Surgem novas crianças vítimas das torturas de Dr. Jairinho

Vítima, que na época tinha entre 3 e 5 anos, disse à polícia que vereador a deixou nua no chuveiro e a espancou – Local descrito pela criança, hoje com 13 anos, pode ter sido um motel

Foto tirada em 2012 mostra Jairinho ao lado de N; sua então namorada, e a filha dela, K., em viagem a Mangaratiba. Criança, na época com cerca de 5 anos, relata ter sido torturada , diversas vezes, pelo vereador | Foto: Reprodução

Segundo informações do jornal O Dia, que teve acesso exclusivo ao relatório da polícia enviado ao Ministério Público do Rio, uma criança que recebeu o criptônimo de “K.”, afirmou que foi torturada nua em um motel pelo vereador carioca Dr. Jairinho. Quem lavrou seu depoimento foram os policiais da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav) no último dia 23 de abril.

O caso de K. passou a ser investigado após sua mãe, denominada de N., procurar a polícia ao saber da morte do menino Henry Borel. Jairinho namorou N., que na época das torturas tinha 19 anos e sua filha, K., tinha 3. A promotora do caso, Eliza Fraga, denunciou Jairinho por tortura majorada, no mesmo dia. A defesa de Jairinho afirmou, na sexta-feira, que não iria se pronunciar sobre os casos investigados pela Dcav.

Em seu depoimento, K., hoje com 13 anos, afirmou que quando tinha entre 3 e 5 anos foi obrigada a ficar nua, entrar debaixo do chuveiro, e teve sua cabeça batida contra a quina da parede por diversas vezes por Jairinho, que vestia apenas uma sunga. Segundo a menina, não houve abuso sexual.

O depoimento foi cedido a um policial especializado, de acordo com a Lei Federal 13.341/2017. Nele, foi usado o método ‘Peace’, que é um interrogatório humanizado e possui os seguintes fundamentos: “evitar perguntas sugestivas, utilização de perguntas abertas, permitir o relato livre e espontâneo, tratar o entrevistado com cordialidade e estabelecer confiança”, diz trecho do documento.

Segundo o jornal O Dia, o relatório tem 67 páginas e não possui a transcrição do depoimento de K., mas destaca em curtas frases o que a jovem contou na especializada. “Ele me batia; me afogava; falava que eu atrapalhava ele e a minha mãe; batia com a minha cabeça nos lugares; me chutava; me afogava assim, por cima; torcia o meu braço; me levava para os lugares, lá ele me batia”, escreveu um agente, sobre as agressões relatadas.

Com relação à prática de agressões relacionadas a lugares específicos, K. disse: “ele entrava de carro; mandava eu ficar abaixada, debaixo do banco dele; ele entrava, tinha um quarto, tinha uma cama, na parte de fora tinha uma piscina; ele me afogava lá na piscina, no chão, com o pé (quanto a isto, K. apontou para região da própria barriga, como sendo a região na qual Jairinho colocava o pé); tinha parede escura; tinha cama, tv; ele batia a minha cabeça na quina da piscina; eu ficava no chão da piscina; jogava eu na piscina; ele entrava, jogava eu no chão da piscina, pisava, assim (K. fez movimentos com a própria perna), eu ficava debaixo d’água”. 

A jovem contou que pelo menos duas vezes Jairinho a afastou de outras pessoas, uma delas de madrugada. “Ele tinha uma casa, tinha uma sauna, fora da casa; tinha um jardim. Eu me lembro que ele me levou lá de madrugada”. Os agentes acreditam que essa casa seja a de Mangaratiba, para onde Jairinho viajava com a mãe da menina. Fotos mostram o casal com K. na residência, como uma em que eles estão próximos a um lago.

Sua mãe, N., também prestou depoimento e disse que certa vez, em Mangaratiba, Jairinho lhe deu um remédio para dormir. Ela, desconfiada de que ele faria alguma ligação para a ex-mulher, fingiu cair no sono. E, ao levantar, flagrou Jairinho segurando K. pelos dois braços no sofá. A menina estava assustada, com os olhos bem abertos. Ao indagar o que havia ocorrido, Jairinho lhe disse que estava ajudando K. “Ela teve um pesadelo, não foi K.?!”. A criança, com medo, concordou.

A menina também disse que uma vez estava brincando no shopping, quando ele a levou para o estacionamento, para dentro do carro. Tanto na ocasião da saída de madrugada, quanto na do shopping, ela não se recorda do que ocorreu. No entanto, lembra exatamente das frases que ele dizia antes de espancá-la. “Antes ele falava que eu atrapalhava muito ele e a minha mãe; que a relação deles seria mais fácil sem eu no meio; que eu atrapalhava a minha mãe em tudo; era sempre antes (referindo-se às agressões)”, diz outro trecho do documento.

O investigador que ouviu K. afirmou que a jovem “apresentou relatos que não denotam que foi sugestionada influenciada ou preparada por terceiros. Apresentou, durante as declarações, reações emocionais involuntárias, observados através do tom de voz, expressão facial, gesticulações e expressões corporais, demonstrando que o tema a mobilizava (…) e ainda durante a oitiva não compareceram elementos relatados como contraditórios ou dissimulados”.

Além da avaliação psicológica feita no depoimento especial, a menina contou que, determinada vez, Jairinho torceu tão forte o braço dela, que machucou o ombro. Ela, com medo, disse que se machucou na aula de Jiu Jtsu que praticava, e foi levada pela mãe quatro vezes a um hospital, até engessar o braço. A polícia conseguiu localizar todos os prontuários médicos, datados de 2011, que apontam a lesão no ombro. A polícia localizou o professor de Jiu Jtsu que, em depoimento, negou que K. tivesse se machucado em sua aula.

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