apêndice, o sangue, a sujeira que eu havia feito durante o procedimento. Eu falei: doutor, eu já vomitei umas trezentas vezes essa semana. Eu acho que eu já vomitei aqui durante a cirurgia. Eu estou todo cagado. Um vômito a mais não vai fazer diferença nessa equação. Deixa eu ver o maldito do apêndice”.

Ele não deixou, é lógico. Acho até que ele disse que me mostraria ou algo assim, mas no final de contas, não vi. Sentia os repuxões na barriga. Muito cansado. Eu estava muito cansado. O médico me explicou que colocaria um dreno no lado direito da minha barriga para remover pus, sangue e fluidos acumulados, prevenindo abscessos.

Pós cirurgia e um banho de mangueira, literalmente, eu passei a sentir muita sede. A boca estava ressacada, a garganta desértica, e eu pedia muito por água. Não poderia tomar, mas a equipe sugeriu uma gaze molhada para umedecer meus lábios. Tomar uma anestesia é um negócio de doido. É normal que se tenha alucinações. Eu achei que estava me afogando com aquela gaze meio úmida.

Quando cheguei no quarto, já era escuro, mais de sete horas da noite ou oito. Meus pais levaram um certo tempo pra subir, e eu fui colocado ao lado de um senhor que tinha tido problemas cardíacos. Também passou por cirurgia. Também passou por uma cirurgia delicada. Estava bem, já estava lá há alguns dias, se recuperava bem, falava. Não me lembro de vê-lo caminhar. Quando acordei no outro dia, a primeira coisa que eu perguntei pra ele foi e aí, como é que foi?

Eu perguntei pra ele como que tinha sido o pós cirurgia, porque eu tinha sentido uma alucinação louca com a água da gaze molhada. Ele disse que também sentiu muita sede e que teve outras alucinações, principalmente uma alternação de temperatura. Primeiro um calor extremo, seguido por um frio incontornável.

Passei alguns dias internado, aprontei algumas como segurar o vômito na cama, levantar, pegar o pedestal com o soro e sair correndo para o banheiro para vomitar lá. Levei a maior bronca, mas nem liguei. Depois que o senhor deixou o quarto, um jovem mais novo que eu chegou. Ele havia levado um tiro na cabeça e sobreviveu.

Todo mundo diz que eu quase morri. Quase morri mesmo. Passei pelo maior aperto. Fiquei entre a vida e a morte. Mas em nenhum momento eu me senti assim. Em nenhum momento eu achei que estava tão próximo da morte quanto eu realmente estava. Muita gente se preocupou. Muita gente se importou e muita gente me ajudou. E foi uma experiência e tanto.