Nas últimas eleições, o voto dos militares em Goiás seguiu uma tendência histórica: a pulverização. Estima-se que a categoria movimente entre 150 mil e 180 mil votos no estado, mas a falta de consenso entre a categoria sempre deixou acabou deixando de eleger um candidato militar. Este ano, no entanto, o cenário ganhou um elemento inédito. O subtenente Paulo Sérgio de Souza, conhecido politicamente como Subtenente Sérgio, desponta como o único policial militar da ativa como pré-candidato a deputado federal por Goiás.

Essa exclusividade, contudo, não nasceu por acaso. O início da corrida eleitoral apontava para um cenário congestionado. Como bem registrou o Jornal Opção, ao analisar o fenômeno da “farda nas urnas”, a segurança pública desenhava uma entrada em peso na disputa, com múltiplos nomes testando a viabilidade. No entanto, muitos nomes declinaram ainda durante o período de pré-campanha, consolidando o Subtenente Sérgio como o único representante remanescente da PM na corrida federal. Mais do que uma sobrevivência política, ele agora carrega o peso de uma articulação que uniu, de forma inédita, 20 associações e sindicatos do setor.

O militar, que recentemente se licenciou da presidência da Associação dos Subtenentes e Sargentos de Goiás (Asmego) para cumprir os prazos da legislação eleitoral, reconhece a magnitude do desafio. “Hoje estou muito otimista, principalmente considerando que a gente nunca conseguiu gerar essa convergência. Os militares depositam a cada processo eleitoral algo em torno de 150 a 180 mil votos nas suas candidaturas. O fato de nunca conseguirmos ter eleito alguém é exatamente pela falta de convergência. Agora, esse ano, de forma muito especial, o que aumenta a minha responsabilidade e nos deixa muito convictos da possibilidade de alcançar esse mandato é que nós conseguimos convergir”, diz. 

Do Vale do Araguaia aos bastidores de Brasília

Nascido em Mozarlândia, no Vale do Araguaia, o Subtenente Sérgio traz na bagagem uma trajetória que mistura a rigidez da farda com o trabalho social de base. No início dos anos 2000, atuou como conselheiro tutelar e, anos mais tarde, à frente da Asmego, liderou projetos sociais voltados para idosos, escolinhas de futebol e karatê para crianças, e acolhimento a mulheres vítimas de violência. 

Na política regional, sua pré-candidatura também preenche um vácuo: ele é o único nome de sua cidade natal e região a pleitear uma vaga a deputado federal. A experiência com os bastidores do Poder Legislativo não é nova. Sérgio também atua como diretor de articulação política nacional da Associação Nacional dos Militares (ANERMB) e integra a comissão da Frente Parlamentar de Segurança Pública em Brasília. Para ele, o trânsito no Congresso Nacional é urgente, dada a quantidade de pautas de interesse da categoria que aguardam votação.

“Como policial militar e como representante de classe, nós temos a obrigação de fortalecer a representação dos militares no aspecto político do nosso estado, mas de forma muito especial é no Congresso Nacional, onde hoje tramitam mais de quatro mil processos referentes à segurança pública e aos militares especificamente. Essa realidade, junto com o fato de que os militares de Goiás nunca conseguiram eleger um deputado federal, é que nos move para buscar esse mandato e fazer com que essa categoria tão importante para o nosso estado tenha uma representação à altura “, comenta o subtenente. 

Para além do discurso macro político, a pré-candidatura se sustenta nos principais gargalos relatados diariamente pelos policiais que estão nas ruas. O principal deles, segundo o militar, é o severo déficit de efetivo, que gera uma sobrecarga de trabalho com reflexos diretos na saúde mental e na convivência familiar dos profissionais. No entanto, o subtenente afirmou à reportagem que há vários problemas listados pela categoria. “Nós temos um déficit muito grande quanto à questão da saúde, tivemos problemas que distanciaram a qualidade do serviço de saúde oferecido pelo IPASGO e os segurados. Têm as questões salariais, que são sempre um desafio muito grande. Nós contamos hoje também com um déficit de efetivo que acaba gerando uma sobrecarga nos profissionais, e isso deságua em uma série de consequências sociais, familiares e de saúde. O que nos coloca na compreensão clara de que sem uma interlocução política moderada, dependente, capaz de dialogar e convencer, fatalmente os prejuízos tendem a ser cada dia maiores”, comentou. 

Em um cenário estadual polarizado, o bloco liderado pelo Subtenente Sérgio adota uma postura de independência pragmática em relação ao Palácio das Esmeraldas. O grupo deixa claro que o apoio na disputa majoritária não será um “cheque em branco” e dependerá da abertura do governo para resolver as demandas da categoria.

“Nós temos discutido, são muitas lideranças envolvidas, na verdade são 20 associações e sindicatos apenas da segurança pública. Nós tivemos alguns resultados não satisfatórios durante a gestão do governador Ronaldo Caiado, mas hoje nós nos colocamos de forma totalmente independente e dispostas a construir uma relação com os candidatos a governador que venham a estabelecer compromissos para sanar os principais problemas que nós identificamos aqui na relação do estado com os agentes de segurança pública, especialmente com os militares”, afirma. 

Em contrapartida, o subtenente diz que já vem se reunindo com o atual governador de Goiás Daniel Vilela, onde foram apresentadas as pautas que causam insatisfação para a categoria. “Eu já tenho tido algumas conversas com o governador Daniel Vilela e acredito que o Daniel vai estabelecer compromissos e, principalmente, realizar aqui feitos que venham a gerar uma satisfação dos nossos militares de Goiás, principalmente em consideração a todo reconhecimento do resultado de segurança pública que nós temos obtido.”

Sem pressa para a definição partidária, prerrogativa que permite aos militares escolherem a sigla apenas no ato das convenções, o Subtenente Sérgio segue pavimentando o caminho para o que chama de uma representação de peso. Se antes o excesso de fardas nas urnas ameaçava anular a força política do setor, o afunilamento estratégico e a busca pelo consenso deixaram a segurança pública de Goiás com uma única e unificada rota rumo a Brasília.

Leia também: