O sarampo, doença que durante anos parecia fazer parte apenas do passado, voltou a preocupar autoridades de saúde em diferentes países. Os Estados Unidos enfrentam em 2026 um dos maiores surtos da doença das últimas décadas, enquanto o avanço dos casos nas Américas levou o Brasil a reforçar a vacinação e a vigilância epidemiológica.

O alerta ganhou força também por causa da facilidade de transmissão do vírus. Em agosto, o Ministério da Saúde destacou que os Estados Unidos vivem o maior surto de sarampo dos últimos 35 anos e reforçou a necessidade de manter a vacinação em dia. A Campanha de Multivacinação 2026, realizada em todo o país, segue até 1º de setembro e inclui a atualização da proteção contra o sarampo.

A situação internacional aumenta o risco de casos importados. Segundo o Ministério da Saúde, as Américas registraram 22.324 casos confirmados de sarampo em 17 países e territórios até 13 de junho de 2026, além de 38 mortes. Estados Unidos, México, Guatemala e Canadá concentravam 97% dos registros. No Brasil, havia 24 casos relacionados à importação do vírus, com 21 em acompanhamento em São Paulo.

O país, porém, mantém o status de livre da circulação endêmica do sarampo, reconquistado em 2024. O problema é que a existência de casos importados pode provocar novos surtos caso o vírus encontre pessoas que não estejam protegidas pela vacinação.

Doença altamente contagiosa

O sarampo é causado por um vírus transmitido principalmente pelo ar, por meio de tosse, espirro, fala e secreções respiratórias. A facilidade de transmissão faz com que uma pessoa infectada possa contaminar outras que estejam próximas e sem imunidade.

É justamente essa característica que torna a manutenção das coberturas vacinais tão importante. Quando aumenta o número de pessoas não imunizadas, cresce também a possibilidade de o vírus encontrar condições para voltar a circular.

O cenário observado nos Estados Unidos serve como exemplo. A atual explosão de casos mostra como uma doença controlada pela vacinação pode voltar a representar um problema de saúde pública quando existem grupos suscetíveis à infecção.

Quais são os sintomas do sarampo?

Os primeiros sintomas podem ser confundidos com os de outras infecções respiratórias. Entre os sinais mais comuns estão febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e mal-estar.

Depois de alguns dias, aparecem as manchas avermelhadas características do sarampo. Elas geralmente começam no rosto e atrás das orelhas e, posteriormente, avançam para outras regiões do corpo.

Também podem surgir pequenas manchas esbranquiçadas no interior da boca, conhecidas como manchas de Koplik, que são consideradas um sinal característico da doença.

A combinação de febre e manchas, principalmente quando acompanhada de tosse, coriza ou conjuntivite, deve levar à procura de atendimento médico.

Sarampo pode causar complicações graves

Apesar de muitas vezes ser associado apenas à febre e às manchas na pele, o sarampo pode provocar complicações importantes, principalmente em crianças pequenas e pessoas sem proteção adequada.

Entre os problemas que podem surgir estão pneumonia, otite e encefalite, uma inflamação do cérebro que pode deixar sequelas neurológicas.

Em situações mais graves, a doença pode levar à morte. Por isso, o sarampo não deve ser tratado como uma infecção infantil simples ou inofensiva.

Médico alerta para falsa sensação de segurança com doenças infecciosas

O cenário do sarampo também pode ser relacionado a uma preocupação mais ampla: a redução da percepção de risco em relação às doenças infecciosas depois que avanços médicos tornaram algumas delas menos frequentes ou mais controláveis.

O urologista e diretor executivo do Ânima Centro Hospitalar, Dr. Luiz Cláudio, chama atenção justamente para esse fenômeno ao analisar o crescimento dos casos de sífilis em Goiás. Embora esteja falando especificamente de uma infecção sexualmente transmissível, a avaliação ajuda a compreender como a diminuição da percepção de risco pode afetar os hábitos de prevenção.

Segundo o médico, a eficácia alcançada no tratamento do HIV contribuiu para uma mudança de comportamento em relação às ISTs.

“O que está por trás desse aumento é a diminuição de prevenção para infecções sexualmente transmissíveis. Com a eficácia do tratamento para HIV houve uma certa despreocupação generalizada com as ISTs, causando um recrudescimento dessas doenças.”

Para Luiz Cláudio, a sensação de que determinadas doenças deixaram de representar uma ameaça pode contribuir para que a população relaxe nos cuidados preventivos.

No caso da sífilis, Goiás registrou 12.012 notificações de casos adquiridos em 2025, o maior número da série histórica. Para o médico, os jovens estão entre os grupos mais atingidos justamente porque não vivenciaram o impacto das epidemias de décadas anteriores.

“Essa faixa etária não viveu o terror de décadas anteriores relacionadas à Aids. Isso deu a eles uma sensação de falsa imunidade e não estão dando a atenção devida à prevenção de ISTs.”

Dr. Luiz Cláudio | Foto: Divulgação

Embora o comentário do especialista seja relacionado às ISTs, o princípio ajuda a explicar por que doenças que pareciam controladas continuam exigindo atenção: a redução da percepção de risco não elimina o agente infeccioso.

O que acontece quando a vacinação diminui?

O histórico recente do próprio Brasil mostra o risco. O país recebeu, em 2016, a certificação de eliminação do sarampo. A partir de 2018, entretanto, o vírus voltou a circular, associado à redução das coberturas vacinais e ao fluxo migratório. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação depois de manter transmissão por mais de 12 meses.

O país chegou a registrar mais de 39 mil casos entre 2018 e 2022, com concentração principalmente em 2019. Depois disso, houve forte redução e, em 2023, não foram confirmados casos.

Em 2025, o Brasil voltou a registrar casos, mas conseguiu impedir que a situação evoluísse para uma transmissão sustentada. Segundo o Ministério da Saúde, foram 38 casos confirmados naquele ano e 94,7% ocorreram em pessoas sem histórico vacinal.

Vacinação é a principal proteção

A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é oferecida gratuitamente pelo SUS e integra o calendário nacional de vacinação.

A vacinação é especialmente importante diante da circulação do vírus em outros países, já que viagens internacionais podem favorecer a importação de casos.

Em São Paulo, onde foram identificados casos relacionados à importação do vírus, o Ministério da Saúde ampliou temporariamente a estratégia de vacinação para pessoas de 6 meses a 59 anos nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo.

A orientação para crianças de 6 a 11 meses, em situações específicas de circulação do vírus, pode incluir a chamada “dose zero”. Essa aplicação não substitui as doses previstas no calendário aos 12 e 15 meses.

E quem não sabe se foi vacinado?

Quem não tem certeza sobre o próprio histórico vacinal deve procurar uma unidade de saúde para conferir a situação da caderneta. A mesma recomendação vale para pais e responsáveis que tenham dúvidas sobre as vacinas dos filhos.

A Campanha de Multivacinação 2026 foi criada justamente para ampliar a atualização da caderneta de crianças e adolescentes menores de 15 anos. Além do sarampo, a mobilização oferece outros imunizantes previstos no Calendário Nacional de Vacinação.

O atual cenário internacional não significa que o Brasil esteja vivendo uma epidemia de sarampo. O país mantém a eliminação da circulação endêmica do vírus. O alerta é outro: com o sarampo avançando em outros países e casos importados chegando ao território nacional, manter a população protegida é fundamental para impedir que uma doença controlada volte a estabelecer cadeias de transmissão.

A experiência recente mostra que o fato de uma doença deixar de ser comum não significa que ela tenha desaparecido. Sem vacinação e vigilância, vírus que pareciam pertencer ao passado podem encontrar novamente espaço para circular.

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