Navio romano de 2,2 mil anos guarda no casco pistas de sua última viagem
27 agosto 2026 às 15h04

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Um navio romano que naufragou há cerca de 2,2 mil anos está ajudando pesquisadores a reconstruir parte de sua trajetória pelo Mar Adriático. A descoberta foi possível graças à análise de grãos de pólen preservados no material usado para impermeabilizar o casco. Os resíduos microscópicos permitiram identificar diferentes ambientes pelos quais a embarcação pode ter passado e indicam que ela foi revestida e reparada em momentos distintos.
Batizado de Ilovik-Paržine 1, o navio tinha aproximadamente 21 metros de comprimento e afundou no século 2 a.C., na região da atual Croácia. A embarcação foi descoberta em 2016 e já havia sido analisada por pesquisadores interessados em compreender as técnicas de construção naval utilizadas na Antiguidade.
Agora, uma equipe formada por cientistas da França e da Croácia examinou dez amostras do material que cobria a madeira do casco. O estudo identificou diferentes camadas de revestimento, fornecendo novas pistas sobre a história da embarcação.
Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Materials, em abril de 2026.
Piche, cera de abelha e tecnologia naval
Os pesquisadores descobriram que o principal material usado para impermeabilizar o casco era o piche, produzido a partir de resinas de coníferas, como os pinheiros. O produto era aquecido e aplicado sobre a madeira para reduzir a entrada de água.
Uma das amostras apresentou, porém, uma composição diferente: piche misturado com cera de abelha. A combinação, conhecida em fontes antigas como zopissa, tornava o revestimento mais flexível e facilitava sua aplicação ainda quente.
A análise molecular dos materiais permitiu identificar moléculas características de plantas da família dos pinheiros. Com isso, os pesquisadores conseguiram determinar a origem vegetal da resina utilizada no revestimento.
A presença da zopissa também é relevante para entender a circulação de conhecimentos na região. A técnica era associada à tradição da construção naval grega e sua utilização em um navio romano indica que métodos de diferentes culturas podem ter sido incorporados e transmitidos ao longo do Mediterrâneo.
Pólen funciona como uma espécie de mapa
A principal descoberta, no entanto, estava nos grãos de pólen presos ao piche. Como o material é pegajoso, partículas transportadas pelo ar podem ficar incorporadas ao revestimento. Preservados por milhares de anos, esses resíduos podem revelar informações sobre a vegetação existente nas regiões onde o material foi produzido ou aplicado.
Entre os vegetais identificados nas amostras estão azinheiras, pinheiros, oliveiras, aveleiras, amieiros e freixos. A combinação dessas espécies é compatível com diferentes ambientes costeiros e vales do Mediterrâneo e do Adriático.
Também foram encontrados vestígios de pólen de abetos e faias, árvores associadas a áreas montanhosas. Esses sinais são compatíveis com regiões do nordeste do Adriático, incluindo áreas próximas à Ístria e à Dalmácia.
A diversidade encontrada indica que o revestimento do navio provavelmente não foi produzido e aplicado em um único local.
Quatro ou cinco camadas revelam reparos
A análise estatística identificou entre quatro e cinco lotes diferentes de revestimento no casco. A região central e a popa apresentavam materiais semelhantes, enquanto três tipos distintos foram encontrados na proa.
Para os pesquisadores, a diferença pode ser resultado de reparos realizados em momentos diferentes da vida útil da embarcação. Isso significa que o navio pode ter recebido novas camadas de proteção depois de passar por diferentes portos ou estaleiros.
A descoberta complementa pesquisas anteriores. A análise do lastro — material pesado colocado no fundo da embarcação para garantir estabilidade — havia apontado Brindisi, na costa sudeste da atual Itália, como provável local de construção do navio.
Parte dos resultados obtidos pela análise do pólen é compatível com essa hipótese. Outras amostras, porém, apresentam características associadas a regiões do nordeste do Adriático, sugerindo que a embarcação passou por novos locais para receber manutenção.
Segundo Armelle Charrié-Duhaut, arqueometrista da Universidade de Estrasburgo e primeira autora do estudo, a análise permite identificar diferentes tradições de construção e manutenção naval existentes no Adriático.
Evidências de manutenção durante a vida do navio
O estudo também oferece evidências sobre como embarcações antigas eram mantidas durante viagens de longa distância. A existência de várias camadas de revestimento demonstra que o casco recebeu intervenções ao longo do tempo.
A comprovação arqueológica desse tipo de manutenção é difícil porque muitos dos materiais utilizados na época desaparecem. No caso do Ilovik-Paržine 1, porém, o piche permaneceu preservado e funcionou como uma espécie de cápsula do tempo.
Além de ter ajudado a proteger a madeira da água, o revestimento manteve presos grãos de pólen capazes de revelar informações sobre os ambientes por onde o navio passou.
Para os pesquisadores, a combinação entre análise química e estudo do pólen permite reconstruir aspectos da história de embarcações antigas que dificilmente seriam identificados apenas pela estrutura de madeira.
No caso do Ilovik-Paržine 1, os vestígios indicam que o navio não apenas navegou por diferentes regiões do Adriático, mas também passou por processos de manutenção e reparo ao longo de sua trajetória, deixando no próprio casco pistas de sua circulação pela região há mais de dois mil anos.


